Entrevista a Ana Rainho, Organização Ano do Morcego

Ana Rainho - Ano do Morcego

Ana Rainho (à esquerda, fotografia por Ana Margarida Baptista) | Morcego (à direita, fotografia por Ana Rainho)

Frases como “eu não os quero perto de mim, mas não lhes faço mal nenhum!”, e “até são fofinhos” ou “devia era haver mais para acabarem com estes mosquitos” são cada vez mais frequentes.
– Ana Rainho

Ecologia e conservação dos morcegos. São áreas que cativam Ana Rainho, aluna de doutoramento da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e que a levaram a fazer parte da organização do “Ano do Morcego 2011-2012”. Uma das muitas missões que esta iniciativa trouxe a Ana Rainho foram as publicações de curiosidades e outras informações de atividades na página do Facebook “Morcegos de Portugal” (entretanto desativada).

A par de muito outro trabalho, a investigadora confessa, em entrevista ao Mundo dos Animais, que, praticamente no final do biénio, os portugueses já estão mais sensibilizados para estes mamíferos perseguidos por ainda haver comparação com os vampiros e por serem criaturas da noite.

O Ano do Morcego faz parte de uma iniciativa conjunta da Convenção das Espécies Migratórias (UNEP) e do Acordo para a Conservação dos Morcegos na Europa (EUROBATS). Perto do encerrar de dois anos de atividades, o Mundo dos Animais faz, através desta entrevista, o balanço de todo este projeto.

Mundo dos Animais: Ano do morcego 2011-2012 – como foi organizado em Portugal?

Ana Rainho: O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), como entidade implementadora do EUROBATS em Portugal, assumiu a responsabilidade de divulgar e dinamizar esta campanha. Para o efeito foi criado um site com o objetivo de disponibilizar informação e ideias de atividades para todos os interessados, bem como divulgar os eventos a realizar.

Rapidamente surgiram grupos voluntários interessados em divulgar os morcegos em iniciativas diversas como passeios, palestras e atividades em família e, no final do primeiro ano, contabilizaram-se mais de 100 eventos com mais de 5.000 participantes em todo o país. Este tipo de atividades teve continuidade em 2012, tendo sido feito um investimento maior na divulgação da campanha junto das escolas, de forma a envolver um maior número de participantes nas ações de divulgação ambiental dirigidas para este grupo da fauna. A adesão das escolas foi surpreendente com particular relevância para as Eco-Escolas, tanto em número, como em diversidade de atividades.

Pela experiência que tem tido na sensibilização e divulgação dos morcegos, como são eles vistos atualmente pelos portugueses? Ainda há medo dos morcegos?

Ainda há, de facto, medo dos morcegos ou de doenças que estes possam transmitir, medo que resulta naturalmente do pouco conhecimento sobre estes animais. Mas esta situação tem vindo progressivamente a melhorar, embora talvez não uniformemente em todo o território nacional.

Constata-se, assim, que há um maior conhecimento sobre os problemas que os morcegos enfrentam, observando-se menos reações de clara repugnância pelos animais. Frases como “eu não os quero perto de mim, mas não lhes faço mal nenhum!”, e “até são fofinhos” ou “devia era haver mais para acabarem com estes mosquitos” são cada vez mais frequentes.

Que balanço faz do Ano do morcego 2011-2012?

O balanço que fazemos é muito positivo. O número de eventos realizados e a participação foi muito elevada, sendo mesmo referida pelo Secretário do EUROBATS como surpreendente, já que ultrapassa largamente o envolvimento observado em muitos outros países da Europa. Uma parte muito significativa desta divulgação resultou do trabalho voluntário de muitas pessoas, associações e escolas. O entusiasmo e voluntarismo com que desenvolveram estas atividades é de louvar e é a todas estas pessoas que ficamos a dever o sucesso deste biénio.

Ainda há incredulidade no facto de os morcegos não serem cegos e no facto de em Portugal existirem morcegos cor de laranja!
– Ana Rainho

Quais são as atividades relacionadas com os morcegos que as pessoas mais gostam de assistir e de participar?

As atividades que tiveram maior adesão durante os dois anos da campanha foram os passeios noturnos. Este evento consiste numa pequena introdução aos morcegos, permitindo aos participantes esclarecer as suas dúvidas, seguida de um percurso pedestre onde, com o auxílio de um detetor de ultrassons, é possível ouvir os sons emitidos pelos morcegos e mesmo frequentemente observar o comportamento dos animais enquanto capturam insetos.

Quais as informações e curiosidades sobre os morcegos que deixam a população mais perplexa?

O que parece ainda gerar alguma incredulidade é o facto de os morcegos não serem cegos, a existência de várias espécies no nosso país e o facto de os morcegos não serem todos pretos. Na realidade, existem em Portugal morcegos cor de laranja!

Há muitos casos de pessoas a ter de lidar diretamente com morcegos que entraram em suas casas? O que fazer quando tal acontece?

Não se pode dizer que são muitos, mas é um facto que todos os anos no final da primavera somos contactados por pessoas que têm um morcego em casa. Isto acontece em regra porque as janelas ficam abertas durante a noite com a luz acesa e porque os jovens morcegos andam a aprender a voar…

O que fazer? Primeiro de tudo: deixar a vassoura sossegada! A ideia é não assustar o morcego e, se ele estiver a voar, deixar que ele descubra a saída. Como? Deixando as janelas abertas e apagando a luz. Quando o morcego sair, fechar então as janelas. Se o morcego estiver pousado numa parede, cortinado ou outro, deve-se colocar uma caixa de sapatos sobre o morcego e passar depois gentilmente uma folha de cartão entre a caixa e a parede. Com a folha sobre a caixa levar o morcego para o exterior e então deixá-lo voar.

Como reagem as crianças nas atividades dirigidas às escolas, de modo a dar conhecer os morcegos?

As crianças estão claramente entre os grupos mais interessantes e interessados nas atividades de divulgação de morcegos. Estes animais ainda possuem uma mística que os torna particularmente atrativos para os mais pequenos, que muitas vezes revelam um conhecimento que não encontramos em muitos adultos.

Soubemos que está a decorrer um projeto chamado «Atlas dos Morcegos». Qual a situação atual desta iniciativa? Como e até quando é que as pessoas podem contribuir e ajudar na sua execução?

O «Atlas dos Morcegos» está agora em fase de análise e compilação dos dados recolhidos durante o período de amostragem, que terminou em setembro. No entanto, as contribuições são sempre bem-vindas, já que continuaremos a compilar informação sobre a distribuição dos morcegos em Portugal.

Aprendi inúmeras curiosidades sobre os morcegos na tentativa de responder às mais inesperadas perguntas.
– Ana Rainho

Quais são os próximos eventos planeados para o fim de 2012?

Como o tempo já não é tão favorável para atividades ao ar livre estas serão agora mais reduzidas. Mas mesmo com mau tempo poderão visitar várias exposições que mostram um pouco do mundo dos morcegos:

  • Morcegos Lusos – Exposição de fotografia no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa;
  • Trazer os morcegos à luz do dia – Exposição de ilustrações feitas pelos alunos do Concelho de Sintra, na Vila Alda em Sintra;
  • Os morcegos foram à escola – Exposição dos trabalhos realizados pelos alunos que visitaram a exposição “Morcegos e os seus segredos”, no Centro de Informação e Interpretação do Parque Natural do Alvão em Vila Real;
  • Os morcegos são nossos amigos – Exposição de trabalhos realizados pelos alunos dos Concelhos de Sabugal e Penamacor, no Agrupamento de Escolas do Sabugal.

Após este ano, irão continuar as iniciativas de sensibilização em relação a estes animais? Quais os próximos passos a executar a este nível e também ao nível de conservação das várias espécies de morcegos ameaçadas?

Face à elevada participação observada durante estes dois anos, alguns dos grupos de voluntários que dinamizaram atividades de divulgação de morcegos indicaram já que pretendem continuar em 2013. Será aliás durante este ano que se prevê realizar o encerramento oficial da campanha no nosso país. Também nas escolas alguns professores já manifestaram a intenção de continuar a desenvolver atividades sobre os morcegos. Estas passarão provavelmente a ter um carácter mais pontual e, como tal, menos impactante. No entanto, e à semelhança do que já acontecia antes desta campanha, será dada continuidade à Noite Europeia dos Morcegos, uma noite dedicada aos morcegos e celebrada por toda a Europa.

Em termos de ações de conservação, estas seguirão a linha de trabalhos que tem vindo a ser desenvolvida com a monitorização e proteção de abrigos subterrâneos importantes, a gestão dos habitats de alimentação e a minimização dos impactes causados pela instalação de infraestruturas, nos Sítios de Importância Comunitária. Adicionalmente vamos compilando informação sobre as espécies que permite uma implementação mais eficaz das medidas de conservação, nomeadamente com os resultados do Atlas dos Morcegos de Portugal, do Censo dos Morcegos dos Açores e de todas as publicações científicas publicadas por investigadores em Portugal.

Como descreve a nível pessoal toda esta experiência do Ano do morcego 2011-2012?

Muito gratificante, ainda que muito intensa e trabalhosa. Permitiu-me falar sobre morcegos com pessoas de diferentes sensibilidades, aprender inúmeras curiosidades sobre os morcegos na tentativa de responder às mais inesperadas perguntas que eram colocadas, e acima de tudo perceber que há imensas pessoas que realmente valorizam os morcegos e que a custo do seu tempo pessoal se disponibilizaram para realizar atividades onde não recebiam mais do que o entusiasmo dos participantes. E, por isso, para todos os que de qualquer forma contribuíram para esta campanha, nem que seja por falarem de morcegos aos amigos, fica o meu bem-haja!

Esta entrevista foi publicada na Edição nº24 da Revista Mundo dos Animais, em Março de 2013.

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