O Misterioso Helicoprion

Helicoprion

Ilustração: Ray Troll

De todos os fósseis intrigantes que estiveram nas mãos dos paleontólogos, poucos conseguiram confundir os investigadores durante tanto tempo como os de um peixe, antepassado dos tubarões, chamado Helicoprion.

Os fósseis mostravam uma espiral de dentes, semelhante a uma serra circular, e só agora se conseguiu perceber onde, no corpo do animal, tal estrutura se encaixava, de acordo com um artigo publicado por Brian Switek, cientista e autor do blog Laelaps.

O Helicoprion recebeu o seu nome em 1899, dado pelo geólogo russo Alexander Petrovich Karpinsky, ao perceber que o fóssil semelhante a um nautilus era na verdade uma estrutura pertencente a um antepassado dos tubarões, que terá habitado o oceano há cerca de 270 milhões de anos.

No entanto, faltava saber onde, no animal, tal estranha estrutura se situaria.

Karpinsky sugeriu que a serra dentada faria parte do nariz do peixe (algo parecido com o tubarão-serra), mas outros paleontólogos discordaram. O próprio Karpinsky, posteriormente, pensou que em vez de se situar no nariz, talvez se localizasse na barbatana caudal.

As interpretações foram várias, como se pode ver na imagem em baixo:

Helicoprion

Ilustração: Ray Troll

Como se pode observar, os investigadores não tinham qualquer problemas em dar asas à sua imaginação e descreverem possíveis hipóteses para a fisionomia do Helicoprion.

Durante mais de um século, especulou-se que o peixe poderia ter as lâminas em espiral nos mais variados sítios do seu corpo. Mesmo após se chegar a um relativo consenso, de que a espiral dentada pertencia a uma mandíbula, continuava a ser um pouco estranho imaginar o formato da mesma e o seu encaixe numa boca.

Sem um espécime bem preservado no registo fóssil, era impossível ter a certeza de alguma coisa.

Contudo, um recente estudo, realizado num fóssil descoberto há décadas atrás, fez a derradeira descoberta e permitiu desenhar o Helicoprion tal e qual como teria sido em vida.

O fóssil, desenterrado em 1950, continha não apenas a espiral de dentes, como um pouco de cartilagem da mandíbula superior. O paleontólogo Svend Erik Bendix-Almgreen descreveu esse achado, em 1966, sugerindo que a espiral de dentes pertencia a uma mandíbula inferior alongada.

O fóssil esteve guardado no Museu de História Natural de Idaho durante décadas, até ter sido recentemente alvo de um novo estudo, juntamente com outros fósseis da misteriosa espiral também presentes nesse museu.

Utilizando a tecnologia hoje disponível, nomeadamente instrumentos de tomografia computadorizada, os investigadores puderam observar pela primeira vez a espiral de dentes por dentro.

Os resultados foram brilhantes e permitiram chegar de imediato a duas conclusões: o Helicoprion não tinha uma mandíbula alongada, pelo que a espiral de dentes era mesmo uma espiral e o peixe não era um tubarão mas sim uma quimera (parentes dos tubarões e das raias).

Helicoprion

Ilustração: Ray Troll

Também surpreendente foi perceber que o Helicoprion não tinha dentes na mandíbula superior, pelo que a espiral de dentes representava na verdade todo o seu “armamento” para se alimentar.

Como é que a evolução levou a surgir um animal com esta estrutura dentária tão peculiar – e singular no mundo animal – permanece um mistério.

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