Animais em Extinção: Os Números Estão Corretos?

Os números das espécies em extinção são corretos?

Em 1992, na Cimeira da Terra no Rio de Janeiro, nasceu a Convenção para a Diversidade Biológica, atualmente assinada por 193 países, para combater a extinção da biodiversidade do nosso planeta.

O website da Convenção alerta-nos, entre outras coisas, para o seguinte:

  • Estamos a viver o maior período de extinções desde o desaparecimento dos dinossauros;
  • Extinguem-se três espécies por hora;
  • Extinguem-se cerca de 150 espécies por dia.

Estes dados são absolutamente alarmantes, mas até que ponto estarão corretos?

(Vê também: 20% de todos os mamíferos em risco de extinção)

Para começar, podemos detetar com facilidade um erro matemático entre a segunda e a terceira afirmações. Se desaparecem três espécies por hora, multiplicando pelas 24 horas do dia, teremos então o desaparecimento de 72 espécies e não 150 como afirma a convenção. Apesar de ser menos de metade, a questão nem é verdadeiramente esta, pois se for verdade que desaparecem 72 espécies por dia, tal facto continua a ser de uma gravidade extrema. A questão aqui é, como são gerados estes números? São precisos?

Aquilo que sabemos, é que não sabemos quantas espécies vivem no nosso planeta. Não as conhecemos todas sequer. Quase todos os dias podemos ler notícias de novas espécies descobertas e sabemos também que há variadíssimos locais que ainda estão por explorar – o fundo dos oceanos por exemplo, que James Cameron foi visitar recentemente. Se não conhecemos todas as espécies, é possível que algumas possam desaparecer antes de as descobrirmos e nunca falaremos delas.

Orcaella brevirostrisO número de espécies vivas nem sequer é um número consensual ou que tenha uma margem de erro identificada. Segundo explicou Braulio Dias, da Convenção, citado pela BBC, as estimativas mais recentes conseguem variar de 2 milhões a 30 milhões e até a 100 milhões. Com uma diferença tão grande é possível calcular o número ou a percentagem de espécies ameaçadas de extinção ou mesmo extintas?

É evidente que não. A única coisa que podemos contabilizar, é o número de espécies que sabemos que se extinguiram. A IUCN fez essa contagem e identificou 801 animais e plantas que se extinguiram no planeta desde o ano 1500. Bom, se é realmente verdade que se extinguem 150 (ou mesmo 72) espécies por dia, não era suposto termos mais do que 801 extinções em 512 anos?

(Vê também: A última esperança nos mais pequenos)

O modelo atual para estimar as extinções faz uma relação entre o número de espécies e o habitat onde vivem. De uma forma simples, quanto maior o habitat, maior o número de espécies. Em contrapartida, perante uma diminuição de habitat, o modelo dá como adquirido que as espécies diminuem. O professor Stephen Hubbell, da Universidade da Califórnia, explicou que se aumentarmos um determinado habitat por, digamos, 5 hectares, e os cálculos sugerirem que são esperadas ali 5 novas espécies nesses novos 5 hectares, é errado assumir que retirar esses 5 hectares vai extinguir as 5 espécies. Por este motivo, os números podem estar exagerados em mais do dobro.

O problema do cálculo não é apenas esse. Se quisermos calcular o verdadeiro impacto do ser humano na extinção de animais e plantas, temos primeiro de calcular quantas espécies se teriam extinto mesmo sem a nossa presença, tal como tem aconteceu em toda a história da vida na Terra muito antes de cá “chegarmos”. Este cálculo é extremamente difícil de fazer, pois houve períodos na história da Terra com níveis de extinções díspares, como a extinção dos dinossauros, sem qualquer interferência humana – que terá começado há cerca de 40 mil anos.

Lynx pardinusApesar de os números serem pouco precisos e, na verdade, não termos nenhum método capaz de fazer um cálculo mais realista, é inegável que o ser humano está diariamente a contribuir para a extinção de espécies, seja através da caça, do contrabando, da destruição das florestas, da poluição, alterações climáticas, entre outros.

De notar também que quando falamos em extinção de espécies, quase só nos vem à mente os animais mais carismáticos, como elefantes ou tigres, mas estamo-nos a esquecer dos seres microscópicos como as bactérias. Na verdade e em proporção, as espécies que vemos à vista desarmada são apenas uma pequena percentagem dos seres vivos que habitam no nosso mundo.

(Vê também: Golfinho mais pequeno do mundo: só restam 55…)

Ainda voltando aos animais que sabemos que se extinguiram, um dado curioso nos dados da IUCN: desde o ano 2000, apenas um animal foi comprovadamente dado como extinto. Era um molusco.

Mais informação (em inglês): Biodiversity loss: How accurate are the numbers – BBC

Tópicos: Animais Extintos Recentemente, Conservação, Animais Selvagens