Quando a Descoberta de Novas Espécies é um Problema

Tritão-da-california (Taricha torosa)

Tritão-da-california (Taricha torosa)
Fotografia: Connor Long / via Wikimedia Commons

A descoberta de uma nova espécie pode ser um momento decisivo na carreira de um biólogo, mas existe o reverso da medalha: a divulgação dessas descobertas está a expor animais raros e vulneráveis, ao lado negro do comércio de animais, com consequências que passam muitas vezes pela extinção de espécies.

Chegamos então a um dilema: devem os biólogos divulgar as suas descobertas de novos animais? Ou devem escondê-lo do mundo e assim proteger os animais em causa?

Em 1999, o herpetologista Bryan Stuart, a trabalhar no norte de Laos, cruzou-se com um tritão visualmente atrativo e que nunca tinha visto anteriormente. O animal tinha uma aparência pré-histórica como os fósseis vivos, com pele espessa e enrugada, bem como manchas amarelas em toda a volta.

Ele viu-o num recipiente de álcool que um colega tinha comprado num casamento de uma parte remota do país – o veneno da pele do tritão estava a ser usado para fazer uma bebida com propriedades medicinais especiais, basicamente para brindar os noivos.

Stuart foi então à procura daquele animal em ambiente selvagem e três anos depois, publicou um artigo no Journal of Herpetology, anunciando a descoberta de uma nova espécie de tritão, Laotriton laoensis.

“Quando vê um destes animais na natureza e na sua mão pela primeira vez e reconhece que é absolutamente única, é como se tivesse acabado de descobrir um tesouro” disse Stuart, citado pela BBC.

Mas a sua alegria pela descoberta transformou-se num terror, quando descobriu que, ao divulgar a descoberta da nova espécie, atraiu as atenções dos contrabandistas de anfíbios em todo o mundo. Em várias páginas de Internet na Alemanha, Japão e outros países, começaram a aparecer fotografias de exemplares deste novo tritão, prontos a ser comprados.

O artigo de Stuart foi mesmo usado como mapa para localizar os animais e emergiu uma rede de tráfico entre Laos e o Oeste.

“A mentalidade destes contrabandistas é ir ao local, conseguir o maior número de animais que puderem, o mais rápido que conseguirem e ganhar o máximo de dinheiro possível” explicou Stuart. “O pior é que estes contrabandistas negociaram com os habitantes locais e puseram-nos a eles a capturar os animais”. Os habitantes recebiam menos de $1 (cerca de 0,75€) por cada tritão e os contrabandistas vendiam-nos a mais de $200 (cerca de 150€) aos colecionadores.

Tratando-se de um tritão que apenas existe em Laos e que só é encontrado em pequenas áreas do norte do país, a população destes animais caiu drasticamente. Em 2008, seis anos depois da publicação da descoberta por parte de Stuart, um biólogo da National University of Laos, Somphouthone Phimmachak, comprovou que o tritão estava muito próximo de ser extinto. O seu trabalho fez com que esta espécie garantisse proteção oficial por parte das autoridades, tornando-se assim ilegal a sua comercialização.

A divulgação de novos animais pode levá-los à extinção

Esta não foi a primeira vez que uma espécie quase se extinguiu depois de ter sido divulgada: “Uma tartaruga nativa da pequena ilha de Roti, na Indonésia, foi perseguida e caçada de uma forma tão feroz que, hoje, está praticamente extinta na natureza” disse Stuart. Um raro gecko do sudeste da China foi totalmente removido do seu habitat natural pelos contrabandistas, que conseguiam vendê-las a preços como $2.000 (cerca de 1.500€) cada.

Jason Lee Brown, herpetologista que estuda rãs venenosas no Peru desde 2003, descreve três incidentes separados onde as descobertas colocaram as respetivas espécies sob ameaça.

Em 2006, publicou uma imagem de uma nova espécie de rã venenosa, a Ranitomeya benedicta, na Internet. Quase imediatamente, apareceu em feiras europeias e norte americanas. Dois anos depois, aconteceu novamente quando publicou a descrição de uma segunda nova espécie, bem como a redescoberta de uma terceira espécie que se julgava estar extinta.

Em 2010, Brown voltou à zona do Peru onde tinha descoberto a primeira espécie e descobriu que os habitantes locais, estavam a cortar as copas das árvores onde aquelas rãs viviam. “Praticamente abandonei o meu trabalho” disse Brown.

Quanto mais raro é um animal, mais atrativo se torna

De acordo com vários conservacionistas, o estatuto de espécie ameaçada de extinção, originalmente criado para proteger as espécies em risco de desaparecerem, criou novos problemas. Chris Shepherd, da Traffic, uma organização que monitoriza o comércio de animais selvagens, acredita que a “etiqueta” de espécie rara aumenta o preço oferecido por esses animais no mercado negro.

Ele visita regularmente feiras de venda de animais selvagens em Jacarta e Banguecoque, onde vê que os comerciantes anunciam o facto — de forma maliciosa — de que aqueles animais estão em perigo de extinção e a sua venda é ilegal, obtendo com isso maior interesse (o fruto proibido…) e um valor mais alto por cada exemplar.

A Traffic está a trabalhar com as autoridades locais para tentar combater o comércio ilegal de animais. Mas infelizmente, é um assunto de baixa prioridade nas agendas políticas de países como Laos, Indonésia, Tailândia ou Peru.

Jason Lee Brown acredita que a responsabilidade é dos países desenvolvidos que alimentam este mercado, e não dos países em desenvolvimento de onde estes animais são provenientes, que já têm demasiados problemas com que lidar e não possuem infraestruturas capazes.

Os caçadores no Peru, cuja maioria vive com $1,25 (cerca de 0,94€) por dia, conseguem até $2 (cerca de 1,50€) por cada rã. Os colecionadores na Europa e nos EUA vão pagar até $1.000 (cerca de 757€) por cada par, fazendo deste contrabando um negócio muito, muito lucrativo.

Soluções?

Na opinião de algumas pessoas, a única solução viável para acabar com o contrabando de animais e consequente declínio dos mesmos, é a criação desses animais em cativeiro.

Mark Pepper, que trabalhou com Brown nos projetos de conservação das rãs no Peru, tem um negócio ético e legal de criação de rãs — embora encontre comerciantes ilegais a comercializarem espécies com as quais nunca trabalhou, mas sob o seu nome.

Ele acredita que apesar do efeito que pode ser devastador, o contrabando de animais não é a principal ameaça à sobrevivência das espécies. Segundo Pepper, a grande ameaça, nomeadamente aos anfíbios, reside na destruição dos seus habitats naturais.

Ainda assim, a causa-efeito da divulgação da descoberta de novas espécies de animais é clara e alguns cientistas já optaram por manter as suas descobertas longe do conhecimento do público. No ano passado, o herpetologista Indraneil Das redescobriu um sapo que se pensava ser extinto e, para o proteger, escondeu a sua localização especifica.

De forma semelhante e depois da má experiência com a descoberta do tritão em Laos, Bryan Stuart descobriu uma nova espécie de serpente venenosa e também ocultou a sua localização, apesar de se ter sentido desconfortável ao agir dessa forma. Stuart acredita que os cientistas precisam de partilhar o seu conhecimento integral sobre as espécies para poderem cooperar e que o público precisa de preservar as espécies e os seus habitats.

Tópicos: Conservação, Animais Selvagens