Entrevista a Dr. Gonçalo da Graça Pereira, Especialista em Comportamento Animal

Dr. Gonçalo da Graça Pereira

Há muita falta de formação do que é um gato. As pessoas não sabem o que é um gato, os donos não sabem, os veterinários não sabem.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

Após ter tido a oportunidade de assistir à comunicação do Dr. Gonçalo da Graça Pereira com o tema “Micção inadequada: É comportamental?” no Encontro de Formação da Ordem dos Médicos Veterinários e ter considerado um tema tão actual e interessante para todos os amantes de gatos, tive a oportunidade de o entrevistar sobre a área em que trabalha, o comportamento e bem-estar animal.

O Dr. Gonçalo da Graça Pereira é médico veterinário, mestre em etologia clínica e bem-estar animal e é professor auxiliar convidado na Faculdade de Medicina Veterinária, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Recebe consultas de referência em clínica comportamental.

Mundo dos Animais: Boa tarde e antes de mais, muito obrigada em nome do Mundo dos Animais pela sua disponibilidade em nos conceder esta entrevista. Porque se tornou especialista em Comportamento e Bem-Estar Animal?

Dr. Gonçalo da Graça Pereira: Na realidade o termo especialista ainda não existe no nosso país. Eu fiz o mestrado em comportamento clínico e bem-estar animal, na Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madrid. Quando falamos em etologia clínica é sem dúvida a parte clínica do comportamento, tudo o que seja doenças de comportamento. Se houvesse alguma comparação com a medicina humana seria a área da psiquiatria. O bem-estar animal e o comportamento andam completamente de mão dada. É impossível nós conseguirmos falar de comportamento sem falar de bem-estar, porque um dos modos que nós temos para analisar o bem-estar é o comportamento.

Mas a sua pergunta era porquê. Eu entrei em veterinária pelo meu gosto e pelas minhas preocupações com os animais. O meu pai era treinador de cães da GNR, pelo que sempre convivi com animais. Nessa altura, principalmente com cães, mas mais tarde também com gatos, por isso a minha paixão por animais de companhia já vem desde tenra idade. Juntamente com isso e porque tenho origens no campo, o meu trabalho e o meu conhecimento de infância com animais de produção também era grande e acabei por conviver sempre muito com todo o tipo de animais. Quando terminei o curso senti que tinha várias lacunas na minha formação sobretudo numa área à qual já me dedicava desde o meu primeiro ano de faculdade, que era a área do bem-estar animal. Achei que havia muitas falhas na protecção animal e que a classe veterinária, pelo menos em Portugal, não estava devidamente formada, informada e a trabalhar adequadamente numa área em que eu considero que os veterinários têm de fazer mais e melhor.

E comecei à procura de locais onde poderia fazer formação para melhorar e aprofundar os conhecimentos que tinha adquirido ao longo dos 5 anos de curso. Nessa altura era consultor da RSPCA (Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals) uma das maiores associações de protecção animal e fazia consultoria para eles no país. Achei que fazia todo o sentido fazer formação, comecei à procura na Europa e encontrei um mestrado em part-time, aos fins-de-semana, em Madrid, na Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense. Foi um ano e meio a ir todos os fins-de-semana para Madrid, foi quase trabalhar durante a semana para pagar o mestrado aos fins-de-semana. Mas achei que era o que queria, porque assim posso fazer mais pela problemática animal, pelo bem-estar dos animais no nosso país, posso ajudar na formação de veterinários, na formação de não veterinários, do público em geral, de crianças… É muito útil esta formação.

Há quanto tempo é que se dedica a esta área?

Esta tem sido a minha aposta desde 2002. O grande trabalho que tenho desenvolvido em comportamento tem sido a partir do mestrado. No Bem-Estar comecei a trabalhar em 1995 com várias associações de protecção animal.

As pessoas não entenderam os comportamentos do cão como agressividade e só quando aparece uma dentada é que o dono fica preocupado e nos vem procurar.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

Os problemas de comportamento são mais frequentes agora ou são mais falados por serem mais estudados?

Em relação aos cães a população começa a estar mais atenta a alguns pormenores, sobretudo a partir do momento em que saiu a legislação dos potencialmente perigosos. Não deixa no entanto de acontecer que muitos dos casos de agressividade que recebo já aconteçam há 8 / 10 anos. As pessoas não entenderam os comportamentos do cão como agressividade e só quando aparece uma dentada é que o dono fica preocupado e nos vem procurar. Portanto a origem dos problemas nos cães está sobretudo nos donos. As pessoas não reconhecem os comportamentos. No entanto, como já têm mais conhecimentos, as pessoas, em geral, começam a estar mais atentas. E começam a procurar ajuda. Infelizmente em alguns casos vão procurar ajuda errada.

Como por exemplo?

Como por exemplo maus treinadores, más escolas, maus métodos de treino. E que vão piorar muito mais a patologia do cão.

Quanto ao gato, este tem-se tornado o animal do século. Sem dúvida que a população dos gatos tem crescido exponencialmente. Aqui há uns anos atrás, quando comecei a fazer clínica geral acontecia termos uma pequena percentagem de gatos a virem à consulta, hoje em dia é quase 50% cães, 50% gatos. E em algumas clínicas de cidade até aparecem mais gatos do que cães.

Portanto a população de gatos cresceu e com esse crescimento, aumentaram também os problemas de comportamento. Uma vez que os gatos são animais extremamente subtis nas suas manifestações de sofrimento e nas suas alterações de comportamento, muitas vezes andam anos a viver sujeitos a condições que lhes são adversas, sem que os donos se apercebam que existe um problema. Até que um dia este despoleta só aí é que nos procuram. Quando a origem do problema do gato já existe há alguns anos.

Por isso, acho que o aumento crescente dos problemas nos gatos tem a ver com o aumento exponencial dos gatos como animais de companhia.

99% das pessoas que tem um animal de companhia sabe que o animal sente e sofre. Agora conhecer o que é o comportamento normal e qual é a resposta ao stress, os donos não sabem.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

E o stress em que vivemos pode ser uma causa para existirem mais problemas comportamentais?

Eu diria que nos cães pode. Não o stress dos donos, mas a sua vida. Porque o cão é um animal que depende dos humanos até para passear. Se nós trabalhamos 8 horas, no mínimo, fora de casa e fazemos muitas vezes passeios a despachar, o cão passou a maior parte do seu dia fechado em casa. Portanto é normal que o cão comece a destruir, que comece a ladrar… É uma frustração.

No caso dos gatos, que são muito sensíveis a grandes alterações, se vivermos em stress é normal que libertemos odores diferentes e que isso influencie o seu comportamento. Mas o grande stress das nossas vidas influencia os gatos principalmente se envolver alterações no seu ambiente.

Os problemas são mesmo reais ou as pessoas não compreendem o comportamento normal dos animais?

Eu preferia que me procurassem quando tivessem dúvidas. Quando me procuram já não têm dúvidas, é já com problemas evidentes e depois de terem tentado várias abordagens. Tentam o que o vizinho experimentou, porque ouviu alguém, porque leu num livro e tudo isso quando chegam já é numa situação de cronicidade, quando fazemos uma avaliação de risco já há um grande risco humano, e então muitas vezes e infelizmente, na realidade actual do país, alguns casos acabam em eutanásia.

Principalmente a nível de cães?

E também em gatos. Nos gatos muitas vezes não terminará em eutanásia mas terminará na rua.

E em relação aos gatos há muita falta de formação do que é um gato. As pessoas não sabem o que é um gato, os donos não sabem, os veterinários não sabem, há aqui grandes lacunas na formação do que é um gato. E por isso mesmo as pessoas acabam por me procurar quando o problema já é demasiado evidente.

E quais são os motivos pelos quais é mais procurado?

No casos dos cães, os dois principais motivos de procura são sem dúvida a agressividade, seguida da ansiedade por separação, os tais cães que ficam a ladrar, uivar, destruir as portas, a fazer necessidades fora do sítio.

No caso dos gatos o principal motivo também é a agressividade, quer agressividade entre eles, gatos, quer agressividade re-dirigida ao dono, por motivos que estão no ambiente e que temos de saber quais são e o segundo motivo é a eliminação inadequada.

E porquê? Porque sobretudo são, tanto nos cães como nos gatos, os problemas de comportamento que vão dar problemas aos donos.

Se forem problemas que não criem problemas ao dono, os donos podem ter um cão que se auto-mutila, um cão a rosnar, um gato a esconder-se a cada barulho…

Nós sabemos das vantagens de um animal de companhia. Tanto as crianças como os idosos beneficiam se tiverem um.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

É possível informar as pessoas acerca do normal comportamento animal, quando muitas não os aceitam como seres que sentem e que sofrem?

Eu diria que 99% das pessoas que tem um animal de companhia sabe que o animal sente e sofre. Agora conhecer o que é o comportamento normal e qual é a resposta ao stress, os donos não sabem. É possível dar formação aos donos? Sim, é possível. Através de quê? De revistas, entrevistas, televisão. Porque os media têm sido muito pouco usados, sobretudo na prevenção. A única coisa para que os media ultimamente têm servido, é para alertar para o problema da agressividade.

Mas nós sabemos das vantagens de um animal de companhia. Tanto as crianças como os idosos beneficiam se tiverem um. Assim, temos de ver o que é que está a ocorrer de errado na sociedade para prevenirmos o problema. E sem dúvida que a falta de formação dos donos e o modo como a legislação está construída em muitos campos, vai-nos dar muitos problemas no reconhecimento das vantagens que eles trazem.

Há muitas lacunas aqui a preencher para conseguirmos fazer um bom trabalho. Mas é possível fazer formação. Nós, veterinários, somos um elo na formação dos donos e na prevenção de problemas de comportamento. Quando o cachorro ou o gatinho vem às primeiras consultas das vacinas, é a altura ideal para fazer prevenção de problemas de comportamento.

Mas não interessa falar de formação aos donos se os próprios veterinários não estiverem sensibilizados para isso.

A criança aprende facilmente que um cão a dar à cauda está contente e quando transporta isto para um gato, pensa que ele o faz pelo mesmo motivo e portanto há erros de interpretação.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

E existem poucos veterinários que se sintam à vontade para falar desse assunto?

Nos currículos universitários temos uma cadeira de comportamento animal. Cada um de nós como veterinário já tem algumas bases que poderia e deveria transmitir aos donos. Só que a área da etologia clínica ou da clínica comportamental não é vista pela maioria da classe veterinária como uma área médica. Então o que acontece é que os veterinários concentram-se em áreas puramente médicas, esquecendo-se da influência que a área psíquica pode ter inclusivamente na área médica. E portanto a prevenção muitas vezes não é feita e o papel dos veterinários deixa de estar a ser eficaz.

Mas sim, é possível informar as pessoas e isso deveria ser feito.

Daí a formação dos donos e do público em geral ser extremamente importante. Os media têm aqui uma função muito importante que até hoje tem servido apenas para alarmar e fazer não um papel educativo, mas um papel exacerbado dos factos. Porque ataques de cães sempre houve e todos os animais inclusivamente o Homem, são imprevisíveis. Ninguém pode pôr a mão no fogo que só determinadas raças é que vão atacar. E a maioria dos estudos indicam que os ataques caninos ocorrem dentro da casa das pessoas, com os cães da casa e que a maioria não pertence às raças potencialmente perigosas.

Portanto a aposta está na formação das pessoas, é uma aposta importante.

Uma área completamente diferente é a inclusão do comportamento e do bem-estar nos currículos escolares das crianças. Temos muitos problemas, porque a criança aprende facilmente que um cão a dar à cauda está contente e quando transporta isto para um gato, pensa que ele o faz pelo mesmo motivo e portanto há erros de interpretação.

Outro exemplo: Uma criança aproxima-se de um cão para lhe dar um abraço, mas o abraço é visto pelo cão como uma afronta directa. Então o que é que o cão que está com medo da criança faz? Rosna e levanta a beiça. E a criança pensa que ele se está a rir. Portanto irá avançar com mais força e mais segura para o cão, porque ele lhe está a rir. E quando o cão já não tem alternativa, morde a criança. Ele morde porque está cheio de medo da criança não teve outra escapatória. E vai morder onde? Na cara. Porque é o que está ao nível da boca dele. E aqui temos grandes problemas. Porque cães, gatos e pessoas, todos falamos linguagens diferentes.

Os donos consideram que podem fechar quatro gatos num apartamento e esperar que eles se entendam. Mas se não lhes proporcionarmos as condições necessárias, eles não se vão entender.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

E em relação aos gatos o problema que se vê com maior frequência é…

Agressividade. Sobretudo agressividade entre os gatos. Porque os donos consideram que podem fechar quatro gatos num apartamento e esperar que eles se entendam. Mas se não lhes proporcionarmos as condições necessárias, eles não se vão entender. Portanto a agressividade entre os gatos é um problema muito frequente, assim como a agressividade re-dirigida, em que eles não se atacam um ao outro mas, por outros estímulos, atacam o dono.

Em segundo lugar está, sem dúvida, a eliminação inadequada. Muitas vezes por falta de condições em relação às casas de banho, ao local onde estas se encontram, por muitas razões presentes no ambiente, ou por marcação secundária ao stress. Quando vários gatos vivem na mesma casa, o primeiro sinal de stress é a marcação do território com urina.

Os caixotes [de areia] devem ser em número suficiente, ou seja, o número de gatos mais um. Se tiver dois gatos tenho de ter três caixotes.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

E qual é a principal causa pela qual os gatos apresentam eliminação inadequada?

Existem dois tipos de eliminação inadequada. Uma é a defecação e micção fora da casa de banho em que eles não usam a caixa de areia; e outra situação é a marcação de território, em que eles também usam a casa de banho.

No primeiro caso, a principal causa tem a ver com aversão. Eles podem não gostar da casa de banho ou do material de que é feito o areão. O que é que pode estar errado na casa de banho: o local onde ela está, o tipo de casa de banho que é, o número insuficiente de casas de banho para o número de gatos e a proximidade da comida. Em relação ao areão: ser um areão pontiagudo, que lhes cause aversão e que eles não consigam manipular, ser um areão com odor (eles não gostam de areão com odor) ou existir uma incorrecta higienização.

Então o caixote deve estar longe da comida?

Vamos começar por ordem. Os caixotes devem ser em número suficiente, ou seja, o número de gatos mais um. Se tiver dois gatos tenho de ter três caixotes. Os caixotes não podem estar na mesma divisão, lado a lado, porque imaginemos que há um gato que se mete à porta da divisão onde estão as três casas de banho. O segundo quer usá-la e não consegue porque quer evitar um confronto.

As casas de banho devem estar espalhadas, cada uma numa divisão diferente da casa, de modo a que o gato as possa utilizar sempre que quer; deve ser uma casa de banho aberta, de modo a que o gato saiba o que é que está à volta; não deve estar próxima da comida, nem da bebida, nem da cama. É um território diferente.

Em termos do areão, este não deve ter odor, deve ser o mais simples possível. Quando não sabemos qual é o areão que ele mais gosta, devemos pôr à disposição vários tipos, ver qual é que ele utiliza e a partir daí usar o que ele escolheu.

Falta ainda falar da marcação. A marcação ocorre sobretudo secundária a situações de stress ou por comportamento reprodutivo. É preciso que os donos compreendam que a marcação é um comportamento normal para o gato e que ele vai fazer marcação, seja com urina, com fezes, com as glândulas sebáceas da face, ou com as glândulas sebáceas que tem nas almofadinhas plantares, porque os gatos têm de marcar o seu território. O que o dono precisa de compreender é porque é que de repente um gato que não fazia marcação começou a fazê-la. Pode ser porque atingiu a puberdade e então se for castrado desaparece a incidência da marcação, mas pode ser por stress e então convém compreendermos o que está a causar stress ao gato. E nesse caso, é extremamente importante distinguir eliminação inadequada por aversão e eliminação inadequada por marcação, porque os tratamentos são diferentes.

Então no caso de um animal que apresente uma eliminação inadequada, o que é que o Dr. aconselha?

Ir ao veterinário assistente. Nós começamos descartar problemas, por fazer uma urianálise e ver se há alguma infecção urinária. Caso os rins estejam a funcionar bem, o fígado também e não haja qualquer incidência de infecção, então o problema será de comportamento. Temos então de detectar a origem do problema, ver se podemos tratá-la, quer seja por aversão, quer seja por marcação.

Mas temos de ter em atenção que se tivermos uma casa com vários gatos, se tirarmos um sozinho, quando ele voltar a casa vem com odores diferentes e vai ser mal recebido pelos outros. E isso pode ser a origem de vários problemas de comportamento a seguir, além da eliminação inadequada. Portanto, idealmente, quando sai um gato, saem todos.

Nesse caso, se há um que está a eliminar inadequadamente, saem todos, só o que vem à consulta para fazer diagnósticos diferenciais é que é visto, mas saíram todos de casa e voltaram a entrar todos. Assim voltam todos com o mesmo odor, andam um dia ou dois a recuperar da tensão, porque para um gato a vinda ao veterinário é a pior coisa que lhe podemos fazer, é um stress muito grande, desde que a transportadora entra em casa, à viagem, ao tempo de espera, com cães, com dezenas de odores, até à manipulação feita na clínica veterinária.

Mas sim, a primeira coisa será ir ao veterinário, para se descarta o que se passa e a seguir faz-se um protocolo de tratamento mediante o que for diagnosticado.

Se tivermos uma casa com vários gatos, se tirarmos um sozinho [para levar ao veterinário], quando ele voltar a casa vem com odores diferentes e vai ser mal recebido pelos outros. Portanto, idealmente, quando sai um gato, saem todos.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

E que tipos de tratamento existem, para esse problema?

Em alguns casos poderá ser necessário recorrer a psicofármacos ou ansiolíticos. Muitas vezes os donos esperam que o fármaco cure o problema, mas este será apenas uma ajuda. O animal não tem uma infecção para a qual toma um antibiótico e fica curado. O fármaco não faz milagres pelos problemas de comportamento.

Mas sem dúvida que os mais importantes são os que falei anteriormente, a nível da casa de banho e do areão.

Quando o dono se dirige a uma consulta de comportamento e bem-estar animal, é frequente que já tenha tentado todas as abordagens possíveis?

Por norma, eu recebo referências. O caso já começou a ser visto por outro colega, que considerou que o caso precisava de ser visto pelo “especialista” e então referencia-mo a mim. Nessa altura acompanho o caso, falo de volta com o colega explicando o que foi feito, se há mais alguns exames que proponho fazer, porque também me vêem parar às mãos alguns casos supostamente de comportamento e que depois são de outros campos, tais como ortopedia por causa de problemas de artroses, displasia da anca, otites, infecções urinárias, dezenas de doenças que temos de descartar antes de chegar à clínica de comportamento.

Mas agora alguns donos começam a falar de mim a outros donos que vêm directamente ter comigo. Não é o género que prefiro, porque é bastante mais eficaz se o animal vier com determinadas análises feitas, para descartar problemas e poder dizer que o caso realmente não tem causas físicas, é um problema comportamental.

Ou seja, o dono já procurou um veterinário porque tem um problema. Mas mesmo antes disso já tentou “remédios caseiros”. Já tentou aquilo que ouviu alguém dizer que resolve ou foi procurar um mau treinador que lhe disse como é que devia fazer, que devia bater com mais força, usar coleira de choques, reforço com tareia… E por norma já me chegam às mãos casos mais graves.

Os casos que lhe são dirigidos já são todos muito graves?

Sim, então os casos de agressividade canina são mesmo muito graves, é muito mais fácil chegar a um treinador que a um veterinário. Mesmo alguns veterinários que não trabalham na área do comportamento acabam por indicar um treinador antes de o animal ser visto por alguém que trabalha em clínica comportamental. E não há muitos veterinários a trabalhar nesta área, somos 4 ou 5 no país todo. Há casos em que um colega numa aldeia no Alentejo pode ter dificuldade em enviar e referenciar um caso para mim ou para um colega no Porto… Às vezes é difícil, por isso tentam-se muitas outras coisas antes.

Um porquinho-da-índia pode ter um espaço de 5 quilómetros, mas não ter nada para fazer nesse espaço. Às vezes há pequeninos truques que ajudam a melhorar muito a vida destes animais.
– Dr. Gonçalo da Graça Pereira

Os problemas de comportamento que trata são apenas de gatos e cães?

São a principal causa de procura. Mas aparecem outro tipo de animais. Eu não trabalho especificamente, por exemplo, com aves. Tenho outro colega que se dedica a comportamento de aves.

As aves sofrem imenso. Como nós sabemos o comportamento natural das aves é voar. Imagine o que é um psitacídeo, um papagaio, por exemplo, que tem uma capacidade cognitiva e uma inteligência tão desenvolvida viver uma vida palerma fechado dentro de uma gaiola. Portanto é normal que se desenvolvam dezenas de problemas.

É óbvio que se tiver uma urgência de alguma ave com problemas de comportamento, eu dou uma ajuda, porque tenho alguns conhecimentos básicos, mas não me sinto à vontade para cuidar sozinho do caso. Por isso, quando acontece falo com outros colegas, para lhes referenciar. Seria enganar o dono se eu achasse que não tinha capacidade mas continuasse com o caso.

Depois temos a área dos novos animais de companhia, coelhos, porquinhos-da-índia, ratos, ratazanas, hamsters. Animais que também vivem normalmente fechados em gaiola e que também apresentam muitos problemas de comportamento.

E esses problemas de comportamento necessitam, por vezes, de enriquecimento ambiental, que os donos lhes dêem oportunidade para exibir comportamentos que sejam ou não naturais no ambiente selvagem, mas que tenham coisas para fazer.

Ter mais espaço…

O espaço só, não é importante, porque um porquinho-da-índia pode ter um espaço de 5 quilómetros, mas não ter nada para fazer nesse espaço. Às vezes há pequeninos truques que ajudam a melhorar muito a vida destes animais.

Não recebo muitas consultas de espécies exóticas, porque também há colegas a trabalhar em clínica de animais exóticos com formação de comportamento e dão algumas achegas nessa área. Trabalho sim com esses colegas para lhes dar alguma ajuda, caso seja necessário.

Então no caso de um animal exótico, o Dr. prefere falar com os outros veterinários para ajudar no caso?

Por norma, quando os colegas de clínica de animais exóticos vêem que é um problema de comportamento comunicam comigo e tentamos aferir juntos.

Quanto tempo dura uma consulta de comportamento?

Para resolver um problema de comportamento, a consulta dura cerca de uma hora e meia, para perceber como está organizado o ambiente, porque pode existir uma panóplia de coisas a acontecer ao mesmo tempo. É necessário analisar cada caso individualmente para apresentar uma terapêutica adequada.

Bem, já não tenho mais perguntas, muito obrigada em meu nome e de toda a equipa do Mundo dos Animais por esta entrevista.

De nada! Sempre que precisarem disponham.

Esperamos que com esta entrevista consigamos esclarecer mais gente, sobre o comportamento e bem-estar animal.

Assim seja, pois é esse o vosso desejo e o meu também!

Esta entrevista foi publicada na Edição nº18 da Revista Mundo dos Animais, em Dezembro de 2010.

Tópicos: Entrevistas, Saúde Animal, Animais de Estimação, Artigos em Destaque