Iniciação aos Anfíbios em Cativeiro

Iniciação aos anfíbios em cativeiro

Bombina orientalis
Fotografia original: Matt

Uma das dúvidas mais comuns é como se iniciar no mundo de manutenção de anfíbios em cativeiro.

É uma dúvida bastante premente já que a sua manutenção para ser bem sucedida envolve o domínio de uma série de disciplinas de diversas área do conhecimento como a botânica, biologia, aquariofilia ou terrariofilia.

A manutenção de anfíbios em cativeiro é uma actividade relativamente recente no mundo da manutenção de exóticos, tendo muito provavelmente se iniciado com a manutenção de axolotls em França no início do século XIX.

Já que se tratam de espécies cujo o interesse comercial exceptuando o do hobbie era praticamente nulo (excluindo também as pernas de rã em França), os primeiros proponentes da ideia foram jardins zoológicos e botânicos que queriam enriquecer o seu espólio e cativar mais visitantes.

Com o início da manutenção de espécie cada vez mais díspares em colecções particulares, o avanço de conhecimentos e da tecnologia começava a ser cada vez mais viável a manutenção de anfíbios em cativeiro.

Uma das dificuldades é escolher por onde começar, é um bocado como o enigma do ovo e da galinha.

Devo escolher o tipo de setup e depois escolher as espécies que mais se adequam a esse setup, ou escolher a espécie e depois criar o setup adequado para albergar essa espécie? Qualquer das abordagens é válida, no entanto é preferível escolher a espécie e depois criar o ambiente em cativeiro necessário ao bem-estar dessa espécie.

A classe Amphibia é dividida em várias ordens, a anura (rãs e sapos), a caudata (tritões, salamandras e sirenídeos) e a gymnophiona ou apoda (cecílias). Cada qual com as suas necessidades especiais de habitat que devem ser cumpridas se queremos manter as espécies com sucesso.

Há vários tipos de setups que podem ser utilizados para manter anfíbios, terrário, aqua-terrário, paludários, aquários.

Terrários são por norma mais utilizados para sapos, salamandras, tritões em fase terrestre e algumas cecílias. Aqua-terrários para algumas rãs, tritões e salamandras em fase de criação. Paludários para rãs e tritões com um estilo de vida maioritariamente aquático. Por ultimo os aquários que são usados para tritões, algumas espécies de cecílias e algumas rãs.

Cada um tem as suas vantagens e desvantagens. O importante é suprir as necessidades do futuro habitante, o aspecto estético será sempre secundário.

As espécies de anfíbios mais comuns no nosso mercado são os Cynops orientalis (tritões ventre de fogo), Pachytriton labiatus (tritões cauda de leme), rãs africanas (Xenopus laevis) e râs bombinas (Bombina orientalis), com algumas outras espécies a aparecer esporadicamente.

Algumas destas espécies são um excelente início ao mundo da manutenção de caudatas em cativeiro (Cynops, Xenopus…), outras são pouco adequadas a principiantes (Pachytriton).

A maior causa de morte destes animais em cativeiro é o desconhecimento das necessidades específicas de cada espécie, sendo comum ouvir esclarecimentos como “comem o mesmo que os peixes”, “pode por no seu aquário com outros peixes” e “vivem em qualquer temperatura” que levam na maioria dos casos a uma elevada mortalidade em cativeiro.

Os erros mais comuns na criação de anfíbios em cativeiro costumam ser o desrespeito pelas temperaturas, pelo tipo de habitat do animal e pelo tipo de comida que é oferecida, erros estes que normalmente têm resultados catastróficos.

Em algumas lojas da especialidade e seleccionadas é possível encontrar ainda outras espécies que são mais adequadas para o inicio no hobbie. Normalmente encontram-se em melhor estado e bem alimentadas, o que diminui em muito a mortalidade em cativeiro. Estas lojas têm ainda a vantagem de terem em stock material adequado para a criação dos seus setups bem como comida adequada para cada espécie.

Axolote

Axolote
Fotografia: carnifex82

Entre as espécies mais adequadas para principiantes encontram-se os Cynops orientalis e os axolotes no mundo dos caudatas, no mundo dos anura as Bombinas orientalis, Epidobates tricolor, Dendrobates auratus e Xenopus laevis e no mundo das gymnophionas as Typhlonectes natans.

Estas espécies por norma costumam tolerar melhor alguns dos erros mais comuns em principiantes.

Na alimentação as coisas normalmente complicam, sendo necessário na maioria dos casos comida viva, podendo para isso recorrer a um conjunto de organismos utilizados na alimentação dos animais. Estes organismos podem ser obtidos de várias formas, recolhendo na natureza, comprando em lojas da especialidade ou criando nós em nossa própria casa através de culturas de arranque.

Todos os métodos têm as suas vantagens e desvantagens, a compra em lojas torna o hobbie mais oneroso, a colecta na natureza pode introduzir patogénicos e organismos indesejáveis, com a criação na própria casa corremos o risco de fuga de alguma da comida viva…

O manuseamento dos anfíbios deve também ser minimizada já que para alem de causar stress ao animal a nossa pele muitas vezes contem substancias (cremes, sabonete…) que podem causar muitos danos aos nossos animais.

Mas nem tudo são aspectos negativos na manutenção em cativeiro destes animais. Não é à toa que a manutenção de anfíbios em cativeiro é considerado o hobbie mais exigente no mundo da criação de animais exóticos.

É também o que considero ser o mais recompensador, quer pela exotismo das espécie, quer pelos resultados que podem ser alcançados.

Actualmente a maioria das espécies mundiais de anfíbios encontram-se de alguma forma ameaçadas na sua sobrevivência. A sua criação em cativeiro e compreensão de biótipos e comportamentos trata-se sem dúvida de um passo importante para a sua conservação quando os seus habitats se encontram em risco de desaparecer.

O segredo para a correcta manutenção de qualquer espécie em cativeiro é a informação e a paciência. Com estes dois ingredientes os resultados aparecerão naturalmente.

Este artigo foi publicado na Edição nº 9 da Revista Mundo dos Animais, em Dezembro de 2008, com o título “Anfíbios – Iniciação”.

Tópicos: Anfíbios, Animais Exóticos, Animais de Estimação, Artigos em Destaque