Cães: As Velhas Dúvidas dos Jovens Donos

Cães: velhas dúvidas, jovens donos

Fotografia: homedesignfordogs.com

Quantas vezes já vimos as mesmas questões colocadas por novos donos, cuja experiência com cães é nula ou escassa? Decidimos no Mundo dos Animais escrever este artigo de modo a tentar esclarecer e ajudar quem eventualmente saiba um pouco menos que nós.

É usual, quando adoptamos um cachorrinho ou um cão adulto, surgirem questões que não nos lembrámos até ao momento da adopção.

Antes de nos decidirmos pela integração de um novo elemento no agregado familiar, devemos pensar em qual será o animal ideal para fazer parte da nossa vida bem como nas condições que lhe podemos oferecer, de modo a integrar o animal sem consequências nefastas para a rotina estabelecida na casa.

Um cão não deverá ser adoptado se o seu tratamento, passeios e férias forem considerados um fardo e não um prazer.

Outro ponto a ter em conta é a raça (ou falta dela), já que existem cães, que por características comportamentais da raça, se adaptam melhor ao nosso estilo de vida.

No entanto, sendo o cão o animal de estimação mais adaptável que conhecemos, um cão SRD (sem raça definida) pode perfeitamente preencher as nossas necessidades e corresponder ao que esperamos dele.

No caso de escolher um cão com raça definida, não deve olhar apenas à sua morfologia, mas considerar os traços gerais de personalidade da raça.

Para garantir a manutenção do estalão da raça, deve procurar um bom criador, através da solicitação da lista de criadores da raça ao Clube Português de Canicultura (C.P.C.), tendo sempre em atenção que a análise da lista deve ser o princípio da escolha do “cãopanheiro” ideal e não o fim. Deve visitar vários criadores da lista, observar em que condições os animais são mantidos e solicitar os exames de despiste das doenças mais frequentes na raça (dos progenitores da ninhada, claro).

Não olhe para o cachorro em primeiro lugar, dê primazia à observação do ambiente e do criador.

Outro dos itens que devemos ter em conta é a idade do animal, pois se um cachorro é muito mais engraçado, com o seu tamanho e disparates, também requer muito mais trabalho e empenho para ensinar.

Um cão adulto, sem problemas comportamentais, adaptar-se-à na perfeição à sua nova casa. Mas atenção, nem um cão adulto, nem um cachorro, se escolhem por ser bonito. Deve, sim, visitar e interagir com o cão antes de adoptar para que possa verificar se é mesmo esse que pretende. Um cão é um animal para a vida e nunca se deve tomar esta decisão de ânimo leve.

Por último, nesta fase do artigo, o sexo do novo habitante. Se por um lado as fêmeas podem ter vários problemas relativos ao sexo, como gravidez psicológica, cio e gravidez, os machos, por sua vez, têm tendência à marcação de território e fuga (por causa dos cios das cadelas).

Quanto custa ter um cão?

Nota: os preços referidos neste artigo poderão não estar atualizados no momento em que o estiver a ler. Utilize-os apenas como referência.

Quanto custa ter um cão?

Comprado, oferecido, adoptado, todo o cão tem as suas necessidades.

Para além do empenho e carinho do dono, tem necessidade de alojamento, de uma boa alimentação, assistência veterinária, treino, hotel para quando nos ausentamos e não temos com quem os deixar, banhos, tosquias (algumas raças), produtos e material de grooming, brinquedos, ossos, o seu próprio enxoval e um sem número que outras coisas que vão surgindo ao longo da sua vida.

Durante o primeiro ano do cachorro, as despesas são maiores pois tem mais idas ao veterinário, para completar o programa de vacinação e desparasitação. Caso seja um cão de raça, deverá transferir o L.O.P. (registo no Livro Português de Origens, documento que certifica a raça do seu cão) para seu nome junto do C.P.C., o que fica em cerca de 18 euros .

A alimentação, caso opte por ração seca, deve ser equilibrada, de uma gama especial para o seu tamanho e idade, com todos os ingredientes necessários e devidamente suplementada de forma a proporcionar um bom desenvolvimento do cão e para evitar problemas futuros. Essas gamas, consideradas especiais, normalmente são mais caras do que as normais e poderão ficar entre os 55 e os 70 euros.

O enxoval do cão, ou seja, casota (caso fique ao ar livre), cama, mantas, toalhas, coleira ou peitoral, trela, primeiros brinquedos, ossos apropriados para cachorros, pode encontrar no mercado a preços muito variados.

Tenha em conta que todo o cachorro rói. Pode optar por materiais mais resistentes, que durarão mais tempo ou por materiais mais baratos, que facilmente se substituem. Conte também com alguns estragos “domésticos”, como “ataque” a sapatos, roupas, mobiliário e uma panóplia de outras coisas que nunca nos passará pela cabeça que eles possam roer…

Depois da vacina da raiva e até aos 6 meses, deve inscrevê-lo na Câmara ou Junta de Freguesia da sua área. Faz o registo do seu cão – na minha Junta paga-se por um cão de porte médio/grande, que seja considerado de companhia (Cat. A), 4,40 euros, mais o licenciamento (anual), 10 euros.

Depois deste investimento inicial devemos considerar outras despesas:

  • Ração de boa qualidade: 50 a 60 euros por cada saco de 15 quilos;
  • Veterinário: 25 euros por consulta (mínimo);
  • Vacinação anual (consulta + vacinas): 44 euros;
  • Desparasitação interna (trimestral): 5,50 euros por comprimido por 10 quilos de cão;
  • Desparasitação externa (trimestral no caso das coleiras*): 18 euros;
  • Treino: 300 euros (o mais básico);
  • Hotel: 15 euros por dia (no mínimo);
  • Tosquia: 35 euros;
  • Banho: 35 euros.

*Coleira Scalibor que nos meses mais quentes reforço com Advantix ou Pulvex.

Caso opte por castrar/esterilizar a sua cadela: 200€ (preço médio).

Exames de despiste de doenças hereditárias, no meu caso, a displasia aos 18 meses do cão – 60 euros – mais a homologação pela APMVEAC – 30 euros, ou seja no total 90 euros.

Outras despesas comuns num veterinário:

  • Ecografia: 50 euros;
  • Hemograma: 14 euros;
  • Análises bioquímicas: 8 euros por unidade (o habitual é serem cinco unidades, portanto 40 euros);
  • Despiste de Leishmaniose: 35 euros;
  • Cirurgias: Facilmente ultrapassam os 500 euros.

Primeiros passos para educar um cão

Primeiros passos para educar o cão

Fotografia: lifeinthedoglane.com

Pouco tempo antes da chegada do novo cão a casa e independentemente da idade do mesmo, devem concertar atitudes relativas à educação do cão.

Devem ser criadas regras e cumpri-las desde o primeiro dia, tanto no que diz respeito às horas e locais de dormida, como em relação à reacção às atitudes do animal. Deve ter-se em consideração que, apesar de ser muito engraçado um cachorro de quilo e meio saltar para cima de nós e roubar uma lambidela, já não é tão agradável, quando ao chegar à idade adulta com um peso considerável e tiver a mesma atitude. Com isto quer-se explicar que não devemos deixar um cachorro em pequeno fazer o que não queremos que ele faça em crescido (é muito mais simples educar do que retirar vícios).

Dou ainda como exemplos habituais o dormir na nossa cama, comer à mesa ou dormir no espaço dos donos. Devemos ser intransigentes quanto às regras desde o primeiro momento, bem como recompensar com festas ou petiscos próprios, sempre que o cachorro cumpra. Não desespere, o treino é moroso e complicado, mas se nos mantivermos firmes, e também muito compensador.

Há que ter em conta que um cachorro de tenra idade jamais poderá estar muitas horas sem expulsar necessidades fisiológicas, logo terá de ter um local destinado para esse efeito.

Um dos treinos iniciais que causa mais estranheza nos novos donos é o treino de WC, no entanto é um treino relativamente fácil, embora tenhamos de ser persistentes.

Veterinário

Uma das principais preocupações do novo dono deve ser a escolha do veterinário assistente (seja exigente), bem como o registo de um número de urgências veterinárias.

De seguida, deve ser feita uma consulta de carácter geral, onde é avaliada a condição física do animal e se procede à desparasitação (se já não tiver sido feita) e posterior vacinação.

O médico veterinário assistente é o técnico indicado para responder às diversas questões acerca deste assunto. Não deve ouvir “diagonalmente” e, se necessário, deve registar datas e outros assuntos fulcrais sobre os cuidados de saúde essenciais ao seu cão, especialmente no que diz respeito à desparasitação interna e externa como meio de prevenir a infestação da casa (e consequentemente do ser humano).

A única vacina obrigatória é a da raiva, no entanto revela-se insuficiente para combater e proteger o cão das doenças mais frequentes e mortais.

Cuidados básicos de saúde

Cuidados básicos de saúde

Quanto aos cuidados básicos de saúde, devemos ter em conta tudo o que já foi mencionado anteriormente, bem como tomar atenção a alterações do comportamento dos nossos animais. Um cachorro brincalhão e activo que de repente fica apático e sem energia, evidencia como é óbvio, problemas de saúde.

Existem diversos sinais de que algo não está bem aos quais devemos prestar especial atenção, entre eles:

  • Alterações significativas na ingestão de alimentos ou água;
  • Substância fecal com sangue ao muco;
  • Diarreias;
  • Obstipação;
  • Nariz seco (o que evidencia um aumento de temperatura);
  • Mau cheiro nas orelhas e/ou boca;
  • Olhos vermelhos e/ou embaciados;
  • Palidez das mucosas;
  • Respiração ou batimentos cardíacos anormais ( movimentos respiratórios –> 10 a 30 por minuto e batimentos cardíacos –> 70 a 160 por minuto).

Devemos também conhecer algumas das doenças que possam afectar o nosso cão para mais facilmente detectar estados de saúde depressivos, como:

Higiene canina e grooming

Higiene canina e grooming

Fotografia: petexpo.sg

Quanto à higiene básica do seu cão, é necessário habituá-lo ao grooming mais indicado para o tipo de cão.

O manuseio das orelhas para limpeza, limpeza ocular, corte de unhas, escovagem, banho, secador, observação dos dentes, e outros é essencial, de modo a criar uma atmosfera agradável, evitando o sofrimento (do animal e do dono) durante os tratamento básico.

Muitas vezes ouvimos os donos queixarem-se da perca excessiva de pêlos dos animais. Quando o animal fica com zonas sem pêlo, pode não se tratar apenas se queda e muda natural, muitas vezes esta queda pode dever-se a desenvolvimento de alergias tanto alimentares, como ambientais ou mesmo parasitárias, fazendo com que o cão se coce.

Pode também ter como causa a má alimentação (que além de queda de pelo, provoca má qualidade no manto), assim como o stress ou momentos de depressão imunitária também podem provocar queda excessiva do pelo.

Mas o que será a queda excessiva do pelo? Se para muitos, três pêlos são pêlos a mais, para outros não é bem assim. Consideramos queda excessiva de pelo quando se formam zonas de alopecia.

Alimentação

No que concerne à alimentação do seu cão, esta deve ser suficiente e adequada à idade do animal e, ao contrário do que muitas pessoas pensam, temos a convicção que não deve ser frequentemente alterada, de modo a evitar desarranjos intestinais. Preferimos as boas rações existente no mercado, que nos oferecem uma alimentação adequada, higiénica e rápida.

Perguntas frequentes sobre a alimentação do cão:

  1. Alimentos para gatos, fazem mal?
    A alimentação própria para gatos é muito mais rica em proteína do que a indicada para cães, o que a médio prazo pode causar problemas renais.
  2. Leite de vaca, posso dar?
    O leite de vaca é rico em lactose, o que causa problemas de digestão, já que os cães são intolerantes à lactose. Quanto mais velho for o cão, mais danos causa.
  3. Suplementos vitamínicos, tenho de dar?
    Normalmente, as alimentações equilibradas fornecem todos os nutrientes necessários. Tão perigosa é a falta como o excesso, logo há que ter conta, peso e medida na utilização de suplementos alimentares.
  4. O meu cão adora chocolate, faz mal?
    Sim. O chocolate, principalmente o negro, tem uma substância chamada trebomina que é altamente tóxica. Em caso algum deverá ser fornecido como petisco ou alimento. Conheça mais alimentos perigosos para cães que deve evitar.

Claro que existem outras ideologias no que diz respeito à alimentação, tal como a alimentação caseira ou a BARF (Bones and raw food, em português ossos e comida crua), que podem ou não ser discutíveis. De qualquer modo, devemos obter bastante informação antes de nos decidirmos pela dieta ideal.

A quantidade de refeições diárias depende essencialmente da idade do animal, ou seja, quanto mais novo for o cão, maior número de refeições deve fazer, isto é, dividir a dose diária em pequenas porções. Por exemplo, um cachorro com oito semanas deve consumir quatro a cinco refeições diárias.

Espaço e distracções

Espaço e distrações

Fotografia: Wikimedia Commons

Em termos de espaço e distracções, tanto o animal adulto como o cachorro devem ter o seu.

Deve ter o seu treino diário com dose de atenção e os seus próprios brinquedos que estimulem o seu desenvolvimento. A cama deve ser o seu local de segurança e que mantenha o cão calmo quando necessário.

Relativamente aos brinquedos, estes são uma parte importante do “enxoval” do cão, pois evitam que as pernas da mesa, comandos de televisão e outros itens se tornem nos seu companheiros de brincadeira favoritos. Existem brinquedos adequados a todos os cães, assim como petiscos para limpar os dentes. Dentro dos brinquedos disponíveis no mercado, devemos ser selectivos, escolhendo os que não sejam passíveis de serem roídos e ingeridos acidentalmente.

Regras gerais de comportamento

No que diz respeito a regras gerais de comportamento, no âmbito das sessões de brincadeira, não deve deixar que o cachorro morda, especialmente se for por disputa de algum objecto, pois este comportamento pode ter consequências nefastas ao chegar à idade adulta, no entanto, se permitir este tipo de brincadeiras prepare-se para “ganhar”, pois o cachorro tem de perceber quem é o líder e não deve nunca questionar essa liderança.

Os jogos e brincadeiras são um modo dos cachorros se desenvolverem física e mentalmente, assim como criarem laços e noções hierárquicas.

Tendo em atenção que os jogos e os brinquedos são um excelente meio de aprendizagem, é necessário ter em conta que todos os elementos da casa devem ter a mesma atitude face ao mesmo comportamento, evitando assim os vícios e a confusão na cabeça do cão. Como já referimos anteriormente, as atitudes devem ser concertadas.

Socialização do cão

Socialização do cão

No que se refere à socialização, é importante que, após o plano de vacinação cumprido, o cão tenha contacto com pessoas e com outros da mesma espécie (e com de outras espécies).

Há que ter em atenção que nem sempre o encontro é agradável e a amizade poderá não ser “automática”.

Para este procedimentos, o uso de trela e coleira é essencial, pois permite que, facilmente, o dono controle o cão/cachorro evitando cenas desagradáveis.

O uso de trela e coleira é obrigatório por lei, é mais seguro para o nosso animal e (civicamente) evita que o nosso cão incomode quem não pretende ter contacto com cães. O animal é da nossa responsabilidade, e sendo um luxo nosso, não tem de incomodar outros animais ou pessoas alheios às nossas decisões.

Este artigo foi publicado na Revista nº 7 do Mundo dos Animais, em Agosto de 2008, com o título “Velhas dúvidas, jovens donos”.

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