E se os Dinossauros Eram Totalmente Diferentes?

Dinossauros

Créditos: Lida Xing / University of Alberta

Nunca um ser humano viu (ou verá) um dinossauro vivo. É um facto.

Há cerca de 66 milhões de anos, naquela que é a mais popular das extinções, a extinção dos dinossauros, estes animais que fascinam o nosso imaginário foram dizimados do nosso planeta e não mais voltariam.

Tudo o que conhecemos dos dinossauros, bem como de diversos outros animais pré-históricos, chegou até nós através do registo fóssil, que nos mostra como era o esqueleto dos animais.

E é a partir do esqueleto que podemos tentar perceber qual a verdadeira aparência e conhecer os hábitos e comportamentos desses animais com vida.

Evidentemente, os estudos científicos são o mais rigorosos possíveis, um paleontólogo não se limita a achar coisas sobre um dinossauro: ele estuda todos os pormenores, compara com outros animais atualmente existentes e fundamenta as suas conclusões.

Por vezes existem falhas, mas a ciência é assim mesmo, não dar nada como certo e garantido, não criar dogmas.

Novas descobertas podem mudar radicalmente conceitos anteriores (como a descoberta de que vários dinossauros tinham penas, algo que não era espectável há poucas décadas atrás), mas tendo em conta os restos incompletos e fragmentados que chegaram até nós ao longo de milhões de anos, podemos considerar que sabemos bastante sobre os primeiros animais do nosso mundo.

Porém, no que toca à aparência, apenas podemos contar com a observação dos seus esqueletos e imaginar como seria aquele animal, com órgãos, músculos, sangue e pele por cima dos ossos.

Parece simples? Não o é. Se mostrar ao leitor os esqueletos de uma dúzia de animais bem conhecidos do nosso mundo atual, talvez não reconheça a que animais pertencem alguns deles. Consegue perceber num esqueleto de um gato doméstico que se trata de um peludinho de bigodes que até rebola e ronrona?

Foi esse o motivo que levou dois paleoartistas, C.M. Kosemen e John Conway, a desafiar a ideia que todos temos dos dinossauros, representados por exemplo nos filmes «Jurassic Park» e em diversos documentários, explorando possibilidades radicalmente diferentes.

Estamos sempre a pensar nos dinossauros como animais elegantes e ferozes, mas, e se por acaso até eram bem redondos e de aspeto castiço?

Esse trabalho deu origem ao livro «All Yesterdays: Unique and Speculative Views of Dinosaurs and Other Prehistoric Animals» (a versão anterior é gratuita e está disponível em pdf), que se pode traduzir como «Todos os Passados: Perspetivas Únicas e Especulativas dos Dinossauros e Outros Animais Pré-Históricos».

De seguida deixo-lhe alguns exemplos de ilustrações encontradas no livro e que desafiam, em alguns casos de forma drástica, a ideia que temos dos dinossauros.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

Na imagem em cima temos um “temível” Tyrannosaurus rex a tirar uma sesta, descansando numa posição amigável, parecida com a posição de dormir dos nossos adoráveis gatos domésticos.

Esta interpretação, bem diferente das habituais ilustrações deste dinossauro onde é quase sempre colocado em cenários sangrentos a despedaçar presas, tem por base os predadores modernos: passam a maioria do seu tempo a dormir e fazer a digestão, não propriamente a aterrorizar os outros animais.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: C.M. Kosemen

Aqui temos um Stegosaurus a acasalar com outro dinossauro, uma imagem também nunca explorada nas habituais ilustrações de dinossauros.

Uma coisa que os fósseis nunca nos vão mostrar, é como seria o aspeto ou o tamanho dos órgãos genitais dos dinossauros. Seriam enormes, como sugerido na imagem?

O cruzamento entre espécies diferentes também é sugerido. Hoje esse comportamento é amplamente conhecido e até chegam a gerar descendência, os animais híbridos. Sabemos também que existiram mamutes híbridos. Terão havido dinossauros híbridos?

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: C.M. Kosemen

A imagem em cima mostra um Majungasaurus crenatissimus observado de frente, em oposição ás ilustrações habituais deste dinossauro terópode onde é sempre representado de perfil.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

Aqui, o pequeno dinossauro Leaellynasaura amicagraphica, imaginado como se fosse gordinho e peludo, com caudas longas e tufadas, em contraposição à estrutura elegante e esguia com que é habitualmente representado.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

Esta imagem é particularmente interessante. Porque motivo os artistas colocaram três Proceratops – uma espécie parente do conhecido Triceratops – em cima de uma árvore, se nada nos seus esqueletos sugere que seriam capazes de as subir?

A resposta está nas nossas cabras. Também conseguem escalar árvores e no entanto, nada no esqueleto de uma cabra sugere essa habilidade.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

Será que o Giraffatitan, parente do famoso saurópode Brachiosaurus, rebolava na lama como fazem os elefantes? Talvez.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

Aqui temos dois Allosaurus, um dinossauro carnívoro que viveu muitos milhões de anos antes do tiranossauro. Nesta ilustração, os artistas especulam que poderiam ter bolsas insufláveis na cabeça. Uma estrutura destas nunca seria visível nos ossos fossilizados.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

As ilustrações habituais mostram o Plesiosaurus a nadar majestosamente pelas águas, perseguindo outras criaturas marinhas com a elegância e ferocidade de um tubarão.

Os artistas sugerem nesta imagem um comportamento totalmente diferente: um predador que se mimetiza no fundo do leito marinho, esperando pacientemente a aproximação de um peixe, para, no momento certo, o atacar.

Atualmente existem vários peixes que utilizam esta técnica para se alimentarem.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: C.M. Kosemen

Que dinossauro feroz é este? Nenhum. A imagem em cima mostra um babuíno atual, que conhecemos gordos e felpudos.

Mas se não os conhecêssemos, um paleoartista poderia representá-lo da forma como está na ilustração acima.

Esta é uma evidência de que se imaginarmos os animais exclusivamente através dos seus ossos, podemos chegar a figuras muito diferentes do que na realidade são.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

Mais um exemplo: a possível interpretação do esqueleto de uma vaca por um paleoartista. Parece uma vaca, um boi ou um touro? Nem por isso.

«All Yesterdays» de C.M. Kosemen and John Conway

Ilustração: John Conway

Para o fim deixamos aquele que é, possivelmente, o exemplo mais representativo em como o esqueleto nos pode enganar. Nesta imagem temos um gato doméstico e podemos ver logo, em particular pela cabeça, que não sugere em nada a linda face dos nossos gatos.

A possível representação de um paleoartista a partir do esqueleto do gato é assustadora: não é minimamente parecido com um gato. Mas a verdade é que está fiel ao seu esqueleto, tão fiel como qualquer ilustração de dinossauros aos respetivos fósseis que deles conhecemos.

Obviamente todas estas ilustrações são especulativas. Tal como escrevemos logo de início, nunca nenhum ser humano viu um dinossauro vivo. Não existem fotografias ou gravuras, não existe qualquer registo além dos fósseis que resistiram no tempo.

Por outras palavras, nunca saberemos com exatidão qual era a aparência de um dinossauro ou qualquer outro animal da pré-história. E como demonstram os autores deste livro, nem sempre o esqueleto do animal é semelhante ao animal em vida.

Esbeltos e ferozes? Gordos e pachorrentos? Fica para a imaginação de cada um.

P.S. Paleoarte é um conjunto de técnicas utilizadas para criar a ilustração artística de um ser vivo ou de um ambiente já extinto, a partir dos fósseis encontrados.

Tópicos: Dinossauros, Animais Pré-Históricos, Artigos em Destaque