Quanto Custa a Vida de uma Baleia?

Quanto custa a vida de uma baleia?

Fotografia: Gillfoto / via Wikimedia Commons

Os caçadores poderiam pagar o direito de matar uma baleia. E os conservacionistas poderiam bater esse valor para a salvar. Esta é a proposta controversa de dois cientistas norte-americanos, com vista a por fim à luta infindável entre baleeiros e ambientalistas nos mares.

Afinal, quanto custa a vida de uma baleia?

A ideia foi descrita num comentário publicado na edição desta semana da revista Nature. Todos os países representados na Comissão Baleeira Internacional (CBI), independentemente de serem a favor ou contra a caça das baleias, teriam direito a uma determinada quota de caça, com três hipóteses para a sua utilização: serem utilizadas, serem guardadas para o ano seguinte ou então anuladas.

As quotas poderiam ser negociadas, ou seja, os países que querem caçar baleias podem tentar comprar licenças de outros países; assim como os países contra a caça das baleias e as organizações conservacionistas poderiam comprar licenças e garantir que as baleias dessas respetivas quotas não seriam caçadas.

“O número de baleias caçadas dependeria de quem possui as licenças” afirmam os cientistas Christopher Costello e Steven Gaines, da Universidade da Califórnia.

“O preço que emergiria no mercado iria refletir tanto a disponibilidade de um [país] baleeiro em pagar pelo abate de uma baleia, como a disponibilidade de um conservacionista em pagar para a salvar”, explicou Christopher Costello ao Público.

Os dois investigadores defendem que a caça ás baleias iria diminuir com esta hipótese.

Segundo as contas apresentadas no artigo, a caça à baleia gera 31 milhões de dólares anuais, e os conservacionistas gastam à volta de 25 milhões de dólares em igual período em campanhas de sensibilização e ações diretas contra os baleeiros. Se estas organizações investissem este mesmo dinheiro, juntamente com o investimentos dos países que se opõem à caça, rapidamente se perfaziam os 31 milhões de euros, compensando os lucros da indústria baleeira sem ter de matar um único animal.

“Esta é a essência da ideia. A nossa abordagem poderia, possivelmente, conduzir a caça a zero” acrescentou Christopher Costello.

Será tudo uma questão de dinheiro?

Segundo a bióloga da Greenpeace, Leandra Gonçalves, a proposta de comercializar o direito de matar ou não uma baleia, não faz qualquer sentido:

“Não é este o papel das organizações ambientais. A biodiversidade precisa ser preservada, não pelo valor de mercado, mas pelo valor que ela tem na natureza” disse, comparando ainda duas atividades económicas distintas relacionadas com as baleias: “Enquanto a caça às baleias gera 30 milhões de dólares por ano, o turismo de observação das mesmas movimenta dois mil milhões de dólares por ano. É nisto que se precisa pensar.”.

O biólogo Jorge Palmeirim, que representa Portugal nas reuniões no CBI, também se opõe à ideia:

“Alguém pensa que os japoneses caçam baleias por dinheiro?” questionou, revelando depois que o Japão tem prejuízo com a actividade baleeira, mantida para defender a reabertura da caça comercial – recorde-se que, teoricamente, o Japão caça as baleias para finalidades científicas. “Isto é uma ilusão. O que está em causa não é uma questão de lucro” concluiu Palmeirim.

Hal Whitehead, biólogo da Universidade de Dalhousie, também reagiu em declarações reproduzidas no Wired:

“Os autores partem de uma premissa errada. A divisão entre os que são a favor e os que são contra não é uma questão ambiental, mas sim filosófica: as baleias são ‘pessoas’ que devem ser tratadas como tal, ou são recursos? Comercializar recursos é aceitável, comercializar pessoas é escravidão, neste caso ainda pior pois termina em assassinato”.

Costello exemplificou o que defende no seu projeto:

“Tive um respeitado ambientalista que me perguntou ‘quanto custaria a compra de mil baleias para as tirar do mercado?’ e eu respondi, ‘é difícil saber, mas digamos que seriam uns 20 milhões de dólares.’. Ele disse-me, ‘posso arranjar esse dinheiro já amanhã.'” explicou, acrescentando que “os lucros dos baleeiros não são maiores do que os recursos financeiros dos ambientalistas”.

“Os ambientalistas dizem que não querem colocar uma etiqueta de preço numa baleia, mas neste momento, o preço de uma baleia é zero” concluiu o investigador.

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