Telepatia Canina: Como os Cães Leem a Nossa Mente

Podem os cães ler a nossa mente

Fotografia original: Tal Atlas

Qualquer pessoa que já tinha convivido com um cão sabe que os cães, entre todos os animais, parecem ter uma sintonia especial connosco.

Quantas e quantas histórias lemos sobre o cão que deu uma atenção muito especial ao dono quando este estava a passar por um momento menos bom (mais triste, mais desiludido ou stressado), ou até quando se encontrava doente ou com alguma dor ou mal-estar.

Quando o cão parecia saber coisas sobre o nosso estado de espírito que em princípio não teria como saber — e nós não teríamos como lhe contar.

Neste artigo, vamos olhar para alguns estudos científicos que visam entender aquilo a que, não oficialmente, chamamos de telepatia canina. Os mecanismos que levam um cão a compreender-nos melhor que qualquer outro animal. Qual o alcance das suas capacidades, e qual o limite das mesmas.

No fundo, descobrir o melhor amigo do Homem.

Podem os cães ler a nossa mente?

Os cães estão tão sintonizados connosco que podem ler as nossas mentes, de acordo com um estudo publicado na Learning & Behavior. O mesmo estudo indica que os cães, provavelmente, já nascem com essa habilidade.

À medida que os cães se encontram junto dos seres humanos, mais habilidosos se tornam em telepatia canina, que resulta da hipersensibilidade dos sentidos.

Todos aqueles que têm ou já tiveram cães em casa durante algum tempo, com certeza repararam na forma como os cães nos entendem de uma forma particularmente bem, detetando sinais do nosso cansaço, stress, dores de cabeça ou outros problemas antes de nós, conscientemente, os exibirmos.

Os cães são também conhecidos por conseguirem detetar se uma pessoa tem cancro. Parecem igualmente sentir quando estamos felizes e/ou de ótima saúde.

Monique Udell e a sua equipa, da Universidade da Florida, refletiram sobre o porquê de os cães serem tão perspicazes a ler a nossa mente, e como o conseguem fazer.

A questão é, os cães nascem com essa habilidade, ou vão aprendendo com a experiência do contacto humano?

Podem os cães ler a nossa mente

Fotografia: Bev Sykes

Para explorar estas e outras questões, Udell e a sua equipa planearam duas experiências, envolvendo tanto lobos como cães domésticos.

Nas experiências, foi dada a oportunidade aos dois animais de pedirem comida, a uma pessoa atenciosa e a uma pessoa indiferente. Os investigadores observaram pela primeira vez que os lobos, tal como os cães domésticos, são capazes de ir pedir comida à pessoa atenciosa, aproximando-se dela.

Isto demonstra que ambas as espécies, domesticadas ou não domesticadas, têm a capacidade de produzirem um comportamento mediante a atenção que uma pessoa demonstra, consciente ou inconscientemente, por eles.

Uma vez que os lobos não têm experiência no contacto com seres humanos, é assim muito provável que esta habilidade já nasça com eles.

Os cães, além de nascerem com a habilidade, podem aperfeiçoar à medida que mantém o contacto com seres humanos, pelo que um cão que viva com pessoas desde bebé, terá em adulto uma capacidade superior de ler a mente dos seus donos, do que um cão que, por algum motivo, como o abandono ou o nascimento na rua, não conviva de perto com pessoas durante bastante tempo.

Segundo a investigação, “os resultados sugerem que a capacidade dos cães para seguir as ações humanas deriva de uma vontade de aceitar as pessoas como companheiros sociais, combinada com o condicionamento de seguir os gestos e as ações dos seres humanos e adquirir reforço. Os tipos de sinais, o contexto em que são apresentados e a experiência prévia, são todos importantes”.

Ler a nossa mente? Não exatamente

Podem os cães ler a nossa mente

Fotografia: Pete Bellis

O segredo dos cães parece estar nos nossos próprios olhos: os cães seguem os movimentos dos nossos olhos, que lhes dão sinais das nossas intenções.

Os bebés humanos também possuem esta habilidade, descrita na última edição da Current Biology. Esta revelação talvez explique porque motivo os donos costumam tratar os seus animais de estimação como se fossem crianças.

“Os cães estão recetivos à comunicação humana de uma forma que, anteriormente, estava atribuída apenas a bebés humanos de 6 meses de idade” explicou o co-autor de um novo estudo, Jozsef Topal, à Discovery News.

“Eles leem as nossas intenções de comunicação de uma forma pré-verbal, uma forma semelhante aos bebés” acrescentou Topal. A comunicação pré-verbal é a forma que os bebés nos interpretam e se exprimem sem usar as palavras, pois não aprendemos logo a falar.

Os investigadores afirmam que os atributos sociais dos cães atingem o nível de uma criança com dois anos de idade, uma vez que o único talento que lhes falta é a linguagem.

“Estes atributos dos cães ajudam a fortalecer a ligação cão-humano, que é atualmente única tendo em consideração as diferenças biológicas entre as duas espécies”.

Os cães foram os primeiros animais a serem domesticados e aparentemente sem benefícios diretos, como alimento ou pastoreio. A cognição social dos cães evoluiu durante milhares de anos, nos quais muitos dos atributos selvagens (como os lobos) foram transformados e adaptados pelos desafios de uma vida em conjunto com os seres humanos.

Topal e a sua equipa suspeitam que os cavalos e os gatos domésticos também sejam capazes de ler as nossas intenções, uma vez que vivem de forma próxima a nós há também muitos anos.

Num estudo à parte, publicado na Animal Behavior, os investigadores descobriram que os cães comunicam com as pessoas para pedir, mas não para informar. Seja como for, fazem-no de forma bastante concentrada e intensa.

Juliane Kaminski, líder deste segundo estudo, indicou que “fica demonstrado como os cães estão sintonizados de forma intencional com a comunicação humana e quão importante determinados sinais são para eles, de forma a perceber quando é que a comunicação é relevante e direcionada para eles”.

Topal pensa ser possível que os cães, por vezes, sejam até superiores aos seres humanos adultos no que diz respeito a interpretar intenções, uma vez que estão atentos a todos os sinais como odores, sons e outras pistas que possam indicar algo.

“Os cães aprendem facilmente a associar até os comportamentos inconscientes dos seus donos com as respetivas intenções. Desta forma, um cão adquire a habilidade de antecipar o comportamento seguinte do seu dono, e isto em determinados casos dá a sensação de que o cão acabou de ler a nossa mente” concluiu Topal.

Os cães compreendem-nos melhor que qualquer outro animal

Podem os cães ler a nossa mente

Fotografia: Maja_Larsson

Apesar dos chimpanzés serem os nossos parentes mais próximos, nenhum animal nos compreende tão bem como os cães.

É isto que sugere um novo estudo, publicado na última edição do PLoS One, ao concluir que os chimpanzés podem não ligar muito quando uma pessoa aponta para um objeto, mas os cães prestam atenção e sabem exatamente o que essa pessoa quer.

“Penso que estamos a olhar para uma adaptação muito especial dos cães, para serem sensíveis ás várias formas de comunicação dos seres humanos” disse a co-autora do estudo, Juliane Kaminski, psicóloga da Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, citado pela Discovery News. “Existem múltiplas evidências a sugerir que as pressões seletivas durante a domesticação alteraram os cães de tal modo, que eles ficaram perfeitamente adaptados ao seu novo nicho, que é a companhia humana”.

É mesmo possível que esta habilidade já nasça com os cães, uma vez que cachorros de apenas seis semanas e sem qualquer treino específico, já a possuem.

Para realizar este estudo, Kaminski e os seus colegas compararam quão bem os chimpanzés e os cães conseguem compreender o apontamento humano.

Uma pessoa apontou para um objeto visível que se encontrava fora do seu alcance, mas dentro do alcance do animal. Se um chimpanzé ou um cão pegassem no objeto, seriam recompensados com um petisco adequado (fruta para o chimpanzé e ração seca para o cão).

Os chimpanzés mostraram-se entusiasmados pela recompensa, mas ignoraram os gestos humanos. Os cães passaram o teste.

Os chimpanzés não compreenderam a intenção da pessoa, ou seja, não viram o apontamento como algo importante e por isso, decidiram ignorar esse gesto. “Sabemos que os chimpanzés têm uma compreensão muito flexível dos outros; sabem quando os outros podem ou não podem ver, quando os outros podem ou não vê-los a eles, etc” explicou Kaminski.

Não são, por isso, de alguma forma ignorantes, apenas não evoluíram a tendência de prestar atenção aos seres humanos, pois não necessitam disso no seu habitat natural.

Os próprios lobos não possuem esta habilidade: “Os lobos, mesmo quando criados no seio de um ambiente humano, não são flexíveis com a comunicação das pessoas como são os cães” disse.

E os gatos?

Investigações anteriores demonstraram que os gatos domésticos também prestam atenção ás pessoas e compreendem os gestos humanos. Kaminski, no entanto, mencionou que “os investigadores precisaram de os selecionar de entre mais de uma centena de gatos” sugerindo assim que apenas alguns gatos se colocam a par dos cães no que diz respeito a compreender as pessoas.

O estudo da compreensão da comunicação humana por parte dos animais será objeto de mais estudos.

Os cães sentem mesmo os nossos problemas

Podem os cães ler a nossa mente

Fotografia: Kol Tregaskes

Os cães talvez tenham maior empatia connosco do que qualquer outro animal, incluindo nós próprios. Confortar pessoas angustiadas, por exemplo, pode estar mesmo implementado no cérebro canino.

Um recente estudo, publicado na Animal Cognition, concluiu que os cães podem ser realmente os melhores amigos do Homem, sobretudo se a pessoa estiver de alguma forma angustiada. Essa pessoa angustiada nem precisa de ser alguém que o cão conheça previamente.

“Eu penso que existem bons motivos para suspeitar que os cães são mais sensíveis ás emoções humanas que qualquer outra espécie” disse a co-autora Deborah Custance à Discovery News.

“Nós domesticamos os cães por um longo período de tempo e fizemos uma criação seletiva para eles se comportarem como nossos companheiros. Assim, os cães que responderam de forma sensível ás nossas pistas emocionais tiveram maiores chances de serem os escolhidos como animais de estimação e de criação” concluiu.

Custance e a colega Jennifer Mayer, ambas do departamento de psicologia da University of London Goldsmiths College, expuseram 18 cães a quatro encontros separados de 20 segundos cada com humanos, entre os quais se encontravam tanto os donos como estranhos.

Numa das experiências, as pessoas emitiram sons a simular aflição e fizeram de conta que estavam a chorar. A maioria dos cães tentou confortar a pessoa, independentemente de ser o próprio dono ou um estranho.

Os cães atuaram de forma submissa, aninhando-se e lambendo as pessoas. As investigadoras afirmam que este comportamento é consistente com empatia, preocupação e tentativa de dar conforto.

Sobre o que irá dentro da cabeça de um cão, existe outro estudo recente, publicado na PLoS ONE, que demonstra que o cérebro dos cães reage assim que eles observam pessoas.

Neste caso, os investigadores treinaram os cães para responder a sinais gestuais que indicavam se iriam receber comida ou não. O núcleo caudado do cérebro dos cães, uma área associada à recompensa nos humanos, mostrou ativação quando os cães sabiam que iam receber comida.

“Estes resultados indicam que os cães prestam muita atenção aos gestos humanos” disse o líder da investigação Gregory Berns, diretor do Emory Center for Neuropolicy.

Apesar de este último estudo ter tido como amostra de recompensa a comida, Custance e Mayer pensam que os cães, ao longo de milhares de anos de domesticação, foram tantas vezes recompensados pela sua aproximação a pessoas angustiadas que isso pode ter ficado implementado nos seus cérebros.

O fenómeno pode, em certos casos, ter um elemento do subconsciente.

Consideremos o que acontece quando uma pessoa boceja e um cão está por perto. “Os cães bocejam contagiados pelo bocejo humano” disse Matthew Campbell, professor assistente do departamento de psicologia da universidade da Geórgia. “Nós selecionamos os cães para estar sintonizados connosco emocionalmente”.

Custance e Mayer querem, agora, determinar quanta empatia conseguem ter os lobos.

“Seria interessante ver como os lobos que têm sido criados junto às pessoas responderiam numa destas experiências. Será que eles se comportam como cães domésticos ou mostram menor resposta a um ser humano a chorar? Seria fascinante descobrir” concluiu Custance.

Em autocontrole, os cães também são como nós

Podem os cães ler a nossa mente

Fotografia: Edward

Nós e os cães temos mais um fator em comum: ambos ficamos aborrecidos e desgastados quando somos obrigados a exercer autocontrolo e depois tomamos decisões precipitadas.

“Quando as pessoas ficam esgotadas, são menos prestáveis, mais agressivas, jogam mais, etc” explicou a investigadora Holly Miller, autora de um novo estudo sobre o autocontrole dos cães publicado na Psychonomic Bulletin & Review, ao LiveScience.

“Aparentemente, essas consequências também têm raízes biológicas. Quando os cães estão desgastados, também ficam mais propensos a comportarem-se de forma precipitada e impulsiva” acrescentou.

Miller e os seus colegas já tinham descoberto anteriormente que os cães desistem mais depressa de resolver um quebra-cabeças quando anteriormente foram obrigados a estar quietos. Nos seres humanos passa-se o mesmo, pois desistimos mais depressa de resolver um problema quando estamos fatigados ou quando fomos obrigados a resistir a alguma tentação. A obrigação de ter autocontrole.

A diferença entre nós e os cães no que diz respeito a esta impulsividade e risco, é que nós temos a capacidade de planear com antecedência e reconhecer os nossos pontos fracos, evitando assim alguns comportamentos que nos poderiam prejudicar.

No estudo realizado por Miller e os seus colegas, os cães desgastados por terem sido obrigados a estar quietos, aproximaram-se de um cão agressivo como se não houvesse qualquer risco, enquanto que os cães que não tinham sido obrigados a exercer autocontrole, se mantinham afastados dele.

Segundo Miller, os donos de cães precisam ter atenção aos impulsos reprimidos dos seus animais e as possíveis consequências. Por exemplo, um cão que seja obrigado a controlar-se perante crianças a fazer barulho o dia todo, podem chegar a um limite e, impulsivamente, morder. Cabe aos donos reconhecer que os cães, tal como as pessoas, precisam de pausas e de descanso, bem como de poder exercer o seu comportamento natural.

“Em média, os cães familiares vivem uma vida precária. Se eles inibem o seu comportamento natural (ladrar, urinar em casa, roer, etc), podem ficar a viver em casa, se não o inibem, vão parar aos canis…” concluiu Miller.

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