Conheça os Cavalos: Comunicação, Segurança e Pelagens

Conhecer os cavalos

Arte: Carlos Gandra

Aprender a entender o cavalo melhora muito o relacionamento entre cavalo e cavaleiro. Além disso, pode salvar-nos de um mal maior, como por exemplo um coice!

Comunicação dos cavalos

A comunicação dos cavalos baseia-se sobretudo em gestos e expressões. É feita através de movimentos delicados, como o rodar das orelhas, a compressão dos músculos do focinho, os movimentos da cauda, entre outros.

Se por alguma razão o cavaleiro não captar esses sinais, o cavalo vai expressar a sua dor, irritação ou desconforto de uma maneira mais perceptível, que pode ser em forma de coice ou dentada.

Para que isso não aconteça, o cavaleiro deve ter especial atenção às expressões do cavalo para evitar que ele recorra à agressão.

  1. Orelhas para os lados: O cavalo encontra-se num estado relaxado. Pode também verificar-se a “queda” do lábio inferior.
  2. Orelhas para a frente: O cavalo está atento a algo que lhe despertou interesse. Os cavalos cumprimentam-se também com as orelhas neste sentido. Pode significar também alerta de perigo e nesse caso, o cavalo ergue o pescoço e cheira o ar.
  3. Orelhas para trás: Podem ter diversos significados. Durante a monte, pode significar que o cavalo está atento ao cavaleiro e às suas ordens. Quando está prestes a atacar, as orelhas estão quase “coladas” à cabeça, pois assim evitam que durante um confronto possam ser mordidos. Em caso de ataque, os cavalos expõem também o branco do olho, contraem os cantos dos lábios e abanam a cabeça.
  4. Olhos semi-cerrados e lábios contraídos: Mau-humor, dor ou aborrecimento.
  5. Dentes expostos: Podem significar que o cavalo vai morder.
  6. Cauda: O abanar da cauda é sinal de irritação. Quando o cavalo “cola” a cauda entre as pernas, é um aviso de um possível coice. Se abanarem a cauda em grupo, pode ser sinal de amizade entre eles. Utilizam-na também para afastar as moscas e os insectos. Se galoparem com a cauda erguida, é sinal de prazer e alegria.
  7. Cabeça: Abanar a cabeça pode significar divertimento e brincadeira, se estiverem soltos no campo. Durante a monte, pode ser sinal de desconforto.

Como abordar um cavalo

Não há dois cavalos iguais, mas todos são mais ou menos medrosos.

Assim sendo, há que preveni-los da nossa chegada, falando-lhes calmamente para evitar surpreendê-los.

Por uma questão de hábito, é preferível aproximarmo-nos pelo lado esquerdo. Sobretudo é importante mantermo-nos calmos e nunca inquietarmos os animais gritando ou gesticulando.

Conforme os casos há que ter os seguintes cuidados:

  1. Abordar um cavalo preso: Quando preso, quer à manjedoura quer a uma parede, há que chama-lo pelo nome ou com uma expressão amigável, entrando pela esquerda sem nunca ficarmos atrás dele nem nos deixarmos apertar contra a baía ou parede, para que não o tenhamos de empurrar, sem violência, para nos deixar passar.
  2. Abordar um cavalo na boxe: Devemos abrir a porta avisando da nossa entrada e dirigindo-nos à sua cabeça de modo a não nos deixarmos encurralar a um canto. A porta não deve ficar escancarada num convite à fuga, nem fechada de modo que nos seja difícil abri-la em caso de problema.
  3. Abordar um cavalo solto (na pastagem): Há que avançar calmamente para ele, e, quando estivermos muito próximos, falar-lhe e estender-lhe a mão baixa para que cheire ou, eventualmente, dar-lhe uma guloseima. Convém aproximarmo-nos da espádua (e não da cabeça) para, numa primeira fase, lhe passarmos um braço ou uma corda de prisão à volta do pescoço, pondo-lhe, logo a seguir, a cabeçada. Correr atrás dele é a maneira segura de nunca mais o agarrar.
  4. Apanhar um cavalo fugido num picadeiro ou num campo de treino: As pessoas disponíveis devem, calmamente, estabelecer uma linha que vai avançando para encurralar o cavalo a um canto. Após o cavalo parado o seu tratador avança para o prender. Quem estiver a cavalo pára e espera que o cavalo seja apanhado.

Regras de segurança

  1. Ao pôr ou tirar um cavalo de uma boxe: Deve abrir-se completamente a porta e passar por ela à frente do cavalo, para evitar ser-se entalado ou encurralado a um canto.
  2. Ter cuidado com disputas e reacções dos cavalos uns com os outros: Mesmo um cavalo dócil pode ser muito agressivo com os outros, sobretudo durante a distribuição de ração.
  3. Nunca efectuar correrias ou algazarras na proximidade de cavalos: Dentro de cavalariças, picadeiro ou campo de treino, pois são animais que necessitam de ambiente tranquilo para não se enervarem e poderem ser facilmente tratados ou trabalharem bem.
  4. Nunca entrar num picadeiro sem antes parar e pedir autorização: Não só como norma de cortesia tradicional, como por razões de segurança dos cavaleiros que nele evoluem e do próprio que pode ser atropelado, por não ter sido visto no exacto momento da entrada.
  5. A circulação dentro de um picadeiro ou campo de treino: Em Portugal, tal como nas estradas e caminhos, faz-se pela direita, pelo que a pista da parede (teia) pertence a quem trabalha para a mão esquerda e a interior a quem o faz para a mão direita, observando-se ainda as seguintes regras:
    1. Quem trabalha em círculo deve dar prioridade a quem se aproxima na pista, independentemente do lado por onde se desloca;
    2. Quem trabalha ou descansa a passo, não tem direito a ocupar pista;
    3. Em Portugal, o cavaleiro que circula para a mão direita, cede a pista ao que se apresenta pela frente e que vai cruzar-se com ele, circulando para a mão esquerda. As ultrapassagens, de resto a evitar o mais possível, fazem-se sempre por dentro e não entre o ultrapassado e a parede (teia);
    4. Quando evoluem duas escolas ou vários cavaleiros em trabalho individual convém que os trabalhos em círculo sejam repartidos pelos dois topos do picadeiro, num deles para a mão esquerda e no outro para a mão direita;
    5. Deve haver a preocupação permanente de deixar a pista livre para quem trabalha, nunca parando nela ou, por qualquer forma, cortando a circulação sem a prévia anuência dos demais cavaleiros, por exemplo, para colocar um obstáculo, ajustar a cilha ou os estribos, atender o telemóvel, etc.
  6. Uma escola nunca deve formar-se “em fila”: Para evitar querelas e coices entre os cavalos, nem ao longo da parede (teia), sobre a pista, impedindo a circulação, mas sempre lado a lado e sobre a linha do meio do picadeiro.
  7. Depois de montar há que manter a imobilidade até ser recebida a ordem de avançar: Uma vez em movimento é importante não deixar alcançar o cavalo da frente, para evitar as consequências, muitas vezes graves, de coices de reacção. No exterior, o intervalo recomendado é de cerca de um comprimento de cavalo.
  8. Nenhum aluno pode montar sem protecção de cabeça: E as pernas também protegidas com botas ou polainas, além de não dever usar calçado sem tacões porque o pé pode enfiar-se perigosamente no estribo.

Pelagem dos cavalos

Pelagens simples: unicolores

Tratando-se das principais, ou básicas, em que os pêlos do corpo são de uma só cor, de simples não tem nada, pelo que houve, desde logo, que dividi-las em dois sub-grupos: unicolores e com crinas de cor diferente da pelagem.

Branco

Pelagem não evolutiva muito rara, na medida em que, desde o nascimento, não existe pigmento nem nos pêlos (completamente brancos, sem qualquer espécie de malhas) nem na pele (cor-de-rosa), mas os olhos são escuros, geralmente castanhos.

A raça dinamarquesa Frederiksborg teve uma linha de cavalos brancos extinta no século XIX.

Um cavalo branco possui obrigatoriamente um progenitor branco e diferencia-se:

  • Do Isabel, porque este tem crinas creme-marfim e os olhos claros, geralmente azuis, alem de poder apresentar malhas;
  • Do Ruço, por mais branco que pareça (pela idade avançada ou pelo embranquecimento precoce) porque este apresenta sempre pele pigmentada escura e pode apresentar malhas.

Preto

Pelagem não evolutiva, embora os poldros nasçam castanhos (este pêlo cai, não evolui) e, no Verão, os pêlos mais expostos à radiação solar possam adquirir um tom acastanhado.

O pigmento preto dominante pode ser mais ou menos contrariado pelo pigmento vermelho e daí poderem resultar lazões ou pelagens diluídas como, por exemplo, palominos, do acasalamento entre pretos.

Existem as variedades Azeviche (na foto, cor intensa e brilhante) e Pezenho (cor desbotada e baça nas faces, axilas, flancos, bragadas e ventre).

Diferencia-se do Castanho Pezenho, porque neste as faces, axilas, flancos, bragadas e ventre são mais claros (vermelho-acobreado) e, no Preto o focinho nunca adquire aquele tom acobreado.

É uma cor que ocorre com alguma frequência, sendo característica de algumas raças como a Fúcia e havendo criadores que seleccionam linhas desta cor, como a Coudelaria Ortigão Costa, em Portugal.

Lazão

Pelagem não evolutiva, apresenta pêlos avermelhados sobre pele escura em todo o corpo, com crinas (nunca pretas) do mesmo tom ou mais claras ou mais escuras que o corpo cujos cabos são obrigatoriamente avermelhados, (excepto quando calçados) e os olhos escuros.

Existem as variedades Claro (cor aberta), Comum (cor de canela) e Torrado (cor de café torrado).

É uma cor muito frequente e característica de algumas raças como a Frederiksborg e a Suffolk.

Pelagens simples: crinas de cor diferente

Castanho

Pelagem não evolutiva de pêlos castanhos (tons variáveis até ao avermelhado), com crinas e cabos pretos e olhos escuros. Muito frequente, é a segunda mais observada na raça Lusitana e é característica de outras como a Garrana e a Cleveland Bay.

Existem três variedades: Claro (desbotado, amarelado), Comum (cor de castanha madura) e Pezenho que é um castanho muito escuro com o focinho, faces, axilas, flancos, bragadas e ventre mais claros (vermelho-acobreado).

Distingue-se do Preto Pezenho porque este não só tem as faces, axilas, flancos, bragadas e ventre mais escuro, como nunca apresenta o focinho vermelho-acobreado.

Pelagens compostas

Ruço

Pelagem evolutiva em que se incluem não só as que tem uma cor-base preta (grande parte dos Lusitanos ruços) mas também as de cores-bases castanhas e lazã (grande parte dos Puro Sangue Árabes ruços) e nas quais, ao longo do tempo, os pelos escuros vão sendo substituídos por pêlos brancos.

Difícil de identificar antes da primeira muda de pêlo (pêlo da mama, por volta dos 6 meses), na fase seguinte os pêlos brancos e escuros apresentam-se mais ou menos, na mesma proporção e com a idade os pêlos podem ficar totalmente brancos mas, a pele apresenta sempre a pigmentação escura.

Resumindo: pele escura; olhos escuros; pêlos brancos e escuros (pretos ou vermelhos), progressivamente brancos; crinas e cabos escuros (pretos ou vermelhos) progressivamente brancos podendo, algumas vezes as crinas não acompanhar o progresso de embranquecimento. Podem existir malhas (brancas).

Existem duas variedades: comum, pêlos escuros (geralmente pretos) e brancos e sabino / avinhado, pêlos vermelhos disseminados entre os pêlos pretos e brancos.

Destes diz-se batardo quando os pêlos vermelhos estão aglomerados em malhinhas, lembrando a pelagem da abetarda (Otis tarda).

Este artigo foi publicado na Edição nº15 da Revista Mundo dos Animais, em Abril de 2010, com o título “À Descoberta dos Cavalos”.

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