Quando duas espécies distintas se cruzam e desse cruzamento resulta um novo indivíduo, o processo chama-se hibridação e o novo ser é um híbrido. Ocorre hibridação na maioria dos seres vivos, e apesar das mais frequentes serem nas plantas, vamos abordar esse processo nos animais.
Um dos animais híbridos mais populares é a Mula, resultante do cruzamento entre um burro e uma égua, mas como esta existem muitos mais exemplos. Apesar da hibridação não ser um processo comum, também não é tão raro como antigamente se pensava. A própria fertilidade dos híbridos é possível, colocando de parte a ideia generalizada de que os híbridos são todos estéreis.

A fertilidade de um híbrido é determinada pelos seus cromossomas. Numa abordagem muito superficial, os cromossomas são enormes sequências de ADN, organizadas numa estrutura física estável dentro da célula. Os genes contidos em cada cromossoma contém as instruções do organismo, e que no seu todo são como o livro da vida.
O número de cromossomas é variável: o ser humano possui 46, o mosquito possui 3, o gato doméstico 38, o elefante 56, a carpa 104, etc. O número de cromossomas de cada organismo não reflecte, no entanto, a complexidade do mesmo. Também é importante referir que cada cromossoma tem um par homólogo, sendo um de origem paterna e o outro de origem materna.
Para que haja reprodução, ocorre um processo extraordinário, denominado meiose, onde as células reprodutoras de cada indivíduo ficam com metade do número normal de cromossomas da sua espécie, para que quando as células reprodutoras masculinas e femininas se unem, o total de cromossomas seja então o número normal e o resultado seja um novo ser dessa mesma espécie.
Nos híbridos, o que acontece com maior frequência é o cruzamento entre espécies com número de cromossomas diferente. Pegando no exemplo anterior, os burros têm 62 cromossomas enquanto que os cavalos têm 64; os animais resultantes deste cruzamento (as mulas e os bardotos) têm 63 cromossomas – o cromossoma extra não vai ter um par homólogo, o processo da meiose não se dá e, sem células reprodutoras, o animal é estéril.
Existem, no entanto, dois factores que tornam um híbrido fértil, e com isso o nascimento de uma nova espécie: a homoploidia e a poliploidia.
A poliploidia pode ocorrer em duas situações: se as células reprodutivas dos progenitores tiverem não metade mas sim o número total de cromossomas da sua espécie (por erros de divisão), o novo ser híbrido vai ter a soma do número de cromossomas do pai e da mãe. Se for viável (caso não seja, dá-se um aborto espontâneo), vai ser uma espécie nova e fértil porque cada cromossoma tem o seu par homólogo, tendo vindo assim dos progenitores. O mesmo erro pode acontecer no próprio híbrido. Se houverem falhas na divisão celular, uma espécie com por exemplo, 5 cromossomas isolados, vai ficar com 5 pares de cromossomas homólogos, que então já se podem dividir para formarem células reprodutivas. Várias espécies de animais são na verdade híbridos poliploides que sobreviveram e formaram novas linhagens, como alguns sapos, lagartos, peixes e diversos invertebrados.
Por sua vez, a hibridação homoploide resulta no cruzamento de espécies distintas mas parentes, onde a nova espécie híbrida tem o número normal de cromossomas, sendo assim totalmente fértil. Um exemplo destes híbridos é a borboleta Heliconius heurippa, resultante do cruzamento entre Heliconius cydno e Heliconius melpomene. Geralmente os híbridos homoploides não originam novas linhagens de espécies, pois cruzam-se com as espécies que lhes deram origem, dando assim um passo atrás numa possível evolução. No entanto, quando as espécies se deparam com novos habitats e por vezes inóspitos, os híbridos podem ter sucesso, caso sejam capazes de habitar onde a espécie pai e a espécie mãe não consigam sobreviver, ou caso a combinação de genes lhes confiram maior defesa ou camuflagem contra predadores. Tal como algumas borboletas, certos peixes (ciclideos africanos, entre outros) e várias plantas são híbridos homoplóides que sobreviveram e se tornaram em novas espécies.
A hibridação não é, contudo, ocorrida sempre de forma natural. A maioria dos híbridos identificados foram criados em cativeiro, ainda que por diversas vezes de forma acidental. A criação propositada de híbridos em cativeiro é muito discutida, uma vez que pode ser considerada anti-ética.
Foto: Wholphin


5 de Março de 2012 às 11:44
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