Geralmente, novas espécies surgem quando uma espécie se divide em duas. Isto pode acontecer por diversos motivos, como por exemplo, um certo grupo dentro de uma espécie apresentar um comportamento diferente e se isolarem dos restantes, ou então a variabilidade genética dar origem a animais com uma pequena diferença de padrões e cores no corpo, que os torne mais atractivos sexualmente, ou mais eficazes contra predadores. Imaginando estes e outros factores numa longa escala de tempo, na ordem dos milhares de anos, rapidamente nos apercebemos que a evolução acontece.

No entanto, aquilo que estamos a tratar aqui é bem diferente. Os biólogos estão agora, no século XXI, a depararem-se mais do que nunca com processos que podem alterar radicalmente vários conceitos, incluindo o de espécie e o de evolução. Ainda que menos frequente que os acontecimentos descritos no parágrafo anterior, a hibridação interespecífica teve um papel muito activo na evolução dos seres vivos, e na verdade muitos animais que hoje damos como espécies podem ter sido resultado de cruzamentos e retro-cruzamentos que ocorreram no passado entre animais que poderão já não existir. Em vez de ser uma espécie a originar duas, são duas espécies a originar uma.
A hibridação na vida selvagem sempre foi considerada extremamente rara, e por isso nunca lhe foi dada a devida importância. É precisamente isso que está a mudar. Depois dos estudos efectuados com a Lonycera Fly ou a Heliconius heurippa, utilizando Biotecnologia e análise de ADN, em que se descobriu que na verdade são espécies híbridas sem que nada anteriormente fizesse suspeitar de tal, agora olhamos para os animais de modo diferente. Sabemos que os Ligres são híbridos de leões com tigres, mas não haverá a hipótese de tanto os leões como os tigres serem híbridos férteis de antepassados felinos, e que ao sobreviverem formaram estas linhagens de espécies? Podemos saber isso? Bem, na verdade é muito complicado quando as espécies parentais já não existem. Só podemos testar fidedignamente eventuais híbridos com parentais suspeitos que ainda existam. E mesmo assim, testar todas as espécies conhecidas é utópico (já sem referir que grande parte das espécies existentes não as conhecemos). Como será de esperar, toda esta confusão leva a que a taxonomia se torne cada vez mais um labirinto.
Percebemos então que o impacto dos processos de hibridação ao longo da história da Terra pode ter introduzido várias novas espécies no reino animal.
Para que um híbrido se possa tornar numa nova e completa espécie, é necessário um certo conjunto de factores naturais, e que por não acontecerem simultaneamente de forma constante, é que os híbridos não são tão frequentes como a evolução “natural” das espécies:
- Tem de haver duas espécies diferentes mas preferencialmente pertencentes à mesma família;
- Se as duas espécies que serão as parentais não partilharem habitats, têm de ocorrer alterações (como a temperatura, a precipitação, a abundância de alimentos, etc) que as juntem nos mesmos espaços, e estejam activos preferencialmente ás mesmas horas do dia;
- Não pode haver agressividade ou competição entre as espécies quando no mesmo habitat;
- Ambas as espécies têm de ser sexualmente atractivas, uma para a outra, e terem uma constituição física propícia ao “encaixe”, de forma a acasalarem;
- O híbrido resultante tem de ser viável (uma estrutura cromossómica que lhe permita viver sem qualquer tipo de deformação) e ser fértil (capaz de dividir os seus cromossomas para originar células reprodutoras);
- Devem nascer mais híbridos e deslocarem-se para um nicho ecológico distinto das espécies progenitores, de forma a evitar retro-cruzamentos, o que “diluiria” a geração híbrida, até se tornar imperceptível, 5 a 7 gerações depois;
- No novo nicho, devem estabelecer-se e cruzarem entre si, originando novos indivíduos com ambos os progenitores da mesma espécie híbrida, e portanto geneticamente idênticos a estes. Várias gerações depois (entre 50 a 60), está constituída uma nova espécie.
Todos os estudos estão a apontar para que, de facto, a hibridação seja à escala global e tenha ocorrido em toda a evolução dos seres vivos, especialmente insectos e peixes (que evoluem muito mais rapidamente). Por exemplo, a Lonycera Fly evoluiu numa nova espécie “apenas” nos últimos 250 anos, o que geologicamente é pouquíssimo tempo. A evolução desta foi tornada possível com as plantações de Lonycera na América do Norte, que lhe proporcionaram um nicho ecológico distinto das espécies de mosca parentais.
E este é um ponto importante para ser abordado. Os seres humanos, ainda que muitas vezes sem essa intenção, aceleram o processo de hibridação, destruindo habitats e criando outros; extinguindo espécies e consequentemente cadeias alimentares. Duas espécies ameaçadas podem reproduzir-se e formar híbridos, que com sorte serão mais aptos a sobreviverem na actualidade. Também as consequências da nossa poluição, como o aquecimento global, está a fazer migrar espécies para zonas que não fazem parte da sua rota original, e desse modo nascem híbridos como o urso polar/pardo.
No entanto, e sendo um acto cada vez mais frequente, donos e criadores de animais em casa estão a cruzar espécies para criarem híbridos. Os peixes são os mais fáceis para hibridar, apesar de agora se ver muito a escolha de cobras, lagartos, algumas aves e roedores para o efeito. Logicamente estes processos são contestados, sendo uma interferência directa com a natureza, já que espécies diferentes são juntas no mesmo espaço e são criadas condições artificiais de forma a acelerar o acasalamento entre ambas. Ainda que por norma estes híbridos sejam mantidos em cativeiro, a introdução dos mesmos em ambiente selvagem poderia trazer consequências graves, caso se estabelecessem como nova espécie. A selecção artificial já existe há muito para aperfeiçoar uma espécie (já que apenas indivíduos fortes, produtivos ou com uma característica que pretendemos é que são cruzados entre si), mas neste caso envolve duas espécies distintas para formar uma não existente. Por sua vez os criadores de híbridos têm cada vez mais um argumento a seu favor: se as evidências de híbridos na natureza aumenta de estudo para estudo, não se pode considerar um processo anti-natural mas sim evolucionista. Fica ao critério do leitor.

