O Tigre-da-Tasmânia Estava Inocente

Tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus)

Tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus) fotografado em 1904
Fotografia: E.J. Keller Baker / via Wikimedia Commons

Responsabilizado e perseguido até à extinção pela morte das ovelhas, não tinha sequer força para matar uma ovelha adulta e alimentava-se simplesmente de pequenos mamíferos. Desapareceu em 1936.

Poucas pessoas hoje vivas terão tido o privilégio de observar um tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus) ao vivo.

Autênticos fósseis vivos surgidos há mais de 4 milhões de anos atrás, foram os últimos sobreviventes da família Thylacinidae com cerca de 30 milhões de anos. Os tigres-da-tasmânia foram pintados em várias cavernas datadas de 1.000 A.C, na Austrália.

Os tigres-da-tasmânia eram carnívoros marsupiais, portanto não relacionados com mamíferos placentários como os verdadeiros tigres, mas sim parentes de animais como o diabo-da-tasmânia ou o numbat.

Uma das particularidades destes marsupiais é que tanto o macho como a fêmea possuíam a bolsa marsupial. No caso do macho, a bolsa servia para proteger os órgãos sexuais externos enquanto corria pelo mato denso.

No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, os tigres-da-tasmânia tiveram a cabeça a prémio. Literalmente. Acusados de matar as ovelhas e de prejudicar a economia australiana, o governo anunciou recompensas monetárias por cada tigre morto, com preços variáveis entre adultos e bebés.

Mais de 2 mil recompensas foram pagas e suspeita-se que muitos outros foram mortos sem que o prémio fosse reclamado.

A juntar a esta perseguição, os tigers-da-tasmânia começavam a perder a competição para os cães selvagens introduzidos e os seus habitats foram também afectados pela exploração humana.

No final da década de 1920, os tigres-da-tasmânia eram já extremamente raros. Os esforços tardios para salvar a espécie foram em vão e, em Setembro de 1936, morreu aquele que se julga ter sido o último tigre-da-tasmânia, em cativeiro. O plano oficial do governo para proteger a espécie só foi anunciado 59 dias antes da morte do último exemplar conhecido.

Investigações posteriores indicaram uma forte possibilidade de alguns tigres-da-tasmânia terem sobrevivido na natureza até à década de 1960, baseados em pegadas, marcas e vocalizações possivelmente pertencentes ao animal, no entanto, nada foi confirmado.

A extinção oficial não poderia ser declarada até 50 anos depois do último avistamento confirmado e assim, a IUCN declarou-os oficialmente extintos em 1982 e o governo da Tasmânia em 1986.

Não era o tigre que matava as ovelhas

Tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus)

Fotografia: via Australian Geographic

Um novo estudo revela que os tigres-da-tasmânia não tinham mandíbulas suficientemente fortes para segurar uma ovelha adulta, muito menos matá-la.

Publicado no Journal of Zoology, o estudo mostra que outro dos factores que podem ter contribuído para a extinção destes animais, foi a escassez de presas.

“Eles precisavam de caçar grandes quantidades de pequenos animais para sobreviver” explicou a líder da equipa de investigação, Marie Attard, na UNSW. “Bastavam pequenas alterações — como as que resultaram da forma como os europeus colonizaram a região — para reduzir as suas hipóteses de sobrevivência”.

“Foi-lhes dada uma reputação muito negativa, acusados de serem assassinos de ovelhas viciosos” referiu Attard.

A incapacidade dos tigres-da-tasmânia para caçar ovelhas foi explicada através de exames ao crânio do animal. “Quando um grande carnívoro — como um grande felino — quer atirar ao chão uma presa grande, tem de comprimir a garganta até este sufocar” explicou, acrescentando que “o tigre-da-tasmânia não tinha a capacidade para fazer isto”.

Os próprios dentes destes mal amados animais estavam preparados para cortar mas não para quebrar ossos.

“A perda terrível dos tigres-da-tasmânia significam uma destruição negligente e injustificada da nossa fauna e flora. É uma lembrança do que perdemos, e um aviso do que ainda vamos perder com outras espécies, se não intervirmos urgentemente” concluiu Attard.

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