Antes de Comprar uma Rã

Antes de comprar uma rã

Dendrobates auratus
Fotografia: Wikimedia Commons

Hoje em dia, as lojas de animais costumam ter sempre algumas espécies de anfíbios à venda, nomeadamente rãs (anfíbios anuros).

Umas mais raras que outras, umas mais difíceis de manter que outras, umas mais bonitas que outras…

A maioria das vezes, a beleza do animal tolda-nos a vista e acabamos por trazer sempre o mais bonito que encontramos, embora muitas vezes os anfíbios mais feios também tenham o seu encanto (lembro-me por exemplo das Pipa pipa).

O que devemos ter em conta antes de comprar um anfíbio?

Primeiro que tudo, e sem dúvida o mais importante, é saber se estamos preparados para ter o anfíbio. Não me refiro ao habitat e à comida (que são factores muito importantes), mas refiro-me ao facto de fazermos o trabalho de casa que antecede a compra de qualquer animal: a pesquisa.

Hoje em dia, a informação está à disposição de todos na Internet, quer seja em páginas pessoais, quer em fóruns ou em organizações que compilam a informação cuidadosamente.

Eu aconselho vivamente fóruns. Porquê? Simples… São fonte de muita informação útil. Mas como em todo o lado, é necessário algum cuidado com aquilo que se encontra por esses fóruns. Para mim o que mais me agrada nos fóruns é a quantidade de experiências que são trocadas. Cada um mantém o mesmo animal de forma diferente, o que proporciona um sem fim de ideias e muita informação preciosa.

Nem todas são válidas, mas normalmente essas estão “filtradas” pelos moderadores, que geralmente têm mais experiência que um participante novato.

Antes de comprar uma rã

Dendrobates tinctorius
Fotografia: Wikimedia Commons

Mas voltemos ao importante…

Depois da pesquisa feita e quando achamos que estamos preparados, a escolha já está mais fácil.

Muitas das vezes recebo mensagens no meu email e nos fóruns de pessoas que querem ter anfíbios específicos. As perguntas basicamente são sempre as mesmas:

Quantos, o que comem e quais as condições de manutenção?

Uma das questões que mais me preocupa é a alimentação dos meus anfíbios.

Tenho de ter a certeza absoluta que os consigo alimentar. Então, preocupo-me sinceramente em obter informação de onde e como obter o alimento que preciso para manter os meus anfíbios.

Normalmente recorro à compra de colónias, mas preparem-se que em breve vão achar que vos dá cabo do orçamento. Acreditem, já passei por isso e depois só têm duas opções: ou começam a produzir vocês o alimento ou então os vossos bichos, mais tarde ou mais cedo, vão passar fome. Acreditem que, normalmente, a segunda opção aparece antes da primeira, a mim aconteceu-me o mesmo…

Na procura incessante que faço acerca da alimentação dos meus anfíbios, habituei-me a criar o meu próprio alimento e desenvolvi um estranho gosto na manutenção de colónias de invertebrados.

Capacitem-se de uma coisa: tal como nós, os animais estão habituados a no seu habitat (ou criador de origem) terem uma certa variedade na sua alimentação. Por isso, se vos disserem que o animal se alimenta de larvas de tenébrio (normalmente o mais fácil de conseguir) lembrem-se que além disso comem outras coisas.

Drosophilas, larvas da cera, grilos de todos os tamanhos, minhocas inteiras ou aos bocados, tudo isto faz parte da alimentação de qualquer anfíbio. Nalguns de maior tamanho (Ceratophrys, Phrynohyas, etc) até pequenos ratos (pinkies) eles comem. Por isso a história de alimentar os anfíbios só à base de tenébrio já lá vai.

Felizmente hoje no mercado o que não faltam são opções para a alimentação. Larvas de corpo mole ou duro, minhocas, tudo o que mexa, pode entrar na alimentação dos anfíbios, por isso só passam fome se realmente quiser que eles passem fome.

Ainda na questão da alimentação, convém salientar que o uso de vitaminas com complexo D3, é altamente recomendável. Aconselho as vitaminas com D3 porquê?

Simples: a vitamina D3 ajuda a fixação do cálcio nos ossos. Esta vitamina, não é fornecida de nenhuma outra forma a não ser em complexos vitamínicos, ou através do uso de lâmpadas de UV. Os UV actuam na pele dos anfíbios, tal como actuam na nossa e ajudam na formação de vitamina D3 que é a responsável pela fixação de cálcio nos ossos. Por isso ou optam pelo uso de lâmpadas com emissão de UV, ou então fornecem vitaminas que contenham vitamina D3. Fica a vosso cargo a decisão.

Outra questão importante é a questão das humidades e das temperaturas.

Muitos anfíbios que existem no nosso mercado são provenientes de zonas tropicais, locais onde a humidade e a temperatura são sempre altos. Um dos principais problemas que me deparei quando comecei com anfíbios tropicais, foi a manutenção da humidade, visto que a manutenção da temperatura foi fácil, mas à temperatura já lá vamos.

A humidade foi o parâmetro que a inicio me deu mais dor de cabeça.

Oscilava muito nos primeiros tempos, mas com o passar do tempo foi estabilizando lentamente até que finalmente atingi os valores que queria. Muitos são os factores que interferem na humidade. Plantas, e claro a temperatura ambiente. Nos primeiros terrários que montei mantive-os sempre em estágio alguns meses, testei a forma como a humidade se comportava, e claro se se mantinha estável por algum tempo.

Quais as formas de aumentar a humidade?

São muitas. Desde a simples rega, ao sistema de mist, há uma panóplia de métodos.

Eu comecei com um aspersor de pressão manual e um fogger que se aplicava numa cascata. O fogger rapidamente ficou entupido, porque simplesmente as rãs levavam restos de solo agarrados a elas e ao treparem pela cascata deixavam esses restos serem levados pela corrente, que rapidamente me entupiu a bomba e o fogger.

Isso fez-me desistir de manter uma cascata nos terrários, embora me lembre de milhares de formas de as montar.

Depois optei por um sistema de mist, composto por uma bomba de alta pressão e por aspersores que liguei a um relógio, para que me desse períodos pequenos (um segundo é o tempo mínimo que o relógio permite). Testei e consegui obter uma boa humidade, que se manteve estável.

Outros dos factores que influenciam a manutenção da humidade são as plantas. As plantas são seres vivos e por isso usam a humidade que nós fornecemos para se manterem vivas e crescerem. As plantas “respiram” e “transpiram”, pelo que consomem e libertam humidade no terrário logo é mais um aspecto que temos que ter em conta. Da influência da temperatura nem vale a pena falar, pois dessa todos nós nos lembramos.

Antes de comprar uma rã

Dendrobates pumilio
Fotografia: Wikimedia Commons

Falemos então da temperatura.

A temperatura é dos parâmetros mais fáceis de acertar, pois há muitas formas de o fazer. Para anfíbios desaconselho vivamente as lâmpadas de cerâmica. Secam demasiado o ambiente. Estes factores podem provocar graves queimaduras na pele dos anfíbios, pois secam demasiado rápido a pele que se deve manter sempre húmida.

Pessoalmente prefiro usar cordões de aquecimento. Até à data não tenho nada que me desaconselhe o uso deles e apesar de certas pessoas me dizerem que são “perigosos”, pois têm tendência a partir o vidro do fundo, ainda não tive esse azar e espero não ter tão cedo.

Uma das coisas que eu me apercebi, foi que se houver um pouco de água no fundo, essa tendência diminui consideravelmente. O facto de haver água quente no fundo ajuda a que as variações de temperatura que provocam o estalar do vidro, sejam mínimas, ou seja, as hipóteses de ele estalar são diminutas, por isso eu deixo sempre um pouco de água no fundo dos meus terrários. O ideal é que a camada que está em contacto com a água seja uma camada inerte para que não apodreça, ou seja será usar Leca.

Muitos criadores montam os seus substratos de terrário só com Leca, mas eu gosto de dar um ar natural aos terrarios.

Os tapetes também são uma boa alternativa. Quer os tapetes quer os cordões deverão estar sempre ligados a um termostato de terrário que impeça a temperatura de subir ou descer demasiado.

Se crê que consegue fornecer estas condições aos seus anfíbios, então, força! Deite mãos à obra, construa o seu terrário e bem-vindo ao extraordinário mundo dos anfíbios.

Este artigo foi publicado na Revista nº1 do Mundo dos Animais, em Abril de 2007, com o título “Considerações Gerais sobre Anuros – Antes de Comprar uma Rã”.

Tópicos: Rãs e Sapos, Anfíbios, Animais Exóticos, Animais de Estimação, Artigos em Destaque