Entrevista a Maria Irene Reis, Presidente da Associação Saquetas de Rua

Maria Irene Reis

Mesmo com o nosso contacto e imensos pedidos, as autarquias nada fazem para ajudar as associações.
– Maria Irene Reis

Nasceu em 2009, no Dia do Animal e dedica-se essencialmente à espécie felina. Recolher os animais de rua, tratá-los, esterilizá-los e dá-los para a adopção é o objectivo que move a Associação “Saquetas de Rua”, com sede no Porto.

O Mundo dos Animais falou com a mentora deste projecto, Maria Irene Reis, que se inspirou, para criar a associação, no contraste entre os gatos já adoptados e os gatos que vivem na rua e que criticou a falta de apoios às associações por parte da autarquia.

Mundo dos Animais: Em que consiste e há quanto tempo existe a Associação Saquetas de Rua?

Maria Irene ReisMaria Irene Reis: A Associação Saquetas de Rua “nasceu” no dia 4 de Outubro de 2009 (Dia do Animal) por iniciativa minha, embora só recentemente foi constituída legalmente.

Eu já fazia serviço de petsitting para gatos, quer na casa dos donos quer nas instalações que criei para o efeito (Hotel para Gatos), mas o contraste entre os animais que eram cuidados por mim e os animais que encontrava na rua era tal que me fez arranjar uma forma de ajudar os gatos de rua.

Juntei-me a mais 8 amigos e começámos a lutar pelo mesmo objectivo: capturar os animais, esterilizá-los e depois tentar que sejam adoptados. Enquanto não o são ficam no nosso abrigo ou em FATs (Famílias de Acolhimento Temporário). Não esterilizamos gatas grávidas, nem pensar, só o fazemos depois do desmame dos gatinhos. Fazemos esterilização de Gatos com FIV positivo e encaminhamos para adopção, informando que não há problemas para humanos. Só queremos o bem-estar dos animais.

Contrariamos legalmente todo o género de eventos que tenham como objectivo a exploração, o sofrimento e a violação da integridade física de todos os animais.

Somos uma Associação sem fins lucrativos e vivemos das quotas dos sócios e de donativos.

De onde vem o nome “Saquetas de Rua”?

Este nome tem uma história: Tudo começou quando comecei a alimentar várias colónias de gatos errantes. Cada vez que fazia uma reposição do stock de alimentos na mala do meu carro dizia: “Sacos e mais sacos, saquetas e mais saquetas, tudo para os meus meninos de rua”.

Esta imagem fazia-me lembrar a sopa dos pobres que é oferecida aos sem abrigo e eu acabava por dizer que eram as minhas saquetas de rua para distribuir pelos pobres felinos. Ao fim de algum tempo esta imagem estava enraizada na minha memória e na daqueles que me conheciam. Quando chegou a hora de escolher um nome para a associação todos acharam que só poderia ser este e por sorte nossa conseguimos registá-lo.

Em que diferem, em termos de objectivos e de métodos, por exemplo da Associação Animais de Rua?

Temos objectivos e métodos muito idênticos à Associação Animais de Rua, embora sejamos mais pequeninos e novinhos. Conheço pessoalmente vários membros da Animais de Rua e temos uma parceria de interajuda, quer no acolhimento, quer nas esterilizações. A principal diferença é o facto de ajudarmos principalmente gatos, enquanto a Animais de Rua apoia também cães.

Desde a criação da associação já foram adoptados 36 gatos e feitas 10 esterilizações.
– Maria Irene Reis

Quais são os vossos próximos projectos ou iniciativas?

Estamos a fazer uma campanha com a Junta de Freguesia de Grijó para acabar com os animais de rua. Começamos com uma campanha de sensibilização na qual incentivamos os donos de animais, que tenham acesso ao exterior, a ter os mesmos com coleira e identificação. Desta forma, torna-se mais fácil para nós reconhecer os animais sem dono e depois capturá-los.

Quando este projecto-piloto estiver numa fase mais avançada, vamos tentar fazer o mesmo com as outras freguesias de Gaia.

Temos em mente uma outra campanha que decorrerá durante os meses de Verão para lutar contra o abandono.

Além destas duas campanhas, mantemos os nossos abrigos “Saquetas de Rua” onde alimentamos algumas colónias de gatos no local, enquanto não os conseguimos capturar.

Desde que começaram o vosso trabalho, quantos gatos já conseguiram ajudar, em termos de esterilização e de adopção?

Já foram adoptados 36 gatos e esterilizamos 10.

Têm em mente fazer campanhas de sensibilização para que as pessoas esterilizem os gatos que já adoptaram?

Sim e já temos dado alguns passos nesse sentido, embora a mega campanha está preparada para o final deste ano.

Para os gatos que são adoptados cá, incentivamos a esterilização, oferecendo descontos em clínicas veterinárias com quem temos parceria. Os gatos adoptados já adultos, são entregues esterilizados.

Quais são as localidades onde actua a vossa associação?

Embora a nossa sede seja no Porto, temos uma área de acção mais centralizada no Concelho de Vila Nova de Gaia, pois é uma região onde pouco foi feito a este nível. Existem imensas carências e muitas colónias de animais abandonados.

Sócios da associação têm descontos no hotel para gatos.
– Maria Irene Reis

Por quantas pessoas é constituído actualmente?

Neste momento somos onze pessoas e contamos também com o apoio de alguns beneméritos que nos oferecem alimentos e areia.

Há possibilidade de outras pessoas aderirem ao vosso projecto, como voluntários, por exemplo?

Claro que sim, toda a ajuda é bem-vinda especialmente como FATs. O nosso abrigo é muito pequeno e temos dificuldade em alojar os animais enquanto esperam pela adopção.

É possível tornar-se sócio da Associação Saquetas de Rua?

Sim, basta que para isso seja preenchida uma proposta de sócio. O valor das quotas é de três euros por mês, valor este que é usado na aquisição de alimentos e cuidados veterinários dos animais que ajudamos.

Esta é a nossa principal fonte de financiamento e ainda somos muito poucos e basicamente constituídos pelos membros da direcção. Apelamos à generosidade das pessoas para que nos ajudem a ajudar os que não têm um lar.

As autarquias seriam um bom exemplo se o dinheiro utilizado na construção dos centros [de reabilitação animal] fosse usado para a esterilização dos animais de rua.
– Maria Irene Reis

A associação é simultaneamente uma associação e um hotel para gatos? Também têm serviços de petsitting?

A Associação e o Hotel são entidades independentes, embora haja uma parceria entre ambos, e o “hotel” seja o maior benemérito da associação, ajudando com uma parte dos seus lucros, oferecendo algumas estadias e dando descontos a sócios da associação, bem como, facultando uma parte das suas instalações para abrigo dos animais acolhidos pela associação.

O Hotel para Gatos é um serviço de CatSitting (petsitting só para gatos) que tem um espaço pensado e criado, tendo em vista todos os requisitos dos gatos, de forma a oferecer conforto e segurança a todos eles. É um serviço de petsitting que além de desenvolver a sua actividade na casa dos donos dos animais, também tem as suas instalações.

Os três pilares da Campanha de esterilização são:

  1. Os canis municipais devem esterilizar obrigatoriamente todos os animais que dão em adopção;
  2. As Câmaras devem celebrar protocolos com as associações de defesa animal que actuam no concelho para a esterilização dos animais abandonados que estas recolhem;
  3. As Câmaras devem proporcionar aos munícipes com recursos limitados a esterilização gratuita dos animais que possuem.

O que acha que falta para combater o abandono dos animais e para evitar que existam cada vez mais gatos nas ruas? Acha que faltam medidas por parte das autarquias, por parte de outras entidades?

Este assunto é muito polémico e daria para falar durante horas… Obviamente que temos falta de apoio por parte das autarquias e outras entidades. Mesmo com o nosso contacto e imensos pedidos, nada fazem para ajudar as associações. Não temos qualquer tipo de subsídios para alimentação, nem ajuda nas esterilizações.

Algumas autarquias vangloriam-se por criarem Centros de Reabilitação Animal que custam verdadeiras fortunas e não passam de canis com melhor aspecto. Os animais que têm o azar de irem para lá têm um prazo máximo de uma semana para serem adoptados ou são eutanasiados. É incrível e escandaloso isto acontecer em pleno século XXI.

Seriam um bom exemplo se o dinheiro utilizado na construção dos centros fosse usado para a esterilização dos animais de rua. Aí sim, o nº de animais nas ruas seria cada vez menor e seriamos comparados com países civilizados, pois o grau de civilização de um país mede-se pela forma como tratam os seus animais.

Pertenço a dois grandes grupos que estão a tentar resolver estas lacunas: Campanha de Esterilização de Animais Abandonados e Partido Pelos Animais.

Relativamente ao abandono poderemos resolver a situação com hotéis com preços acessíveis e boas campanhas de sensibilização.

Esta entrevista foi publicada na Edição nº16 da Revista Mundo dos Animais, em Maio de 2010.

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