Mundo das Dendrobates: Espécies, Cuidados e Doenças

Dendrobates leucomelas

Dendrobates leucomelas
Fotografia original: Joachim S. Müller

As dendrobates não são propriamente adequadas para iniciantes em anfíbios, por isso convém começar primeiro por uns Cynops orientalis ou Bombinas para se ambientar à sua manutenção.

Quando der o grande passo da manutenção de dendrobates, convém já ter lido muito sobre a espécie e suas condições especificas, tais como o terrário (humidade, temperatura, plantas) e tudo o que seja necessário para a sua manutenção, como está bem explicado nas perguntas frequentes sobre dendrobates escrito pelo José Pedro Mateus.

A próxima etapa é eleger uma espécie e comprar um terrário de tamanho adequado, pois o tamanho do terrário é muito importante para cada espécie. Apesar das dendrobates serem bastante pequenas, são muito territoriais podendo chegar ao ponto de matar.

Espécies de dendrobates

Existem diversas espécies que são para iniciantes e que são das mais comercializadas em Portugal, tais como as que vai conhecer de seguida.

Dendrobates leucomelas

Dendrobates leucomelas

Dendrobates leucomelas
Fotografia: Brian Gratwicke

Tamanho: Variável, mas ronda os 3 e os 4,5 centímetros.

Aparência: Esta rã tem quatro variações de cores até agora descobertas. As costas e as extremidades estão cobertas de manchas pretas ou castanhas e o fundo costuma ser amarelo, cor-de-laranja ou verde. A coloração com manchas castanhas fundo amarelo ou manchas pretas e fundo verde são variações difíceis de se encontrar, apesar de já se comercializar.

Dimorfismo sexual: Inexistente. O macho dilata o saco vocal para cantar. As fêmeas podem ser mais corpulentas que os machos. Os dedos dos machos podem ser em forma de coração, mas não é um sinal seguro para as distinguir (não é fiável).

Comportamento: São rãs diurnas, de comportamento terrestre mas também trepador. Os machos definem territórios fixos.

Reproduzem-se todo o ano, têm um canto muito suave quando as fêmeas estão dispostas a desovar seguem o macho até a um lugar escolhido pelo macho para fazerem a postura.

Podem fazer as posturas em diversos locais como em bromélias, caixas de rolos fotográficos, caixas de pétri, entre outros locais.

As posturas rondam os 2 a 8 ovos e o macho é que cuida deles. Passado 12 a 15 dias os girinos libertam-se da gelatina, o macho encarrega-se de deslocar os girinos, 1 a 3 girinos de cada vez para um lugar com mais água.

Convém separar os girinos quando já estão na água pois podem ser canibais. Podem-se colocar em recipientes individuais no terrário, mas outra opção é ter numa incubadora.

A água em cada recipiente não deve superar os 5 a 6 centímetros e é necessário trocar a água a cada 1 ou 2 dias, no máximo.

Os girinos podem ser alimentados com comida para peixes, comida de cão triturada ou larvas de mosquito congelado, em proporções reguladas. Os girinos levam mais ou menos 100 dias para concluir a metamorfose completa.

Terrário: O terrário deve ter pelo menos 45 x 45 x 60 centímetros (comprimento x largura x altura) para um casal de Dendrobates leucomelas.

O solo do terrário pode ser coberto com musgo, folhas de carvalho ou castanheiro, ou mesmo só húmus. Pode se usar plantas como bromélias, fetos, tillandsias, orquídeas entre outras plantas. Deve haver uma densa vegetação uma vez que se tratam de rãs com hábitos trepadores.

A temperatura diurna deve rondar os 26 a 28º C e a nocturna os 19 a 22º C.

Deve-se borrifar o terrário pelo menos duas vezes por dia, a humidade deve rondar os 70 a 90%.

Alimentação: Deve se dar uma alimentação variada como micro grilos (cuidado com os grilos pois podem escapar-se e tornar um grande problema para as rãs, pois podem ser atacadas), larvas da cera, drosophila e colémbolos. Na alimentação deve-se juntar uma vez por semana vitaminas com cálcio D3.

Distribuição: Esta rã encontra-se na Venezuela (norte do rio Orinoco a uma altitude de 50 a 1.000 metros), no Brasil, na Colômbia e Guiana.

Ameaças: IUCN Lista Vermelha: pouco preocupante.

Notas: Espécie ideal para quem quer iniciar-se no fascinante mundo das dendrobates. É uma das espécies mais fáceis de manter em cativeiro devido a ser muito descarada, ser fácil de alimentar e atinge um bom tamanho.

Dendrobates auratus

Dendrobates auratus

Dendrobates auratus
Fotografia: Brian Gratwicke

Tamanho: Variável mas ronda os 2,5 e os 4,5 centímetros (os machos são mais pequenos que as fêmeas).

Aparência: Nas distintas populações pode se encontrar a maior variedade de cores. Podem ser de fundo todo preto, castanho, azul ou verde. As costas e as extremidades estão cobertas de linhas, as manchas podem ser verdes, azuis, cinzento metalizado, castanho ou até branco.

Na parte Ocidental da Costa Rica existem indivíduos completamente negros.

Dimorfismo sexual: Inexistente. O macho dilata o saco vocal para cantar. As fêmeas podem ser mais corpulentas que os machos e os machos podem ter a cabeça mais pontíaguda e os dedos em forma de coração, mas não é um sinal seguro para as distinguir (não é fiável).

Comportamento: São rãs diurnas e de comportamento essencialmente terrestre. Os machos definem territórios fixos, onde se refugiam quando são incomodados.

Reproduzem-se todo o ano, têm um canto muito suave quando as fêmeas estão dispostas a desovar seguem o macho até a um lugar adequado escolhido pelo macho para fazerem a postura. Podem fazer as posturas em diversos locais como em bromélias, caixas de rolos de fotográficos, caixas de pétri entre outros locais mas estes são os mais comuns.

As posturas rondam mais ou menos os 5 a 10 ovos e o macho é que cuida deles. Passado 15 dias os girinos libertam-se da gelatina e o macho encarrega-se de deslocar os girinos, 1 a 3 girinos de cada vez para um lugar com mais água.

Convém separar os girinos quando já estão na água pois podem ser canibais. Podem-se colocar em recipientes individuais no terrário, outra opção é ter numa incubadora.

A água em cada recipiente não deve superar os 5 a 6 cm e é necessário trocar a água a cada 1 ou 2 dias no máximo.

Os girinos podem ser alimentados com comida para peixes , comida de cão triturada ou larvas de mosquito congelado devem se dar proporções reguladas.

Os girinos levam mais ou menos 100 dias para concluir a metamorfose completa.

Terrário: O terrário deve ter pelo menos 60 x 30 x 30 centímetros (comprimento x largura x altura) para um casal de Dendrobates auratus.

O solo do terrário pode ser coberto com musgo, folhas de carvalho ou castanheiro, ou mesmo só húmus. Pode-se usar plantas como bromélias, fetos, tillandsias, orquídeas entre outras plantas.

A temperatura diurna deve rondar os 25 a 28º C e pela noite 19 a 22º C.

Deve-se borrifar o terrário pelo menos duas vezes por dia, a humidade deve rondar os 70 a 90%.

Alimentação: Deve se dar uma alimentação variada como micro grilos, larvas da cera, drosophila e colémbolos. Na alimentação deve-se juntar uma vez por semana vitaminas com cálcio D3.

Distribuição: O raio de distribuição desta espécie estende-se desde o Sul do Nicarágua à Colômbia, Costa Rica, Panamá e nas ilhas Tobago assim como (introduzidas) na ilha de Oahu (Havaí).

Ameaças: Tolerância de um grau de modificação do habitat.

IUCN Lista Vermelha: pouco preocupante.

É possível a extinção da morfologia azul no Panamá, mas presume-se que a população, sendo grande, é improvável declinar rapidamente. Existem até 15 morfologias de Dendrobates auratus (estudo realizado em 1992).

Notas: Espécie ideal para quem quer iniciar-se no fascinante mundo das dendrobates. É uma das espécies mais fáceis de manter em cativeiro.

Dendrobates azureus

Dendrobates azureus

Dendrobates azureus
Fotografia: Alan Wolf

Tamanho: Variável, a fêmea ronda os 4,5 e os 5 centímetros, o macho geralmente é mais pequeno.

Aparência: Esta rã só tem um padrão até agora descoberto. A sua cor principal é um azul brilhante, com alguns salpicos pretos cujo tamanho é variável. Os tons azuis variam principalmente na zona do peito e dedos são azul claro, região abdominal e costas são azul escuro.

Dimorfismo sexual: O macho tem as cabeças dos dedos em forma de coração (esta espécie é das poucas que se pode diferenciar os sexos através dos dedos, devido ao tamanho que atinge, mas não é totalmente fiável). O macho dilata o saco vocal para cantar. As fêmeas costumam ser mais corpulentas e maiores que os machos.

Comportamento: São rãs diurnas, de comportamento terrestre. Os machos atingem a maturidade sexual aos 9 meses.

Reproduzem-se todo o ano e têm um canto “semelhante ao de um brinquedo”.

Quando as fêmeas estão dispostas a desovar, seguem o macho até a um lugar escolhido pelo macho para fazerem a postura. Podem fazer as posturas em diversos locais como em bromélias, caixas de rolos fotográficos, caixas de pétri entre outros locais mas estes são os mais comuns.

As posturas rondam mais ou menos os 2 a 6 ovos e o macho é que cuida deles. Passado 12 a 21 dias os girinos libertam-se da gelatina e o macho encarrega-se de deslocar um girino de cada vez para um lugar com mais água.

Convém separar os girinos quando já estão na água pois podem ser canibais. Podem-se colocar em recipientes individuais no terrário, mas outra opção é ter numa incubadora cuja temperatura deverá ser de 22 a 24º C.

A água em cada recipiente não deve superar os 5 a 6 centímetros e é necessário trocar a água a cada um ou dois dias.

Os girinos podem ser alimentados com comida para peixes, comida de cão triturada ou larvas de mosquito congelado. Devem-se dar proporções reguladas.

Os girinos levam mais ou menos 100 dias para concluir a metamorfose completa.

Terrário: O terrário deve ter pelo menos 60 x 50 x 50 centímetros (comprimento x largura x altura) para um casal de Dendrobates azureus.

O solo do terrário pode ser coberto com musgo, folhas de carvalho ou castanheiro, ou mesmo só húmus. Pode-se usar plantas como bromélias, fetos, tillandsias, orquídeas, entre outras plantas.

A temperatura diurna deve rondar os 26 a 28º C e pela noite os 19 a 22º C. Deve-se borrifar pelo menos duas vezes por dia e a humidade deve rondar os 70 a 90%.

Alimentação: Deve se dar uma alimentação variada como micro grilos, larvas da cera, drosophila e colémbolo. Esta espécie prefere uma grande quantidade de colémbolo. Na alimentação deve-se juntar uma vez por semana vitaminas com cálcio D3.

Distribuição: Sul de Suriname e Guiana Francesa.

Ameaças: IUCN Lista Vermelha: espécie não avaliada / pouco preocupante.

Notas: Espécie ideal para quem se quer iniciar no fascinante mundo das dendrobates, pois atinge um tamanho grande (considerando o tamanho da maioria das dendrobates), é descarada e fácil de alimentar.

Doenças nas dendrobates

Doenças nas dendrobates

Dendrobates azureus
Fotografia: Néstor Lucas Martínez

As doenças nas dendrobates são algo preocupante devido a ainda haver pouca informação a respeito. Uma vez que o tema preocupa naturalmente muitos adeptos das dendrobates, recolhi informação para dar a conhecer um pouco mais sobre os problemas mais comuns destas rãs.

Retenção de líquidos

Começo pela retenção de líquidos por ser a doença com que a minha primeira rã morreu.

A que se deve esta doença?
Esta doença pode dever-se a falha renal ou alterações no fígado que inibam a produção da albumina, o que pode ter origem em dermatite bacteriana, septicemia ou parasitas.

Como a rã se banha em água destilada ou em água de osmose – que por não ter solutos se incorpora no corpo da rã em vez de sair – vai originar a retenção de líquidos na barriga, pernas e pescoço .

O que provoca?
Provoca um inchaço grande no corpo, principalmente na barriga, nas pernas e no pescoço. Como a retenção de líquidos vai aumentando, a rã pode vir a sufocar devido ao inchaço no pescoço, que fecha as vias respiratórias.

Existe cura?
Sim, existe cura mas não é totalmente fiável.

Banhos com água muito salgada – para a rã perder líquido através da reacção osmótica – não são propriamente uma cura mas um pequeno tratamento para a doença não se alastrar.

Outro tratamento é o soro de ringer, que serve para manter hidratada a rã e evita que a rã deixe de comer. Se deixar de comer existe também uma uma solução que é o gluconato de cálcio, um suplemento líquido que contém glucose (energético).

A solução mais segura, mas também a mais difícil, é extrair os líquidos retidos.

Deve-se pegar numa seringa, uma das mais fininhas pois não se pode atingir um músculo nem uma artéria. Perfurar com cuidado a pele da perna e daí se extrai o liquido. A perna tem uma ligação à barriga por isso quando se extrai o liquido da perna, também se extrai o liquido da barriga.

Como fazer o medicamento?

Gluconato de cálcio: É utilizado pelos veterinários, mas numa diluição de 23%, pelo que é necessário misturar 1 mililitro da solução com 10 mililitros de água, de forma a obter uma concentração a 2% (20 mg/ml).

Coloca-se num papel que absorva e depois numa caixinha onde a rã vai estar, porque apesar de ela não comer, vai absorver pela pele e o mesmo acontece com o soro de ringer.

Soro de ringer:

  • Agua destilada – 900 ml de agua
  • NaCl (cloreto de sódio) – 6,6 g
  • KCl (cloreto de potássio) – 0,15 g
  • CaCl2 (cloreto de cálcico) – 0,15 g
  • NaHCO3 (bicarbonato sódico) – 0,2 g
Dendrobates com retenção de líquidos

Fotografia: Diogo Alves

Na imagem: foto da minha Dendrobates auratus de 3 meses com retenção de líquidos. As cores perderam-se devido ao álcool e mirrou um bocado mas vê-se bem a barriga.

Parasitas internos (parasitas nos intestinos)

Os parasitas são um tema que abrange muitas doenças e é muito preocupante nos anfíbios, por isso acho que será uma ajuda.

É muito importante, quando se tem um terrário habitado e se quer introduzir outra rã, essa deve ser colocada em separado pois estes parasitas na maior parte das vezes são transmissíveis e podem contagiar todas as outras rãs no terrário.

Passado três semanas ou um mês, se a rã estiver a alimentar-se bem e de perfeita saúde, já se pode então colocar no terrário.

A que se deve esta doença?
Todas as rãs têm parasitas internos, mas por vezes esses parasitas não são detectáveis por a rã ser saudável (boa alimentação, entre outros factores). No entanto se for uma rã fraca (com má alimentação e poucas condições no terrário) os parasitas vão aproveitar as baixas defesas no organismo da rã e manifestar-se como um problema sério.

Por isso, é muito importante dar uma boa alimentação e não ter nada de tóxico ou algo que possa fazer mal à rã.

Existem muitos parasitas internos, mas o mais conhecido é o que se aloja nos intestinos.

O que provoca?
Estes parasitas podem provocar diversos sintomas, como a não aceitação de alimento e também a magreza extrema – uma vez que se aloja no intestino, alimenta-se dele e pode levar à morte da rã.

Existe cura?
Sim, existe a cura mas (também) não é totalmente fiável.

Se a rã deixar de comer a solução é gluconato de cálcio (energético, detalhes já descritos em cima) e cálcio, que manterá a rã alimentada para que se faça o tratamento com Panacur ou Levacol, dois medicamentos que se podem preparar em casa.

Como fazer o medicamento?

Panacur: Pode-se encontrar num veterinário, a sua solução é de 25 mg/ml (Panacur é de 2,5%), que é uma concentração 4 vezes inferior.

Também podemos conseguir em pastilhas de 250 mg, devendo-se dissolver cada pastilha em 2,5 ml de água para conseguir uma concentração de 100 mg/ml.

Coloca-se uma gota nas costas da rã. Deve-se guardar a solução no frigorífico e quando for utilizada, deve-se deixar um pouco ao ar para voltar à temperatura ambiente antes de deitar a gota na rã. Cuidado com a sobre-dosagem.

Levacol: É o medicamento que se comercializa mais para dendrobates. Absorve bem através da pele e também tem um amplo poder antiparasita como o Panacur.

Tem que se ter muito cuidado com as sobre-dosagens. Coloca-se uma gota nas costas diariamente durante 7 a 10 dias.

Na imagem: antes (esquerda) e depois (direita) do tratamento, passado três dias.

Este artigo foi publicado na Edição nº 9 da Revista Mundo dos Animais, em Dezembro de 2008, com o título “Mundo das dendrobates”.

Tópicos: Rãs e Sapos, Anfíbios, Animais Exóticos, Animais de Estimação, Artigos em Destaque