Domesticação do Cão Começou Há Mais de 33 Mil Anos e a Idade do Gelo Interrompeu-a

O cão doméstico das nossas casas descende de antepassados que começaram a ser domesticados há cerca de 17 – 14 mil anos atrás, no entanto, a descoberta de um crânio muito bem preservado de um cão, parcialmente domesticado e com características mistas entre lobos e cães, datado de há cerca de 33 mil anos atrás, sugere que a domesticação do cão terá começado muito antes do que se pensava (vê também: Do Lobo ao Cão).

Domesticação do Cão

Os restos encontrados na Sibéria sugerem que esse cão, que viveu há 33 mil anos atrás, era relativamente semelhante ao moderno Samoiedo (na imagem), embora tivesse um comportamento mais semelhante ao de um lobo do que ao de um cão. Mas porque motivo os cães modernos não descendem destes primeiros antepassados, mas sim dos que viveram mais de 15 mil anos depois?

A resposta pode residir na Idade do Gelo.

Susan Crockford, co-autora do estudo sobre este hiatus na domesticação do cão, refere que “a descoberta demonstra que as condições ideais entre lobos e humanos para que se pudesse iniciar a domesticação estavam presentes há, pelo menos, 33 mil anos atrás”. No entanto, não terão existido as condições ideais para que a domesticação completa ocorresse – para a qual seriam necessárias várias gerações de lobos pré-domesticados ao longo de décadas para gerar um cão verdadeiramente domesticado.

(Vê também: A Presença dos Animais na História do Homem)

A Idade do Gelo, que se iniciou há cerca de 26 mil anos atrás, interrompeu por completo esse processo e os descendentes destes “primeiros cães” não sobreviveram. Com a alteração das migrações dos animais de que as pessoas se alimentavam, as populações humanas tiveram de mudar de lugares com maior frequência do que faziam antes. Como resultado dessas mudanças, os cães pré-domesticados acabaram gradualmente por morrer, ressurgindo após o término da Idade do Gelo, vários milhares de anos depois.

“As condições ideiais não estiveram presentes até ao fim da Idade do Gelo, há cerca de 19 mil anos atrás (…) e mesmo depois dessa época, a tentativa de domesticar cães pode ter sido iniciada e interrompida várias vezes” acrescenteu Crockford, citada pela Discovery News.

A domesticação dos cães pode também ter ocorrido de uma forma natural, sem intervenção directa do Homem, uma vez que os lobos, atraídos pelos espaços, abrigos e restos de alimentos das pessoas, se podem ter gradualmente adaptado ao estilo de vida humano, co-habitando de forma cada vez mais próxima.

O crânio encontrado na Sibéria não é, no entanto, o vestígio mais antigo de um cão. Na Bélgica, já foi encontrado um crânio também com características transitórias entre lobos e cães, datado de há cerca de 36 mil anos. É possível, assim, que os “primeiros cães” tenham surgido na Europa e na Ásia muito antes do que geralmente se pensa, e que a domesticação dos cães, além de multi-cultural (Sibéria e Bélgica, pelo menos) tenha conhecido vários estágios antes de ter sido interrompida por vários milhares de anos, sem descendência sobrevivente.

O estudo demonstra, por exemplo, que o cão encontrado na Sibéria viveu e morreu numa comunidade humana e, até, que terá sido enterrado com algum cuidado ou ritual, que leva a crer que há mais de 33 mil anos atrás a ligação emocional entre lobos/cães e pessoas já seria, de alguma forma, próxima.

Mais informação (em inglês):

Tópicos: Cães, Animais de Estimação