O Meu Cão Chegou. E Agora? Como Devo Treiná-lo?

Primeiros passos no treino do seu cão

Fotografia original: Pete Bellis

De uma forma extremamente simplista e informal, vou tentar passar algumas ideias gerais sobre os problemas com que as pessoas se deparam perante as diferentes possibilidades de treinar um cão.

Num passado relativamente recente, treinavam-se os cães à base da força.

Depois chegaram pessoas “malucas” que começaram a treinar os cães com base no reforço positivo e houve um impacto muito grande. Quem fosse ver um cão a “trabalhar” que aprendeu com base em métodos positivos percebia que havia uma diferença enorme na sua linguagem corporal, quando comparado com um cão treinado com métodos mais antigos, tradicionais ou à base da força.

Basicamente, antigamente empurrávamos o traseiro do cão para baixo até este se sentar e assim que sentava parávamos de empurrar.

Agora passamos um pedaço de comida por cima da cabeça do cão e assim que se senta damos-lhe o pedaço de comida.

Reforço negativo no primeiro caso, reforço positivo no segundo caso.

Já agora, fica a saber que se der uma palmada no cão após saltar para o sofá, está a utilizar castigo positivo, e se optar por esconder o seu brinquedo preferido está a utilizar castigo negativo. E na sua essência, está tudo resumido.

Actualmente há imensa discussão sobre os métodos de treino à base da força, os métodos “exclusivamente” positivos e os métodos mistos que misturam força com positivo.

Os métodos positivos fecham os olhos ao reforço negativo e ao castigo positivo. Os métodos mistos não excluem qualquer dos métodos.

Está fácil de perceber que os métodos à base da força já perderam a corrida e apresentam-se completamente ultrapassados, mas entre os “estritamente” positivos e os mistos ainda vai por aí uma verdadeira “salsichada” para ver quem leva a bicicleta.

Na minha opinião, a forma correcta para treinar um cão não depende de raça, tamanho ou proveniência. Depende do temperamento e das motivações do cão.

Só e apenas.

Em relação ao que motiva o cão, cabe ao dono ver e perceber de que é que o cão gosta. Que alimentos prefere? Gosta de brincar? Como e com que brinquedos?

Ao responder a estas perguntas, estará a encontrar possíveis ferramentas de trabalho para o ensinar de forma positiva a fazer aquilo que quer, seja um simples xixi no local correcto, seja uma espantosa acrobacia de circo.

E em relação à força? Poderá utiliza-la na sua educação e treino?

Para responder a isto, o dono terá de se aperceber do temperamento do cão. Cães com temperamento duro recuperam facilmente de uma correcção física, praticamente como se nada tivesse acontecido. Cães com um temperamento muito “soft” agem como se o mundo tivesse acabado quando você levanta a voz.

Algures entre estas duas situações estão muitos casos de temperamentos mais equilibrados. Na minha opinião, o treino da maioria dos cães deverá ser 90 a 99% positivo, dependendo do seu temperamento e das suas motivações. O 100% positivo é virtualmente impossível até prova do contrário.

Você terá de decidir o seu caminho. Há muitos especialistas com quem pode aprender imenso — uns “estritamente” positivos, outros com filosofia mista.

Aprenda com ambos e opte com bom senso.

Outra coisa que gostava de abordar neste texto é o básico da aprendizagem canina. A cognição animal é uma coisa bastante estudada, mas em relação à qual haverá sempre novas e surpreendentes descobertas.

Até ao momento, a filosofia com que mais me identifico ao nível da educação e treino de um cão, é a que defende que você tem de apanhar o cão em pleno acto para aumentar ou diminuir a frequência futura desse acto.

Assim, se você está a ver o cão a urinar no tapete da sala, a janela de actuação sobre esse comportamento está aberta e você pode actuar sobre esse comportamento agora. Se o cão já terminou de urinar à cinco segundos atrás, a janela de actuação já fechou e já não estamos na área do preto ou branco. Qualquer atitude agora poderá causar confusão na cabeça do cão.

Assim sendo, é muito importante manter a ideia de que os cães vivem apenas e só no presente. Não preparam o que vão fazer daqui a um minuto, nem reflectem sobre a asneira que fizeram à uma hora atrás. Acção e consequência.

Não há passado nem futuro na cabeça deles. Só presente. Não conheço nenhuma forma de dizer agora ao meu cão que não gostei daquilo que ele fez à meia hora atrás. Se você conhecer alguma forma de fazer isto, avise-me por favor.

Finalmente, os cães foram feitos para andar e correr (os humanos também, mas pensam que não).

Assim sendo, um cão cansado é um cão bem comportado. Um dono cansado e um cão cheio de energia é a receita ideal para o desastre. O dono deverá ter sempre um nível energético igual ou superior ao do cão.

Por isso deixo-lhe uma última recomendação: canse o seu cão! Canse-o bem, todos os dias, várias vezes por dia. Tenha só algum cuidado enquanto o cão é novinho, por causa das articulações, mas isso já são assuntos para outras matérias.

Resumindo e concluindo: prefira o positivo e motivacional como base para o treino, foque-se sempre no momento presente e exercite o seu cão.

Divirta-se com o seu amigo!

Uma nota para salvaguardar o autor de confrontações ideológicas no futuro: não existem verdades absolutas nem métodos infalíveis no treino de cães. É perfeitamente possível que no futuro me chegue às mãos informação mais recente que me faça mudar de opinião em relação ao que penso hoje. Há que estar sempre pronto para ajustar.

Este artigo foi originalmente publicado na Edição nº 17 da Revista Mundo dos Animais, em Outubro de 2010, com o título “O meu cão chegou”.

Tópicos: Treino e Manutenção de Cães, Cães, Animais de Estimação, Artigos em Destaque