Vídeos com Animais, O Outro Lado da Moeda

Vídeos com animais: o outro lado

Fotografia original: bullcitydogs

Os vídeos com animais podem ser adoráveis, apaixonantes, curiosos. Com a facilidade que temos hoje em dia de adquirir uma pequena câmara digital e fazer o upload dos vídeos para sites como o Youtube, temos todos os dias milhares de novos vídeos com animais originários dos quatro cantos do mundo.

Numa das minhas pesquisas por vídeos interessantes sobre animais, deparei-me com um que numa primeira visualização parece fantástico, mas rapidamente perdeu o brilho. Vamos vê-lo primeiro:

O “argumento” do vídeo é simples e tem todos os ingredientes para o sucesso: um cachorrinho está aflito dentro de água sem conseguir sair e a mãe do pequeno, num ato heróico, salta para dentro da piscina e salva o filhote. Adiciona-se uma musiquinha dramática e temos o momento perfeito.

Esta é a parte em que soltamos um awww de admiração pelo gesto da mamã cachorra e começamos a partilhar o vídeo com os nossos amigos.

Mas chega o momento de nos questionarmos: ok, a mãe salvou o cachorrinho, mas o que estava ele a fazer dentro de água? Como foi lá parar? As pessoas que se ouvem no vídeo (a rir!) não ajudam? E quem estava a filmar, não podia largar a câmera e dar uma mão? Já agora, como é que estava no sítio certo e com o melhor ângulo para filmar o salvamento do início ao fim?

Muitas questões para uma resposta simples: o vídeo foi encenado.

Não acredita? Veja com atenção o primeiro frame:

Primeiro frame do vídeo do salvamento do cachorrinho

Primeiro frame do vídeo do salvamento do cachorrinho

O que temos ali no meio da piscina? Um splash na água, correto?

Partindo do princípio que o pequeno não voa e também não cai do céu, resta ter sido atirado para a água. Repare que a mãe já se encontra a olhar naquela direção no momento do splash, como se soubesse que o cachorrinho ia cair ali dentro.

E quem filmou sabia como a mãe ia reagir quando visse que o seu filhote estava (outra vez) em apuros; para onde estava a olhar e o local onde o cachorrinho ia cair, pois tinha a câmara perfeitamente enquadrada com a cena.

Num ápice, apesar de continuarmos a ter um salvamento corajoso da mãe cachorra, percebemos que o cachorrinho foi maltratado e teve a sua vida em risco apenas para produzir um vídeo dramático. Quem o fez, deveria estar coberto de vergonha, mas provavelmente não estará.

Quantas vezes foi o pequeno atirado para a água? Quantas vezes foi a mãe salvar o filhote para divertimento dos presentes?

A verdade é que o vídeo tem um propósito. O “argumento” da mãe a salvar o filhote é perfeito para alimentar uma audiência vasta e para tornar o vídeo viral – não é ao acaso que, no momento em que escrevo este texto, já tenha 1.398.974 de visualizações.

A quantidade de visualizações e partilhas não são apenas números para encher algum ego. Também enchem alguma conta bancária. É um negócio. É rentável em publicidade, em subscrições, em merchandising, na verdade um vídeo pode ser rentável de mil e uma formas dependendo da estratégia de marketing que lhe for aplicada.

O panda bebé que ficou conhecido em todo o mundo pelo brutal espirro que deu, até tem um site com venda de t-shirts. Este último é um aproveitamento legítimo de uma situação caricata mas natural – o espirro do bebé não foi induzido – mas quando os animais são forçados, prejudicados e tratados como objetos para que o vídeo fique perfeito, temos um problema. Temos o outro lado da moeda.

Esta situação fez-me lembrar um caso que deu muita alguma polémica há uns anos atrás.

Vídeos com animais: o outro lado

Baleia jubarte e filhote filmados por Doug Allan
Fotografia: Sue Flood

Falo de um senhor chamado Chris Palmer (ver bio na Wikipedia), produtor de filmes sobre a natureza, ambiente e vida selvagem, que escreveu um livro em forma de confissão com as técnicas menos éticas que são utilizadas para produzir um documentário sobre animais.

Apesar destes documentários terem uma mensagem educativa e pretenderem mostrar como são os animais no seu ambiente natural, há toda uma intervenção humana que chega inclusive à crueldade e à morte de animais.

Palmer revelou que cenas de predadores a caçarem presas ou de animais a nascerem são montadas, que os sons supostamente emitidos pelos animais são produzidos em estúdio e que são muitas vezes utilizados animais treinados no lugar de animais selvagens, animais estes que vivem em jaulas pequenas e em ambiente stressante.

O motivo é simples: obter melhores cenas, num menor espaço de tempo e gastando menos dinheiro.

No que diz respeito ao senhor Chris Palmer, de realçar que é agora um defensor da filmagem ética dos animais e dá formação sobre isso.

Uma das maiores controvérsias de sempre reside no documentário “White Wilderness”, da Disney, que contém uma cena onde vários lemingues se “suicidam”, atirando-se de um precipício e caindo nas águas do oceano árctico, onde morrem afogados por exaustão se não encontrarem terra firme.

Mais tarde, veio-se a descobrir que 1) a filmagem tinha sido feita num rio e não no oceano árctico, 2) aquela espécie não é migratória e por isso não tinha motivos para se atirar à água e 3) os animais não se atiraram voluntariamente, foram empurrados por uma plataforma giratória montada pela produção.

Os vídeos com animais não são maus. Nada disso. Aqui no Mundo dos Animais, temos uma categoria só para vídeos e onde já nos podemos deliciar com grandes momentos, como o resgate de uma cachorrinha cega a viver no lixo, uma despedida carinhosa dos leões bebés, ou um morcego-da-fruta alimentado à mão.

O que não nos podemos esquecer, em nenhum momento, é que os animais são seres vivos e não objetos. No fundo, não esquecer os direitos dos animais. E se mais algum motivo for necessário, uma última dica gratuita: quanto mais natural for o vídeo, mais interessante é o resultado final…

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Tópicos: Ajuda Animal, Artigos em Destaque, Opinião

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