Entrevista a Helena Pessoa, mentora do Projecto Pata Vermelha

Entrevista a Helena Pessoa, Pata Vermelha

Helena Pessoa e António Lemos, co-fundadores da Pata Vermelha

Temos pessoas que ajudam sistematicamente nos pedidos que fazemos.
– Helena Pessoa

A trabalhar em prol dos animais desde 2008, o projecto Pata Vermelha tem actualmente o reconhecimento de associações de todo o país e conta com a solidariedade de muitos portugueses que ajudam pontualmente. O Mundo dos Animais falou com Helena Pessoa, mentora do projecto que é cada vez mais requisitado para auxiliar quem mais precisa em casos de muita urgência.

Mundo dos Animais: Primeiramente gostaríamos saber como e quando surgiu e em que consiste o projecto Pata Vermelha e por quantas pessoas é actualmente constituído.

Helena Pessoa: O Projecto Pata Vermelha surgiu em Março de 2008 inspirado por uma cadela minha, a Sissi. Nos últimos meses de vida necessitou de cuidados médicos caros que se eu não pudesse pagar não sei como seria. Isto levou-me a pensar que muitas associações e particulares que resgatam animais abandonados deveriam ter muitas dificuldades em obter cuidados médicos e medicação. Assim surge a ideia de formar um projecto de ajuda exclusiva na área da saúde.

Neste momento a trabalhar como voluntários temos 7 pessoas e duas mais que estão agora a iniciar o seu trabalho na Pata Vermelha.

Quem quiser ser voluntário ou juntar-se ao projecto Pata Vermelha pode fazê-lo? De que maneira?

Sim, neste momento estamos a estruturar o nosso trabalho por secções para que funcione melhor, bastará entrar em contacto connosco para que sejam informados das nossas necessidades actuais.

Desde que começaram, podem dizer ao certo quantos animais já ajudaram?

É uma conta difícil de fazer com exactidão, uma vez que trabalhamos essencialmente com associações que têm dezenas de animais a cargo. Mas para que possam ter uma ideia estamos neste momento a dar apoio regular em medicação a cerca de 65 associações e particulares em todo o território nacional, tendo já distribuído cerca de 22.550€ em medicação. Segundo as contas da nossa contabilidade no ano de 2009 até ao mês de Novembro, foram distribuídos 11.000€ em donativos para diversos casos médicos a necessitar de ajuda.

Como funciona, em termos logísticos, o vosso trabalho?

A Pata Vermelha tem uma rede de Pontos Vermelhos em todo o País (pontos de entrega de donativos em medicação estão especificados no nosso blogue) quando há uma quantidade razoável, são recolhidos por voluntários e expedidos para serem triados e colocados na nossa farmácia.

Também recebemos donativos em medicação directamente de particulares e algumas empresas da área farmacêutica.

Quando recebemos pedidos de medicação fazemos a expedição via CTT sem quaisquer encargos para as associações que os requisitam.

Em relação a pedidos de apoio para intervenções médicas urgentes, o que fazemos é ajudar a angariar fundos publicando o caso, devidamente documentado no nosso blogue.

Em caso de ajudas muito urgentes em relação a medicação ou ajuda monetária normalmente compramos ou pagamos imediatamente os medicamentos e intervenções e pedimos depois ajuda à nossa rede de contactos de amigos dos animais. Ressalto aqui que normalmente conseguimos ajuda total em 90% dos casos, pelo que cada vez mais os pedidos chegam diariamente.

Como foi de início a receptividade ao vosso trabalho?

No início foi cautelosa, penso que por parte das associações houve talvez alguma renitência em relação à capacidade de ajuda, a medicação que dispúnhamos inicialmente era pouca e o meu conhecimento era limitado em relação aos fármacos essenciais.

Ao fim de quase 2 anos de trabalho e pesquisa intensa, temos conseguido ter em stock a medicação prioritária e tentamos responder em tempo útil a todos os pedidos que nos chegam.

Penso que apesar das limitações, temos conseguido fazer um bom trabalho (como todas as associações) e penso que somos cada vez mais a referencia quando o assunto é medicação ou ajuda monetária para intervenções médicas a animais desprotegidos. Disso é prova os pedidos que cada vez mais nos chegam.

Estamos aqui todos a fazer um trabalho social que compete ao estado e autarquias, mas enquanto a sensibilidade dos nossos governantes for abaixo de zero, cá estaremos nós para garantir que os animais não serão esquecidos, nem tratados como lixo urbano.
– Helena Pessoa

Como tem sido a adesão das pessoas ao projecto? Sentem que as pessoas ajudam cada vez mais e se sentem sensibilizadas para esta causa?

A adesão tem sido extraordinária, temos pessoas que colaboram sistematicamente em todos os pedidos que fazemos. Acredito que são aquelas que já são sensíveis a esta causa mas acredito também que, se tratarmos este assunto (dos animais) com o respeito e seriedade que ele merece, muitas mais poderão no futuro perceber que estamos aqui todos a fazer um trabalho social que compete ao estado e autarquias, mas enquanto a sensibilidade dos nossos governantes for abaixo de zero, cá estaremos nós para garantir que os animais não serão esquecidos, nem tratados como lixo urbano.

Penso que seria de extrema importância criar uma associação que estivesse dedicada exclusivamente a trabalhar com as escolas, pois nessa fase as crianças gostam naturalmente de animais é precisamente aí que está a grande oportunidade de formar cidadãos sensíveis ao sofrimento e respeitadores de todas as formas de vida.

Helena Pessoa sugere a criação de uma associação que se dedique exclusivamente ao trabalho com crianças nas escolas, a nível de sensibilização.

Têm ajudado mais com medicamentos ou donativos em dinheiro? Em termos quantitativos, quantos medicamentos recolhem por ano? Podem dar uma estimativa?

Penso que os donativos estarão equilibrados, quanto a números só posso dizer que todos os dias recebemos medicação, muita não tem serventia para os 4 patas pelo que descartamos para a farmácia. Assim uma estimativa. muito por alto. devemos recolher mais de 5.000 fármacos [por] ano.

Qual o feedback que as pessoas em geral vos dão?

O feedback recebido é muito positivo, no entanto precisamos de ajudas mais eficazes no que respeita à medicação. É nesse sentido que iremos brevemente contactar um a um os laboratórios farmacêuticos e empresas que produzem rações de tratamento, no sentido de nos serem doados medicamentos e produtos fundamentais para a eficácia da nossa ajuda.

O que move o Projecto Pata Vermelha?

O que nos move é a mesma paixão que move todos os outros projectos de ajuda a animais, a vontade de, um dia, vermos os nossos imprescindíveis amigos de 4 patas respeitados e no lugar que merecem. Pela nossa parte continuaremos a lutar para que, um dia no futuro, nenhum animal morra sem acesso a cuidados básicos ou avançados de saúde.

Precisamos de ajudas mais eficazes no que respeita à medicação.
– Helena Pessoa

Como gerem os pedidos de ajuda que vos fazem?

A gestão é feita por ordem de chegada, cada pedido é analisado e depois de separada a medicação é expedida, quando há pedidos de medicação que não temos em stock, fazemos apelo aos nossos contactos no sentido de angariar valor ou mesmo de as próprias pessoas a fazerem chegar directamente a medicação aos animais necessitados.

Em casos de extrema urgência como situações de doença contagiosa em animais em canil de associação, ou casos em que sabemos que as pessoas não têm como comprar a medicação ou pagar a conta de veterinário (casos de particulares com muitos animais a cargo sem acesso à Internet), adquirimos a medicação no nosso fornecedor e apelamos no nosso blogue com a devida urgência.

De todos os animais que já ajudaram e casos em que se envolveram, qual foi o mais importante, aquele em que mais fizeram diferença, uma história que vos tivesse comovido.

Há vários mas tenho que destacar o primeiro grande caso, o Rafael:

Um canito abandonado que foi brutalmente atropelado, ficou sem tratamento durante mês e meio. Fomos contactados por uma amiga dos animais e com a ajuda dela nos transportes e angariação de adoptante, o Rafael foi tratado.

Não conseguimos salvar-lhe a pata, que foi amputada, mas graças a ter recuperado totalmente foi possível encontra-lhe uma casa onde vive com carinho e muita brincadeira.

De notar que não recolhemos animais, apenas ajudamos na parte relacionada com a saúde, cabe a quem nos contacta encontrar soluções de acolhimento e posterior adopção.

O projecto Pata Vermelha mantém actualmente parcerias ou recebe apoios de instituições?

Neste momento temos várias ajudas de projectos particulares de ajuda a animais, que muito apreciamos e agradecemos, no entanto como disse anteriormente estamos a trabalhar para que sejam empresas da nossa área específica de actuação a ajudar no âmbito da responsabilidade social das empresas.

Quais os projectos para o futuro do Projecto Pata Vermelha? Pretendem expandir o projecto Pata Vermelha a outro tipo de ajudas para animais?

O nosso futuro é trabalharmos cada vez mais dedicados à nossa área de actuação, a saúde, pois entendemos que a especialização é o caminho para uma ajuda eficaz e permanente.

Quero agradecer aos voluntários que fazem parte da equipa da Pata Vermelha pelo excelente trabalho realizado: António Lemos, Sónia Garcia, Carlos Figueiredo, Patrícia Gonçalves, Joana Azevedo e Sandra Duarte. Um enorme obrigada a todos os que nos têm ajudado com donativos em medicação e valor sem o vosso apoio constante nada seria possível.

Esta entrevista foi publicada na Edição nº15 da Revista Mundo dos Animais, em Abril de 2010.

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