Abandono de Animais Durante as Férias

Problemática do Abandono de Animais nas FériasTodos os anos se repete o mesmo cenário: inúmeros animais domésticos são abandonados à mercê da sua sorte, seja porque uma família partiu para férias para destino longínquo onde não são permitidos animais de companhia, seja porque surgiu um novo elemento na família, seja porque têm que ficar fechados em casa no Verão, etc. Por estas e outras tantas razões, o abandono já não se dá só em época de férias.

De acordo com associações e grupos de amigos dos animais, as estatísticas revelam que o abandono pode acontecer em qualquer altura do ano, pelas mais diversas razões. Estima-se que, por ano, são abandonados cerca de 10 mil animais domésticos em Portugal. E este número trata-se apenas de uma estimativa, pois não há, até à data, nenhum levantamento efectuado do número real de animais abandonados.

Embora as associações sejam imensas, muitas não têm as devidas condições para albergar tantos animais e são insuficientes para tantos abandonados. Especialmente entre Junho e Setembro que é a época de maior risco de abandonos existentes no País. “Chegam a colocar animais por cima das vedações dos canis das associações”, segundo relatam voluntários das mesmas.

Todos os anos os conselhos repetem-se e os apelos se intensificam no sentido de dissuadir um episódio de abandono, mas o que é certo é que este continua a acontecer.

O que estará então a falhar? Serão os apelos insuficientes? Ou as pessoas que adoptam animais não estarão devidamente sensibilizadas para esta responsabilidade? Seja o que for, importa chamar sempre a atenção daqueles que pensam vir a ter um animal de estimação para o facto de que, apesar da lei considerar o animal como um objecto, ele é, antes de mais nada, um ser vivo que importa ser respeitado como tal! Inúmeros argumentos se podem apresentar aqui: então, se o animal é um ser vivo, porque é que a lei continua a considerá-lo como mero objecto? Não podemos esquecer as bases do Direito Natural que nos ensinam que mesmo um objecto, sendo pertença de alguém, de ser considerado e respeitado como tal, sendo um fim em si mesmo.

No entanto, aqui se levantam duas questões essenciais: 1ª) o objecto em si é móvel ou imóvel? 2ª) sendo móvel, como é que o adquire? Comprou-o ou achou-o, chamando-lhe de seu? Seja como for, se os animais forem vistos como mero objecto, eles são sempre já uma extensão do homem que os escolheu para os acolher.

O problema é quando o “objecto” envelhece ou o homem se farta dele. Nenhum objecto tem uma relação eterna com o homem! Ora aqui reside a principal divergência: sendo o animal um ser vivo que nasce, cresce, reproduz-se e morre sem que tal seja controlado por si mesmo, como pode o animal ser um mero objecto? Ele é um organismo vivo, dependente das suas relações com o homem, tal como se de uma criança se tratasse, a ser educada segundo os princípios da sociedade doméstica.

Podemos levar mais longe as nossas interrogações e perguntarmo-nos se, já que assim é, se é lícito que o homem eduque o animal a seu bel-prazer pelo puro egoísmo de ter uma companhia? No entanto, a questão da domesticação ultrapassa os limites deste artigo.

Serve, no entanto, para fazer questionar profundamente quem opta por ter um animal de estimação. Porque é preciso alertar as consciências para o que se passa ao nível do abandono de animais domésticos em Portugal e não só, evidentemente!

Muitas pessoas que pensam ter um animal a seu cargo pela primeira vez, não imaginam provavelmente a dimensão do problema e por isso correm a comprar ou a adoptar um animal sem pensarem nas consequências que esse acto implica.

O facto de se apelar constantemente a uma adopção consciente tem o propósito de: 1º) o ser humano aperceber-se de que está a lidar com um ser vivo que tem as suas necessidades básicas e de afecto; 2º) o de fomentar uma responsabilidade de cariz social e económico que passa, não só pelo cuidar do animal, como também da necessidade de fazer face a despesas económicas que são um mal necessário para manter um ser vivo o maior tempo possível em sua companhia; 3º) elucidar as pessoas que quanto mais desejam ter um animal, maior deverá ser a sua responsabilidade perante ele, pois um animal não é nenhum meio para atingir um fim – ele é um fim em si mesmo!

Por último, é bom que as pessoas se mentalizem que ao adoptarem o animal devem ter em conta as suas próprias condições sociais e económicas para que possam cuidar dele em condições.

Se ponderarem bem todas estas situações, tal como se encarassem a possibilidade de terem um filho – e quando se tem um filho é para sempre!, – existirão menores tentações para o abandono.

É preciso que sociedade e entidades oficiais se unam em torno deste flagelo que pode surtir consequências na Saúde Pública; se pensarmos que demasiados animais abandonados são fonte inesperada de doenças infecciosas como a leishmaniose, entre outras. Custa menos ao Estado erradicar as doenças, incentivando as políticas de abate em canis municipais do que educar a sociedade a cuidar dos seus animais! Por isso, opta-se pela via mais fácil que é o abate! Mas não seria mais educativo e evoluído combater esta política ignorante e lutar por uma maior consciência ambiental? O que vos parece?

Soluções urgentes procuram-se!

Este artigo foi publicado na Revista Mundo dos Animais nº 20

Tópicos: Ajuda Animal, Animais de Estimação