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Longevidade Animal: de 30 Minutos à Imortalidade

De 30 Minutos à Imortalidade

A imortalidade representa, desde há milhares de anos, um fascínio para a humanidade, intimamente ligada à busca pela “fonte da juventude”. Lendas, especulações, religião, fantasias, crenças no oculto e no sobrenatural, ciência e tecnologia, são várias as formas que representam a busca do ser humano pela atraente fórmula da vida eterna.

A história conta-nos que a imortalidade é um conceito presente na humanidade desde muito cedo. No antigo Egito, acreditavam que era necessário conservar o corpo dos falecidos para que as suas almas pudessem percorrer o caminho que as levaria à vida eterna. Uma das primeiras obras conhecidas da literatura mundial, a Epopeia de Gilgamesh, datada do século XXVII a.C., conta, na parte final, a busca pela imortalidade de Gilgamesh, transtornado pela morte do seu companheiro Enkidu, cuja vida eterna que lhe seria negada pois “quando os deuses criaram o Homem, reservaram-lhe a morte, porém mantiveram a vida para sua própria posse”.

Até hoje, essa busca da vida eterna permanece… viva. Futurando o avanço da ciência e da tecnologia bem como o uso de órgãos sintéticos e a criação de homens-robôs, a imaginação é o limite numa tentativa quase desesperada de combater o destino que é comum a todos os seres vivos: a morte. Ou melhor, a quase todos.

O ser humano, porém, não terá grandes razões de queixa em termos biológicos, comparando com os seres vivos que o rodeiam. São bastante mais os animais com esperança de vida inferior, do que os que conseguem viver mais tempo. E existem animais com uma vida tão curta como uns meros…

… 30 minutos de existência

A efémera pode viver apenas trinta minutosMuitos se lembrarão de um anúncio publicitário da Vodafone, centrado num pequeno inseto do grupo do grupo das libélulas, a efémera. O anúncio, muitas vezes comentado como um dos melhores da televisão, apela a “viver o momento”, dando como exemplo a efémera, que não tem qualquer preocupação pelo facto de não durar mais do que 24h, pois “preenche esse dia com as coisas que mais adora”, enquanto que o ser humano, em 80 anos de vida, não faz o mesmo.

Evidentemente o anúncio utiliza a personificação, como meter a efémera a jogar ténis ou a oferecer uma flor à companheira. Mas o conceito do anúncio está correto. A efémera(1), dependendo da espécie, tem uma esperança de vida que vai dos 30 minutos até às 24 horas, muito raramente chegando aos 2 dias de vida. Durante esse curtíssimo espaço de tempo, a efémera foca-se essencialmente na reprodução. A sua boca é vestigial e o sistema digestivo é preenchido com ar, pelo que a efémera não se alimenta. Não precisa. Quando se desenvolvem muitas ao mesmo tempo, formam-se grandes grupos de efémeras no ar, que podem ser vistas a “dançar” umas com as outras ou a descansar em superfícies confortáveis. Reproduzem-se. E quando chega a sua hora, que pode ser literalmente nesta ou na próxima hora, morrem. A vida efémera da efémera é usada como um exemplo de vida e uma inspiração a fazermos aquilo que mais gostamos, neste momento, pois podemos não ter direito a um momento seguinte numa vida que parece passar a correr.

Quem consegue viver um pouquinho mais de tempo do que a efémera, é uma criatura microscópica com um máximo de 3 milímetros de comprimento, chamada gastrótrico, que apesar de não parecer, é um animal. Os gastrótricos vivem em água doce e são já conhecidas mais de 600 espécies destes animais, que apesar das dimensões reduzidas, possuem vários órgãos como cérebro e um sistema digestivo completo. A esperança média de vida dos gastrótricos em ambiente selvagem não ultrapassa os três dias, sendo que em condições artificiais de laboratório, já chegaram aos 10 dias de vida.

As formigas têm ciclos de vida interessantes e sobretudo díspares entre si. Os machos férteis vivem, em média, duas semanas, enquanto que as formigas rainhas chegam a viver 30 anos. A “recompensa” para estes machos é a de não trabalharem, ao contrário das operárias (que vivem entre 1 a 3 anos). E os parentes das efémeras, as libélulas, em comparação com as primeiras vivem uma eternidade, mas comparado connosco é uma insignificância: uma média de 4 meses.

A Longevidade dos “nossos” Animais

As ratazanas vivem em média dois anos

Mais conhecidos das nossas casas, os ratos, também têm uma curta duração. Aliás, para aqueles que como eu têm nas ratazanas de estimação (imagem em cima), nos ratos marinheiros, nos gerbos ou nos hamsters, um dos seus animais de estimação favoritos, a duração de 2 a 4 anos é uma verdadeira maldição depois de tão rapidamente nos afeiçoarmos a eles…

Recentemente um estudo do Institute for Wildlife Ecology, debruçou-se sobre estes animais e a sua curta longevidade, mais concretamente o caso dos hamsters. Experiências feitas nos hamsters siberianos, demonstraram que quando estes animais abrandam o seu metabolismo e diminuem a sua temperatura corporal, isso interrompe e até mesmo reverte o natural decaímento (a que podemos chamar envelhecimento) dos cromossomas.

Anteriormente já tinham sido sugeridas ligações entre a hibernação dos animais e o aumento da sua longevidade, mas este estudo, liderado pelo investigador Christopher Turbill, é o primeiro a demonstrar o mecanismo biológico que ocorre nessas situações.

De forma óbvia e remetendo-nos para o primeiro parágrafo, surgiu um natural interesse em saber se era possível induzir esse tipo de hibernação no ser humano que lhe permita viver mais anos. A ciência não chegou, sequer, perto disso. Sem qualquer tipo de hibernação ou método artificial, o ser humano que mais longe chegou foi Jeanne Louise Calment, francesa, que nasceu em 21 de Fevereiro de 1875 e morreu dia 4 de Agosto de 1997, portanto com 122 anos de idade. Uma supercentenária que figura destacadamente no Guinness Book.

Voltando a outros animais, mais concretamente os animais de estimação, poucos são aqueles que nos possam acompanhar durante uma vida, muito menos se a nossa vida for tão longa como a da senhora Calment. Os gatos e os cães ficam-se pelos 15 anos, raramente chegando aos 20 anos, pelo que praticamente todos os donos destes animais, mais cedo ou mais tarde, enfrentam a dor da separação. Ainda entre os mamíferos, os coelhos e os esquilos podem durar um pouco mais do que 10 anos.

Existem apenas dois animais de estimação com uma longevidade comparável à do ser humano, ou seja, os chamados animais para toda a vida: papagaios e tartarugas.

Os papagaios têm esperanças de vida muito variáveis, mas algumas espécies, como os maracanãs e os cinzentos africanos, podem chegar até aos 80 anos de idade se bem tratados. Por bem tratados, entende-se ter o conhecimento e a noção de que são aves com uma capacidade cognitiva superior, portanto muito inteligentes e que requerem atenção/interação por parte dos donos para terem a chamada qualidade de vida – que é também o que lhes permite durar tanto tempo. Uma ave destas não pode ser “enfiada” numa gaiola e ficar a “falar sozinha”, sem companhia ou divertimento. Esse stress acaba por lhe causar problemas comportamentais e até a própria morte.

O papagaio-verdadeiro e a cacatua, podem também chegar e até ultrapassar os 70 anos de vida, pelo que qualquer uma destas aves de estimação é de facto um compromisso de vida por parte dos donos. Um pouco menos mas igualmente expressivos são os cerca de 40 anos de idade que podem atingir os conures.

As tartarugas de estimação podem viver mais de 100 anosJá no que às tartarugas diz respeito, são animais perfeitamente capazes de superar os donos. Se pretende ter um animal a sua vida toda e ainda deixá-lo como herança aos seus filhos ou netos, então uma tartaruga é mesmo a escolha ideal para ver passar gerações à sua frente. Não é de estranhar, portanto, que em algumas culturas (como a chinesa), as tartarugas simbolizem a longevidade.

Um dos animais mais velhos de que há registo, é uma tartaruga-radiada-de-Madagáscar chamada Tu’i Malila, oferecida pelo capitão James Cook à família real do Tonga, quando visitou aquele país. Tu’i Malila nasceu por volta de 1777 e ficou na família real até morrer, no dia 19 de Maio de 1965, de causas naturais, com uns extraordinários 188 anos de idade.

Outra tartaruga mundialmente famosa foi Adwaita, que viveu no zoo de Alipore, na Índia. Adwaita era uma tartaruga-gigante-de-Aldabra, que foi trazida para a Índia por Lord Wellesley, que a levou para o zoo de Alipore em 1875. O zoo possuí documentação que comprova que a tartaruga, à data da sua morte em 23 de Março de 2006, tinha 130 anos de idade, mas alega que em termos reais a tartaruga teria cerca de 255 anos de idade, uma vez que registos históricos apontavam que esta era, há muitos anos, um dos animais de estimação do General Robert Clive (1725 – 1774). Caso seja factual, Adwaita será o animal vertebrado conhecido que mais anos viveu à face da Terra.

Um pouco menos do que isso viveu a tartaruga Harriet, residente no zoo australiano de Queensland, alegadamente trazida para Inglaterra por Charles Darwin no Beagle e posteriormente transportada para a Austrália por John Clements Wickham. Morreu no dia 23 de Junho de 2006, crê-se que no seu 176º aniversário. No que diz respeito a tartarugas de estimação, podem viver dos 30 aos 130 anos, mas por falta dos devidos cuidados, uma grande percentagem morre no 1º ano de vida.

Animais Centenários

O tubarão-baleia pode viver cerca de 150 anos

A fasquia dos 100 anos de idade é extremamente difícil de atingir. A esmagadora maioria dos animais, nunca lá chega. O ser humano chega em raras exceções, como a anteriormente citada mulher mais velha do mundo, que morreu com 122 anos, ou o nosso realizador português Manoel de Oliveira, com quase 103 anos de idade e ainda está a fazer filmes.

Generalizando, tudo o que “vive muito tempo”, pertence à água. A exceção das tartarugas terrestres confirma a regra.

No passado mês de Agosto, publicamos no nosso site uma notícia acerca de uma lagosta com 8 quilos de peso, capturada originalmente para servir de almoço num restaurante. As suas grandes dimensões ajudaram-na a escapar do triste destino, porque explicando de uma forma simples, não havia no restaurante qualquer recipiente onde a lagosta coubesse para ser cozinhada. Foi então doada ao New York Aquarium, onde é uma das atrações desde então e estima-se que pelo tamanho e pelo peso, esta lagosta tenha cerca de 75 anos de idade.

Porém, uma outra lagosta a que chamaram George, capturada em Dezembro de 2008 e libertada em Janeiro de 2009 (serviu de atração turística no aquário de um restaurante durante 10 dias), pesava 9,1 quilos e foi-lhe estimada uma respeitável idade de 140 anos. A estimativa partiu por parte da organização PETA, que não revelou o tipo de cálculos que fez para chegar a tal número. Alguns cientistas garantem que o máximo que uma lagosta poderá atingir, são mesmo os 100 anos de idade. Diz-se popularmente que a lagosta aumenta cerca de 1 quilo de peso a cada 15 ou 20 anos, dados não comprovados.

Os tubarões fazem parte do restrito grupo dos animais centenários. Apesar da maioria das espécies não viverem mais de 30 ou 40 anos,  o dogfish (Squalus acanthias) só se torna sexualmente maduro aos 20 anos e vive até aos 100. Foi baseado neste tubarão que se calculou a possível esperança de vida dos tubarões-baleia. Se o dogfish atinge a maturidade aos 20 e atinge os 100, o tubarão-baleia que só atinge essa maturidade sexual aos 30, terá a possibilidade de viver, provavelmente, até aos 150 anos.

Outros peixes, como os esturjões e os celacantos, também conseguem atingir a fasquia dos 100 anos. Surpreendente foi a descoberta de uma enguia-europeia (Anguilla anguilla), em 2008 pela Swedish National Board of Fisheries, que tinha nascido no Sul da Suécia em 1859. Com 53 centímetros e meio, a enguia apresentava uns olhos excecionalmente grandes.

Viver através dos séculos

Aumentando a fasquia até aos 200 anos (sim, este artigo vai mesmo até à imortalidade), temos por exemplo a mais velha carpa chinesa registada, com o nome de Hanako, nascida em 1751 e falecida a 7 de Julho de 1977. Como será de imaginar, a carpa teve diversos donos ao longo da sua vida e não foi por abandono…

A baleia-da-gronelândia pode viver até aos 200 anosA baleia-da-gronelândia, um mamífero gigante que pode crescer até aos 20 metros de comprimento e que habita toda a sua vida  nas águas geladas do Ártico, pode viver até aos 200 anos, superando largamente a média de idades das outras espécies de baleias, entre os 60 e os 70 anos. Em Maio de 2007, uma baleia-da-gronelândia capturada no Alasca tinha partes de um projétil fabricado no ano de 1890, sugerindo que este animal sobreviveu a uma tentativa de caça no século XIX. Em 2007, porém, a nova tentativa de caça foi e infelizmente para a baleia, bem sucedida.

O bodião de rougheye (Sebastes aleutianus) é um peixe com uma coloração avermelhada, que vive junto ás formações rochosas do oceano e que se estima poder viver até aos 205 anos, apesar da idade máxima reportada ter sido de 140 anos.

Partindo dos peixes para os moluscos, vamos fazer uma impressionante e rápida viagem dos 200 aos 500 (!) anos de vida, começando pelo mexilhão-perlífero-do-rio (Margaritifera margaritifera), que chega até aos 210 anos de idade. Esta extraordinária capacidade não tem, contudo, sido capaz de afastar este mexilhão da lista das espécies ameaçadas, ele que foi, em tempos, o bivalve mais comum dos rios e hoje está extinto em muitas localizações. As causas do seu desaparecimento acentuado não são inteiramente claras, embora a degradação do ambiente aquátco e introdução de espécies invasoras desempenhe um papel inquestionável na morte dos indivíduos.

Já a ameijoa-mercenária (Mercenaria mercenaria) bate todos os animais anteriores ao viver uns incríveis 400 anos, medição feita com base nos “anéis” presentes nas suas conchas, semelhantes aos anéis dos troncos das árvores.

O que dizer então da ostra-das-profundezas (Neopycnodonte cochlear)? A melhor candidata a ser batizada com o nome de Matusalém (personagem bíblico que teria vivido vários séculos), a ostra-das-profundezas pode viver por mais de 500 anos, atravessando literalmente diversos séculos e gerações humanas. Isto significa, teoricamente, que algumas destas ostras que hoje habitam os oceanos, já eram vivas quando as caravelas portuguesas lideradas por Pedro Álvares Cabral, descobriram o Brasil. Dá para imaginar o que é viver tanto tempo? Certamente a espécie humana não se importaria.

Animais Imortais

A Medusa Turritopsis nutricula é biológicamente imortal

Chegamos por fim à imortalidade. Mas será uma imortalidade em termos absolutos? Como é viver para sempre?

As medusas Turritopsis nutricula e Turritopsis dohrnii podem conhecer essas respostas. Mas para percebermos como estas duas medusas chegaram à imortalidade biológica, temos primeiro de perceber o ciclo de vida normal de uma medusa… normal.

O nascimento ocorre de um ovo, do qual o animal sai no estado larvar. Esta larva chama-se plânula, tem a forma de uma pêra e possui apêndices semelhantes a pestanas, chamados cilos, em torno de todo o corpo. Em determinadas espécies, é a plânula que se vai desenvolver numa medusa adulta tal e qual conhecemos. Noutras espécies, porém, a plânula vagueia até encontrar um substrato apropriado, ao qual se fixa e transforma-se naquilo a que chamamos pólipo. Os pólipos são semelhantes a corais, aliás são mesmo parentes: a diferença aqui é que os pólipos nas medusas correspondem a animais não totalmente formados enquanto que nos corais, é já a sua forma adulta.

As medusas no estado de pólipo reproduzem-se assexuadamente, formando gomos, que são réplicas do pólipo que lhes deu origem. Estes gomos tanto podem soltar-se até se fixar noutro substrato, como iniciar o processo chamado estrobiliação, no qual se dividem transversalmente em vários discos sobrepostos. No caso dos corais, estes gomos não se soltam e são eles que constroem o “esqueleto” do coral, contribuindo para a sua expansão (aquilo que conhecemos como recifes de corais).

No caso das medusas, os discos pré-formados libertam-se sob a forma de uma nova larva, a éfira, que é livre-nadante. As éfiras, a que podemos chamar medusas bebés, crescem e desenvolvem-se até formarem medusas adultas, que ao contrário dos pólipos, são sexualmente diferenciadas em machos e fêmeas.

Para efeitos de reprodução, as medusas libertam os óvulos e os espermatozoides na água, onde se dá a fertilização e a formação de novos ovos, que por sua vez vão original mais plânulas e recomeçar o ciclo. As medusas que lhes deram origem morrem após a reprodução, e é exatamente aqui que entra em cena a magia biológica das duas Turritopsis: em vez de morrerem, rejuvenescem, contrariando a velhice e a própria mortalidade.

O processo de rejuvenescimento consiste num tipo de metamorfose invertida. Nela, estas pequenas medusas de 5 milímetros de diâmetro, interrompem o envelhecimento e regressam à fase de pólipo. Como termo de comparação, é como se uma borboleta em vez de envelhecer e morrer, regressasse à fase de lagarta e voltasse a desenvolver casulo e por fim, borboleta de novo, repetindo este processo ad infinitum.

As Turritopsis fazem isto com um processo chamado transdiferenciação. Basicamente, consiste em transformar uma célula noutra. Um exemplo mais conhecido é o da salamandra, que consegue regenerar membros. Estas medusas detém a exclusividade de conseguir regenerar o corpo inteiro.

Esta imortalidade das medusas Turritopsis não é, no entanto, a garantia da vida eterna. Apesar de estarem imunes à velhice e à morte por causas naturais, o seu incrível processo biológico não as protege, por exemplo, de predadores – e existem vários animais que consideram as medusas um petisco.

Ainda assim, a primeira consequência que se poderia esperar de uma criatura imortal, é que tivesse a tendência para a sobre-população. E é exatamente isso que sucede.

Sabendo que as populações dependem dos nascimentos, mortes, imigrações e emigrações – o primeiro e o terceiro fazem a população crescer enquanto que o segundo e o quarto têm o efeito contrario – a Turritopsis, em particular a T. nutricula, está a invadir as águas de todo o mundo. Os cientistas detetaram, através de análises genéticas, que as medusas que identificaram em determinados locais, vieram a aparecer noutros a grandes distância. Perante isto, especulam que as medusas estejam a apanhar boleia dos cargueiros, o que não deixa de ser brilhante em termos de difusão. Como se não bastasse, estas medusas têm ainda a particularidade de modificarem o seu corpo consoante o clima, variando entre 8 e mais de 24 tentáculos. As razões desta alteração por parte de uma mesma medusa, são até agora desconhecidas.

É pouco provável que as Turritopsis tragam alguma novidade à busca humana pela imortalidade. Somos seres demasiado complexos – pelo menos quando comparados com medusas – para um revertimento total. Mas podem fornecer novas pistas contra defeitos celulares. Como por exemplo, o cancro.

A longevidade das espécies de animais
(clica na imagem para aumentar)

Estamos programados para morrer

De uma forma simples, é isso que acontece. Por exemplo, o nosso corpo é mais jovem do que provavelmente pensamos, pois independentemente da nossa idade, os nossos tecidos estão em constante renovação e a média de idades das células do nosso corpo, é de 7 a 10 anos. Mesmo que o leitor tenha 80 anos.

Além disso, as nossas células carregam o material genético que contém as instruções para todas as fases da nossa vida. Isso significa, em termos práticos, que temos sempre as instruções para produzir o colagéneo que mantém a nossa pele elástica e sem rugas. A borboleta mantém nas suas células as instruções para desenvolver novamente a lagarta. O que acontece, é que essas instruções, apesar de presentes, não são traduzidas quando não o “devem” ser.

Claro que isto é uma visão simplificada e existem inúmeros outros processos em ação. Os telómeros, estruturas que se encontram nas extremidades dos cromossomas com a finalidade de manter a estabilidade destes, decaem com o tempo e ficam mais pequenos e desgastados à medida que as células se vão dividindo, sendo assim considerados uma marca do envelhecimento biológico. Como não se regeneram, os telómeros acabam por se esgotar num determinado momento. Qual a consequência? O organismo morre. E dependendo da espécie ou mesmo dos próprios indivíduos dentro da espécie, uns envelhecem mais depressa do que outros.

Além da genética, muitos outros fatores contribuem para o tempo de vida de um organismo. Que é como quem diz, é fácil morrer. Doenças, acidentes, falta de alimento ou água, morte provocada por outras pessoas, animais ou fenómenos da natureza, a nada disso somos imunes. Nem a medusa imortal.

A medusa imortal pode ser morta de várias formas, por maior contra-senso que isto represente. Se for envenenada, predada ou deixada à fome, morre como qualquer outro organismo. Ser capaz de rejuvenescer é, contudo, uma habilidade única e extraordinária, para não se dizer mesmo invejável.

Mas não morrer nunca, seria um problema?

Seguramente. A eventual imortalidade em termos absolutos, ou seja a vida eterna, produziria em primeira instância um desequilibro total do ecossistema, e podemos pegar no nosso próprio caso para compreender isso: se atualmente, com pessoas a nascerem e morrerem todos os dias, já se constata a sobre-população no planeta, o gasto acentuado dos recursos naturais e falta de alimento para muitos povos, como seria se as pessoas não morressem?

Tudo isto levanta uma panóplia de outras questões. A imortalidade pressupõe que tanto os “bons” como os “maus” tivessem a mesma regalia de continuar por cá infinitamente. E se para uns, a vida eterna de um assassino ou de um violador será uma forma ainda maior de castigo, para outros seria uma regalia intolerável. A nossa própria consciência e personalidade, que se altera a cada fase das nossas vidas, como seria após 200, 500 ou 1000 anos de existência, numa escala de tempo que não é a nossa e num mundo que não nos pertencia?

A busca pela imortalidade, contudo, vai acompanhar a nossa civilização, todos os dias, como o faz desde há milhares de anos. Porque não queremos morrer. Não queremos que os nossos familiares e amigos partam. Ou que os nossos animais de estimação, desapareçam.

Este artigo foi publicado na Revista Mundo dos Animais nº21.

(1) A duração da vida da efémera é contabilizada a partir do momento em que desenvolve as asas e atinge o estado adulto. Antes disso, e enquanto náiade (fase imatura, aquática), habitam a superfície de lagos e riachos durante alguns meses até um ano.

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