Vídeos com Animais: O Outro Lado

O outro lado dos vídeos com animais

Fotografia original: Paul Reynolds

*Este artigo foi originalmente publicado a 13 de Abril de 2012 e atualizado a 11 de Junho de 2015, com novas informações.

Vídeos com animais podem ser adoráveis, apaixonantes, curiosos.

Com a facilidade que temos hoje em dia de filmar qualquer coisa, em qualquer lugar e a qualquer momento – até os telemóveis mais baratos trazem câmara integrada – todos os dias temos milhares de novos vídeos em sites como o Youtube, o Vimeo ou o Instagram.

No caso dos animais, puxam ao nosso lado mais emocional, sobretudo quando se tratam de animais que nos são próximos há milhares de anos como os cães e os gatos. Os gatos são mesmo considerados Reis da Internet pois conseguem ser protagonistas em tudo o que seja fotografia, vídeo ou história.

E isto não tem nada de errado. Pelo contrário.

Os vídeos com animais são um meio interessante de nos aproximar deles, querer saber mais sobre eles, senti-los mais próximos de nós.

Porém, nem todos os vídeos de animais são tão fofinhos como à primeira vista parecem.

O outro lado de alguns vídeos com animais

Vídeos com animais: o outro lado

Fotografia original: bullcitydogs

Quando assistimos a vídeos de animais a fazer coisas adoráveis, a nossa primeira reação é partilhar os vídeos pelas nossas redes com todos os nossos amigos.

É assim que os vídeos se tornam virais, ou seja, ganham popularidade através da partilha e chegam ás centenas de milhares de visualizações num curto espaço de tempo.

Esta popularidade e o lucro que daí advém, direta ou indiretamente, atrai algumas pessoas bastante interessadas no aspeto lucrativo dos vídeos – mas nada, nadinha, interessadas no bem-estar dos animais que forçadamente os protagonizam.

Isto vai desde colocar em risco um animal de companhia para criar uma cena dramática, até colocar em risco uma série de espécies selvagens e incentivar o tráfico de animais.

Quando se tratam de animais selvagens, o nosso desconhecimento (por vezes total) do seu comportamento natural leva-nos a tirar conclusões erradas sobre o que estamos a assistir. Como veremos mais em baixo, um lóris com aparente cara de satisfação, estará realmente satisfeito?

Do lado do espetador, parece-nos uma cena natural e até querida, mas um pouco de investigação mostra-nos o outro lado.

É esse lado, o outro lado de alguns vídeos com animais, que lhe quero dar a conhecer neste artigo.

Se as pessoas, como eu e você, souberem distinguir os vídeos genuínos, em que os animais não foram de modo algum ameaçados ou magoados, dos vídeos que desrespeitam de forma total os animais para lucrar com o seu sofrimento, esta prática irá acabar. Porque esses vídeos não merecem partilha, merecem denúncia.

Veja estes casos:

O outro lado de um salvamento heróico

O outro lado dos vídeos com animais

Fotografia original: David de la Luz

Há cerca de 3 anos, deparei-me com um vídeo no Youtube que registava um heróico salvamento canino capaz de despertar a nossa maior admiração.

Veja-o primeiro:

O argumento do vídeo é simples e tem todos os ingredientes para ser popular: um cachorrinho está aflito dentro de água sem conseguir sair e a mãe do pequeno, num ato heróico, salta para dentro da piscina e salva o filhote.

Adiciona-se uma musiquinha dramática a condizer e temos o vídeo perfeito.

Acabamos de assistir ao vídeo e o nosso coração está preenchido de admiração e respeito pela mamã cachorra (na verdade, a admiração será ainda maior, já vai perceber porquê).

Partilhamos o vídeo com os nossos amigos, sem hesitar.

Mas depois, quando o nosso lado emocional começa a dar novamente lugar ao racional, acabamos por nos questionar: como é que aquilo se passou?

  • O que estava o cachorrinho a fazer dentro de água no meio de uma piscina?
  • Como foi lá parar?
  • As pessoas que se ouvem no vídeo (a rir) não fazem nada, porquê?
  • Quem estava a filmar não fez nada, porquê?
  • E como é que estava no sítio certo, com o melhor ângulo para filmar o salvamento do início ao fim?

Muitas questões para uma resposta simples: o vídeo foi encenado.

Não acredita? Veja com atenção o primeiro frame:

Primeiro frame do vídeo do salvamento do cachorrinho

Primeiro frame do vídeo do salvamento do cachorrinho

O que temos ali no meio da piscina? Um splash na água, estou certo?

Partindo do princípio que o pequeno não voa e também não cai do céu, resta ter sido atirado para a água.

Repare que a mãe já se encontra a olhar naquela direção no momento do splash, como se soubesse que o cachorrinho ia cair ali.

Quem estava a filmar sabia como a mãe ia reagir quando visse que o seu filhote estava (outra vez) em apuros; para onde estava a olhar e o local onde o cachorrinho ia cair, pois tinha a câmara perfeitamente enquadrada com a cena.

O salvamento do cachorrinho continua a ser um ato admirável, daí ter dito em cima que a admiração pela cachorrinha seria ainda maior.

Mas o que temos neste vídeo são dois animais maltratados e um deles (o pequenito) a correr mesmo risco de vida.

Quantas vezes foi atirado para a água? Quantas vezes foi a mãe salvar o filhote para divertimento dos presentes? O vídeo já foi visualizado quase 3 milhões de vezes.

O outro lado de um lóris com cócegas

O outro lado dos vídeos com animais

Se há animal com expressões engraçadas, é o lóris. Estes primatas do género Nycticebus e olhos enormes são nativos do sul e sudeste asiático e têm um estatuto de conservação ameaçado.

Em 2009, este vídeo tornou-se viral (mais de um milhão de visualizações):

Que adorável este lóris, deliciado com as cócegas que a dedicada dona lhe faz pela barriga.

Este belo sorriso não engana:

Lóris com cócegas

Frame do vídeo do lóris com cócegas

Ou talvez engane.

Fazer cócegas aos lóris não é uma demonstração de carinho ou brincadeira. Infelizmente, é uma tortura para o animal.

Ao esticar os braços para cima, o lóris não está a pedir mais mimo (como os cães e os gatos fazem), está aterrorizado e a procurar defender-se. Os lóris produzem veneno numa glândula dentro do cotovelo e, ao esticar os braços para cima, conseguem coletar esse veneno para utilizar em mordidas.

Mas o pior é o que acontece a este e outros lóris antes de vir parar ás casas dos supostos donos.

São capturados na natureza, mantidos em jaulas minúsculas sem o mínimo de condições e vêm os seus dentes serem removidos sem anestesia, para não poderem morder.

Estes e outros factos são explicados pelo ator Peter Egan, porta-voz da campanha Tickling is Torture (cócegas são tortura), no vídeo em baixo. Atenção que contém imagens chocantes:

Ao partilhar este tipo de vídeos pelos amigos, pensando erradamente que o lóris está todo contente a receber festinhas, está na verdade a incentivar a que mais lóris sejam capturados, torturados e vendidos como animais de estimação.

Os animais passam por um sofrimento que só podemos imaginar e as próprias espécies, já ameaçadas, correm sérios riscos de se extinguirem na natureza.

Num estudo conduzido pela primatóloga Anna Nekaris e publicado no PLOS One, foram analisadas as respostas que este mesmo vídeo do lóris recebeu. Três anos e 12.411 comentários depois, em primeiro lugar vêm expressões como querido ou fofinho, mas mais preocupante, em segundo lugar vêm os comentários de quem também quer ter um lóris.

“Se 25% dos 10 milhões que visualizaram o vídeo expressam o seu desejo de ter um lóris como animal de estimação, é um número enorme, mesmo que apenas uma proporção muito pequena dessas pessoas realmente aja sobre esses impulsos” explicou a primatóloga Stephen Ross ao LiveScience.

O outro lado de um elefante a mergulhar na praia

O outro lado dos vídeos com animais

O que pode haver de errado num bebé elefante a dar um mergulho na praia, como todos nós adoramos fazer nas férias?

Este é o vídeo, com mais de 700 mil visualizações:

Após investigarmos o que esconde este vídeo, chegamos a conclusões perturbadoras:

  • Os elefantes bebés não foram dar um mergulho voluntariamente, foram forçados para entreter os turistas;
  • Os guias que acompanham os elefantes à água, espetam-lhes discretamente uma unha por trás das orelhas para os forçar a fazer o que eles mandam;
  • A água salgada não é saudável para a pele dos elefantes;
  • A praia também não é um lugar recomendável para um elefante, por ausência de sombras para se protegerem do sol;
  • Um elefante bebé sozinho é motivo de alarme, pois com esta idade e sendo uma espécie social, estão normalmente junto das suas progenitoras e outros membros da família.

Este vídeo da Mahouts Foundation explica tudo:

Se partilhou este ou outros vídeos semelhantes, não seja demasiado duro consigo próprio: era difícil de adivinhar algo de errado aqui. Nós também partilhamos um vídeo destes, antes de sabermos o que estava por trás.

O objetivo ao mostrar estes casos é precisamente informar as pessoas, para que no futuro saibam realmente o que está à frente dos seus olhos e possam também informar os outros: o conhecimento passa, o mundo fica melhor.

O outro lado de um sapo que mia

O outro lado dos vídeos com animais

Apelidaram-no de “sapo mais fofinho do mundo” depois deste vídeo se ter tornado viral em 2013 e obtido até hoje mais de 12 milhões de visualizações:

Impossível não achar engraçados os guinchos sibilantes que parecem saídos de um brinquedo para cachorros.

Mas este sapo, da espécie Breviceps macrops, não está a achar graça nenhuma.

O herpetólogo e professor Alan Channing, autor de três livros sobre anfíbios africanos, explica que o sapo está a vocalizar uma espécie de grito de guerra. Um pouco à semelhança dos gatos quando bufam.

“O que isto significa é que alguém estava a provocá-lo e a chateá-lo enquanto o vídeo em close-up era filmado”, explicou em declarações ao News24. Este comportamento não deve de modo algum ser encorajado.

Este sapo está listado como vulnerável pela IUCN.

O outro lado de alguns filmes sobre a natureza

O outro lado dos vídeos com animais

Baleia jubarte e filhote filmados por Doug Allan
Fotografia original: Sue Flood

Um senhor chamado Chris Palmer (ver bio na Wikipedia), produtor de filmes sobre a natureza, ambiente e vida selvagem, escreveu um livro em forma de confissão com as técnicas menos éticas que são utilizadas para produzir alguns documentários sobre animais.

Apesar destes documentários terem uma mensagem educativa e pretenderem mostrar como são os animais no seu ambiente natural, há toda uma intervenção humana que chega inclusive à crueldade e à morte de animais.

Palmer revelou que cenas de predadores a caçarem presas ou de animais a nascerem são montadas, que os sons supostamente emitidos pelos animais são produzidos em estúdio e que são muitas vezes utilizados animais treinados no lugar de animais selvagens. Animais estes que vivem em jaulas pequenas e em ambiente stressante.

O motivo é simples: obter melhores cenas, num menor espaço de tempo e gastando menos dinheiro.

No que diz respeito ao senhor Chris Palmer, de realçar que é agora um defensor da filmagem ética dos animais e dá formação sobre isso.

Suicídio dos lemingues

Frame do suposto suicídio dos lemingues no documentário «White Wilderness»

Uma das maiores controvérsias de sempre reside no documentário «White Wilderness» de 1958, da Walt Disney, que contém uma cena onde vários lemingues se suicidam, atirando-se de um precipício e caindo nas águas do oceano árctico, onde morrem afogados por exaustão se não encontrarem terra firme.

O excerto do documentário onde isso acontece pode ser visto aqui:

Mais tarde, veio-se a descobrir que:

  1. A filmagem tinha sido feita num rio e não no oceano árctico;
  2. Aquela espécie não é migratória e por isso não tinha motivos para se atirar à água
  3. Os animais não se atiraram voluntariamente, foram empurrados por uma plataforma giratória montada pela produção.

Escolha o lado certo de cada animal

O outro lado dos vídeos com animais

Fotografia: Jan Gottweiß

Os vídeos com animais não são maus. Nada disso.

Aqui no Mundo dos Animais, temos uma categoria só para vídeos e onde já nos podemos deliciar com grandes momentos, como o abraço amoroso deste gato, esta demonstração em como adotar um cão torna a vida melhor ou este golfinho ferido que veio pedir ajuda.

Também não é nosso objetivo que comece a desconfiar de todos os vídeos que encontra, que procure o mais pequeno sinal de algo errado quando possivelmente não existe nenhum.

No caso dos animais de estimação, é mais fácil perceber se um animal está a ser forçado ou se existe uma encenação. Estamos muito familiarizados com o comportamento natural de um cão ou de um gato, até mesmo de animais exóticos que ganham cada vez mais popularidade nas nossas casas.

Já no que diz respeito a animais selvagens, vamos ser honestos: a não ser que os tenha estudado especificamente, ou por algum motivo conheça o seu comportamento, é difícil perceber se alguma coisa não está bem. Não se sinta mal por ter partilhado um vídeo e depois perceber que não o devia ter feito. Sinta-se bem por agora possuir essa informação e a poder passar ás outras pessoas.

Posto isto, deixamos-lhe um conjunto de dicas sugeridas pelo One Green Planet sobre como evitar popularizar vídeos onde os animais estão sujeitos a algum tipo de maus-tratos:

  • Não partilhe vídeos de animais em parques aquáticos de entretenimento (por exemplo espetáculos com golfinhos a fazer malabarismos);
  • Não partilhe vídeos de espetáculos com animais selvagens, como circos com animais;
  • Não partilhe vídeos que mostram animais selvagens mantidos como animais de estimação, tal como acontece no exemplo que mostramos em cima dos lóris;
  • Não partilhe vídeos de lutas entre animais, colocados propositadamente a lutar para entretenimento de quem assiste.

O que não nos podemos esquecer, em nenhum momento, é que os animais são seres vivos e não objetos. No fundo, não esquecer os direitos dos animais.

E se mais algum motivo for necessário, uma última dica: quanto mais natural for o vídeo, mais interessante é o seu resultado final, porque nos mostra os animais tal e qual eles são, no seu ambiente natural.

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