Entrevista a Filipe Ferreira, Concorrente ao Movimento Milénio

Filipe Miguel Ferreira

É economista, tem 33 anos e concorreu ao Movimento Milénio com uma ideia original para acabar com os canis e os gatis tal e qual os conhecemos, promovendo a utilização de espaços como parques públicos, para alojar os animais vítimas de abandono, promovendo também a interação com as pessoas e consciencialização das mesmas em relação ao problema.

O Mundo dos Animais entrevistou o Filipe a fim de conhecer melhor esta ideia, bem como as soluções que propõe para os problemas relacionados com os animais abandonados.

Para um melhor entendimento da entrevista, sugerimos que o leitor faça o download do vídeo e da dissertação com que o Filipe concorreu ao Movimento Milénio e onde explica detalhadamente o seu projeto.

Mundo dos Animais: Olá Filipe, em primeiro lugar, obrigado pela disponibilidade e por concederes esta entrevista ao Mundo dos Animais. Para começar, gostaríamos que te apresentasses aos nossos leitores: quem é o Filipe? Que ligação tens com os animais, como “ganhaste” o gosto por eles? Tens animais em casa, quais?

Filipe Ferreira: Gostaria de começar esta entrevista dizendo que será um prazer colaborar com o Mundo dos Animais. Como é referido no Movimento Milénio eu chamo-me Filipe Ferreira, tenho 33 anos e possuo formação académica em economia, estando neste momento desempregado. Vivo a maior parte do meu tempo em Tondela, mas também passo uma parte importante do tempo em Coimbra.

Não tenho animais em casa há já muito tempo, mas tive um cachorro há cerca de vinte anos ao qual considero que, devido à minha ignorância na altura, não sabia lidar com ele, maltratando-o por ele sujar a casa com os seus dejetos. Acabei por dar o animal a alguns familiares, que possuindo habitação em espaço rural o acolheram durante algum tempo, mas considerando que não tinham condições para o manter disseram-me na altura que o deram a outras pessoas. Contudo, quinze anos passados recordando-me dos últimos momentos que passei com o animal e dos comentários que ouvi na altura, fiquei com a sensação de que o teriam abatido, dizendo-me que o iam dar para adoção apenas para me tranquilizarem.

Foi algo que na altura não me deixou incomodado, porque acreditei na versão que me foi dada, contudo, volvidos quinze anos após esse acontecimento – algo que não consigo explicar – veio-me à memória esse episódio e recordando-me dos últimos momentos que passei com ele, ganhei a convicção que o desfecho para o animal não foi bem aquele que me transmitiram na altura.

Quinze anos volvidos recordei-me também da forma como eu não sabia lidar com o animal, com os maus tratos que eu lhe infligia devido à tal ignorância. Por outro lado, recordo-me de alguns sinais que agora me parecem de inteligência que o animal revelava (ou assim a memória, quinze anos, depois me parecia indicar) mas que na altura não soube reconhecer.

A verdade é que desde aí assola-me de vez em quando ao pensamento a experiência que tive com esse cachorro, e a vontade imensa de andar para trás no tempo para poder reescrever o passado. Também a visualização de alguns documentários televisivos passados nos canais do cabo da especialidade, onde se realça o grau de inteligência de várias espécies animais, sensibilizou-me para o facto de que nós, humanos, não somos assim tão superiores em termos de inteligência em relação às outras espécies animais.

Tal deverá levar-nos a questionar acerca da forma como nos relacionamos com as outras espécies. Afinal de contas, a maior prova de ignorância que pode existir é considerarmos que somos mais inteligentes do que os outros…

Como surgiu a ideia para este projecto que apresentaste no Movimento Milénio?

O projeto surgiu da conjugação de três fatores. O primeiro foi ter tido conhecimento desta iniciativa na televisão. Depois de ir à «net» ao site do concurso e tomar conhecimento do regulamento do mesmo, considerei que era uma iniciativa interessante esta de apelar ao «espírito visionário» das pessoas. Este projeto nem sequer foi o primeiro de que me lembrei, mas sim o trabalho que apresentei na categoria «Negócios» do concurso e que foi apresentada com o título «Para uma semana de quatro dias de trabalho», ideia que já tinha antes de tomar conhecimento do concurso. No caso do trabalho sobre os animais abandonados, foi a existência do concurso que ajudou a impulsionar a ideia, ao contrário do primeiro trabalho.

O segundo fator a contribuir para este projeto terá a ver com a sensibilização em relação aos animais que já desenvolvi na primeira questão.

O terceiro fator a contribuir para o projeto terá a ver com alguns ensinamentos (da área de gestão) que obtive, nomeadamente na minha formação académica, que nos diz que devemos transformar os problemas ou ameaças em oportunidades. Sabendo que duas atividades económicas com potencial de crescimento são precisamente as indústrias do lazer e do turismo, porque não valorizar os espaços de recolha de animais abandonados associando-os ao lazer e ao turismo?

Prejudicial para os animais é serem abatidos por questões relacionadas com a sobrelotação.
– Filipe Miguel Ferreira

Uma ideia “subliminar” que parece ser transmitida no teu projecto, é que o abandono de animais não seria propriamente mau, uma vez que os animais ficariam bem entregues na comunidade.

Não! O abandono dos animais é um problema que urge combater, e se o concurso pretendia incentivar o «espírito visionário» dos participantes, ou seja, que estes procurassem respostas para o futuro, eu propus que no futuro não deveriam existir animais abandonados, quanto muito seriam «adotados pela comunidade», seria um «avanço civilizacional», como o foram a abolição da escravatura, ou o reconhecimento da igualdade de género.

Podemos considerar, em certa medida, que os atuais canis e gatis municipais já procuram responder a esta problemática, (abandono dos animais); contudo, na atualidade estes espaços são apenas frequentados ou por funcionários municipais ou por voluntários das associações de defesa do bem-estar animal. A grande maioria da população não tem sequer a noção desta realidade!

Ora, se os espaços de recolha de animais abandonados fossem associados ao lazer e ao turismo, ou seja, se a sua frequência se tornasse convidativa para a grande maioria da população, por um lado fazia com que esta (população) se consciencializasse acerca da problemática do abandono dos animais e por outro lado passava a ideia de que estes (animais) não eram abandonados, esquecidos mas sim «adotados» pela comunidade, e não apenas alvo de preocupação por parte de quem tem maior sensibilidade em relação ao bem-estar dos mesmos, como é o caso dos membros das associações animais.

A lógica seria não afastar os animais abandonados da comunidade como acontece na atualidade mas, pelo contrário, aproximá-los da mesma.

Propões que as famílias poderiam experimentar a adaptação a um animal e caso não resultasse, devolveriam os animais ao parque. Não te parece que isto pode ser prejudicial para os animais, sempre a mudar de casa, de donos e de ambiente? Esta medida não retira a responsabilidade que se deve ter com os animais?

Eu proponho algo mais vasto: considero que os parques deveriam servir de «plataforma giratória» para os animais, seria uma forma de melhor controlar a população de cães e gatos, evitando com isso o abate dos mesmos. Os parques não só serviriam para facultar animais às famílias que os quisessem possuir como também poderiam albergar animais em tempo de férias, procurando, dessa forma desincentivar o seu abandono por parte destas (as famílias).

Repara que o abandono de canídeos e felídeos e o seu posterior abate se deve a um deficiente controlo da população animal. Estes espaços de albergue dos animais serviriam de «plataformas giratórias» para os mesmos, reunindo assim condições para controlar a população; não faz sentido existirem estabelecimentos comerciais a venderem cães e gatos e simultaneamente assistir-se ao abate dos mesmos nos canis e gatis municipais por questões de sobrelotação de espaço, pelo que, estes parques poderiam até se coordenarem com os estabelecimentos comerciais de venda de animais para melhor controlarem a população animal.

Respondendo concretamente à tua questão, prejudicial para os animais é serem abatidos por questões relacionadas com a sobrelotação do espaço: imagina um cão ou um gato que por permanecer já há demasiado tempo num canil ou gatil municipal está em risco de ser abatido; se surgir uma família disposta a acolhê-lo é óptimo pois dessa forma pode evitar um abate! Se entretanto essa família, passado algum tempo considerar que não pode continuar a albergar o animal só o tem de o devolver ao parque, podendo até acontecer que nessa altura o parque esteja menos lotado e possa, dessa forma albergar, novamente o animal; não precisará, por isso de o abandonar; na impossibilidade de tal acontecer, pelo menos esse animal ganhou algum tempo de vida extra…

A ideia seria interagir / brincar com os animais, porque a brincar também se aprende.
– Filipe Miguel Ferreira

Como sabemos, machos e fêmeas juntas tendem a reproduzir-se e isso é um grave problema no descontrolo das populações de cães e de gatos. Como é que o teu projecto prevê evitar esse problema? Quem financiaria uma eventual esterilização destes animais?

Fiquei a saber há pouco tempo que a esterilização dos animais não está acessível a todas as bolsas, sendo que tal constitui um entrave para o controlo das populações de cães e gatos, aliada à falta de informação por parte de alguns donos. Seja como for, as respostas às tuas questões já se podem colocar na atualidade: como é que na atualidade os canis e gatis municipais resolvem o problema da reprodução dos animais?

Se actualmente os canis municipais não têm funcionários que cheguem, ou que tenham formação adequada para lidar com os animais, que medidas é que deveriam ser tomadas para que o projecto funcionasse?

Se atualmente os canis e gatis municipais não possuem funcionários suficientes ou estes não têm formação adequada para lidar com os animais como é que é possível que estejam autorizados a funcionar? A questão que se deverá colocar ao meu projeto não é se ele resolve todos os problemas relacionados com a questão do abandono dos animais mas se ele permite diminuir essa problemática face à situação atual.

Seja como for, uma das possibilidades que eu coloco é a de esses espaços se tornarem atraentes para a população e que esta para os poder frequentar teria de pagar uma pequena entrada que ajudaria à manutenção do mesmo (espaço).

No caso dos animais que não estão preparados para viver nesse tipo de comunidades, como animais bebés muitas vezes órfãos, animais traumatizados ou até violentos, o que se faria com esses animais?

Começaria por perguntar aos atuais responsáveis pelos canis e gatis municipais como é que eles lidam com essa situação na atualidade.

Como todas as Associações tendem para a sobrelotação e aos canis não acontece o mesmo porque como se sabe, são abatidos, o que iria acontecer quando esses parques ficassem sobrelotados? O que aconteceria aos animais “excedentários” e como se faria a selecção dos que ficam e não ficam?

Se reparaste, existe uma secção, no próprio «site» onde é possível a colocação de comentários aos trabalhos colocados a concurso. E se existem comentários que elogiam o trabalho outros há que não o consideram interessante. Curiosamente às críticas que são feitas nos comentários menos abonatórios, considero-as de fácil refutação; a grande crítica que se poderia fazer ao trabalho (e que não foi feita até à presente data) é mesmo a de que ele não resolve o problema da sobrelotação, ou seja, de nada serve valorizar os espaços de acolhimento de animais abandonados se não se apostar no controlo das populações de cães e gatos através da esterilização.

Quanto muito, estes espaços assim requalificados para o lazer, ao atraírem um maior número de pessoas, comparativamente aos atuais canis e gatis municipais serviriam para a sensibilização das mesmas em relação à problemática do abandono e abate dos animais, mas não substituiria a esterilização dos mesmos. A imagem que aparece no final do trabalho (a menina a fazer carícias ao cão) sugere um «happy end» para a problemática do abandono dos animais, quando, de facto, não seria bem essa realidade.

Não faria mais sentido ter apenas alguns parques com animais, uma vez que nem todas as pessoas gostam deles e isso é um facto, de forma a promover a educação e cuidados que se deve ter pelos mesmos, em vez de se ser um local comunitário onde todos são acolhidos?

Uma das críticas que são colocadas na secção respetiva é a de que colocar os animais em jardins públicos poderia originar problemas de ruídos, nomeadamente à noite. De facto, quando fiz o trabalho não me lembrei desse pormenor. Seja como for, se isso inviabiliza a colocação dos animais em jardins públicos, como eu defendo na primeira solução, já não se coloca em relação à segunda, pois que eu saiba não existem problemas de ruído em relação aos atuais canis e gatis municipais, atendendo a que existe o cuidado de os colocar longe das zonas residenciais por forma a não perturbar a tranquilidade que se pretende, sobretudo à noite.

Respondendo concretamente à tua questão, se observaste bem quer o vídeo quer a dissertação, eu não defendo que os animais circulem livremente pelos jardins públicos e/ou pelos parques municipais; o que eu defendo é que nesses espaços sejam criadas secções onde eles possam ser acolhidos, precisamente para respeitar aqueles que pretendam frequentar os jardins e parques municipais mas que não pretendam interagir com os animais.

Em caso de acidentes, quem seria responsabilizado? Alguém fazer mal a um animal ou o contrário, um cão morder uma pessoa, algo que pode acontecer por múltiplas razões?

Quando os funcionários municipais ou os voluntários das associações de defesa animal se deslocam, na atualidade, aos canis e gatis municipais podendo ser mordidos por algum dos animais quem é que se responsabiliza pela situação? Por outro lado, estes espaços estão sob a vigilância de funcionários municipais, que fazem a manutenção dos mesmos e tratam da higiene e alimentação dos animais, pelo que se alguém se desloca a estes espaços -como voluntários de associações de animais, por exemplo – e maltratem os animais, à partida os funcionários encarregues de zelar pelo espaço procurarão resolver a situação.

Como poderíamos evitar que as pessoas utilizassem estes parques como mero objecto de brincadeira sem respeito pelos animais propriamente dito?

Porque estes espaços contariam com vigilância por parte de funcionários municipais, à partida estes elementos zelariam pelo respeito dos animais e conhecendo aqueles (animais) que pudessem ter um comportamento mais violento ou imprevisível procurariam, os funcionários, evitar o contato dos mesmos com os humanos. A ideia seria interagir/brincar com os animais, porque a brincar também se aprende. A ideia não era fazer dos animais uns «brinquedos» como, aliás, é sugerido num dos comentários ao trabalho.

Quais são, para ti, as 3 primeiras coisas a fazer para aumentar o respeito pelos animais e combater os abandonos?

Como tu referiste em boa parte das questões, o projeto por mim apresentado tem bastantes debilidades, sendo que a principal delas é a de não eliminar a problemática do abandono dos animais: por muito que queiramos requalificar os espaços de recolha dos animais abandonados, se não houver a preocupação do controlo das populações de cães e gatos tal esforço será sempre inglório.

Ainda assim considero que o projeto por mim apresentado tem aspetos positivos: por um lado, serviu para trazer à discussão pública a problemática do abandono dos animais; como tu próprio referiste, trata-se de um projeto que causou algum «ruído» nas redes sociais; se esta questão tem importância para a parte da população mais sensibilizada para as questões relacionadas com o abandono dos animais como indivíduos que pertencem a associações de defesa animal, a verdade é que a maior parte da população não tem esta matéria como alvo de preocupação, pelo que colocá-la numa plataforma que alcança um público mais abrangente, como foi o «Movimento Milénio» terá sido, do meu ponto de vista uma ideia feliz, apesar de saber nesta altura que a mesma não foi selecionada para a final do mesmo (concurso).

Por outro lado, o projeto por mim apresentado não deve ser encarado como «ponto de chegada», mas sim como «ponto de partida»: ou seja, a ideia é trazer à discussão a problemática do abandono dos animais e levar as pessoas a refletirem sobre o assunto e a contribuírem com ideias que possam melhorar o projeto. É possível que a solução para o abandono dos animais nem passe, no todo ou em parte, pelas ideias defendidas no meu projeto, nem eu ambiciono ter a «solução mágica» para o mesmo; mais do que encontrar debilidades ou insuficiências no meu projeto, as pessoas podem contribuir com ideias que o possam melhorar.

Por último, o projeto até pode ter muitas debilidades, mas estas (debilidades) devem ser confrontadas com a situação atual, ou seja, se, ainda assim, se demonstrar que a situação atual possui mais debilidades do que aquelas apresentadas pelo projeto, então deve ser ponderada a sua viabilização.

O Mundo dos Animais agradece ao Filipe Miguel Ferreira por ter concedido esta entrevista, bem como à Mónica Bello, do Movimento Milénio, por ter facilitado o contacto entre ambas as partes.

Esta entrevista foi publicada na Edição nº21 da Revista Mundo dos Animais, em Outubro de 2011.

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