Entrevista às Fundadoras do Projecto Ajuda Animal

Projecto Ajuda Animal

Maria Luísa Lencastre com um dos seus animais de estimação

É extremamente gratificante conseguirmos uma boa família que garante o bem-estar de um animal que tenhamos para adopção.
– Maria Luísa Lencastre

Ajuda particular no combate ao abandono

Num país onde o número de animais abandonados é cada vez maior, são muitos os grupos particulares que se juntam em prole de duas causas comum: evitar o abandono e promover adopções responsáveis dos que já foram deixados para trás pelos seus donos.

O Projecto Ajuda Animal, do Porto, é um destes exemplos. A dirigi-lo, estão três pessoas que partilham o amor pelos animais. Sónia Zuzarte, Ana Silva e Maria Luísa Lencastre contam ao Mundo dos Animais como tudo começou e como pretendem continuar a fazer a diferença.

Projecto Ajuda Animal

Sónia Zuzarte, mentora do projecto / fotomontagem

Mundo dos Animais: Como e quando começou o Projecto Ajuda Animal?

Projecto Ajuda Animal – Sónia Zuzarte: O Projecto Ajuda Animal teve a sua origem há cerca de dois anos, tendo como principal objectivo angariar ração para várias associações, esterilizar e fornecer tratamento a animais que se encontravam a viver na rua. Sendo apenas constituído por mim, Sónia Zuzarte.

Contudo, em Março deste ano necessitei de ajuda para capturar e recolher uma ninhada de cachorros que se encontravam num descampado na Senhora da Hora, onde obtive apenas uma única resposta duma pessoa. A partir daí, comecei a trabalhar em conjunto com a Ana Silva e fomos recolhendo, esterilizando, tratando animais de rua ou de pessoas sem ou com pouquíssimas, possibilidades financeiras.

Neste momento, os objectivos mudaram um pouco. Pretendemos continuar a esterilizar e a cuidar de animais de rua, recolhendo-os quando necessário e sempre que possível, resgatar animais maltratados, abandonados ou dos canis municipais, etc, mas para isso, lutamos para encontrar um local que possa ser o nosso abrigo definitivo. O principal é manter sempre todas as condições e cuidados que os nossos protegidos merecem.

Neste momento estão envolvidas directamente cerca de 9 pessoas, mas temos já vários voluntários que nos ajudam com muito boa vontade.

Projecto Ajuda Animal

Ana Silva, do Projecto Ajuda Animal

Como definem o Projecto Ajuda Animal?

Sónia Zuzarte e Ana Silva: O nosso projecto é, nada mais nada menos, um grupo de pessoas que possuem os mesmos gostos / interesses tendo o mesmo objectivo, que é ajudar os animais.

Até ao momento, quantos animais já resgataram / ajudaram?

Sónia Zuzarte e Ana Silva: É difícil de atribuir um número exacto. Foram vários os animais que precisaram de ajuda e que tinham ou ganharam um lar; foram e são vários os animais que constituem colónias e matilhas errantes que cuidamos e são imensos cães e gatos (mais de 200 animais) que temos sob a nossa guarda. Trata-se de um trabalho diário e contínuo…

Não sendo uma associação e, por isso, não tendo sócios, as pessoas são solidárias e ajudam com donativos para as causas que defendem?

Sónia Zuzarte e Ana Silva: Sim, a maioria das pessoas conhece o nosso trabalho – algumas das pessoas que formam o projecto, o que é uma mais-valia para depositar em nós plena confiança e sendo assim, ajudando-nos doando ração, ou outros bens essenciais para os animais ou até mesmo monetariamente.

Qual é o principal foco do vosso trabalho?

Sónia Zuzarte e Ana Silva: Focamo-nos principalmente nos animais errantes, tentando controlar o número elevado através da esterilização e fornecendo alimento. Mas também nos animais que são abandonados, deixados na rua como se dum saco de lixo se tratasse para algum responsável da recolha do lixo o levasse… Sem esquecer os que esperam no canil por um anjo protector ou pelo último suspiro… Resumindo, são os animais que fazem com que o nosso projecto faça sentido e que nos dão forças para lutar para que estes tenham uma vida melhor, mais digna, para que sejam felizes.

Há possibilidades de voluntariado no vosso projecto? Quem quiser ajudar, de alguma forma, como o pode fazer?

Sónia Zuzarte: Todas as pessoas podem ajudar-nos de diversas formas, seja através de doações em géneros ou monetárias, seja participando nas nossas iniciativas, seja ajudando na loja e no futuro, ajudando no terreno. Neste momento, estamos a criar um álbum com os nossos protegidos onde qualquer pessoa pode apadrinhar um animal e a novidade, é que damos a possibilidade do padrinho / madrinha poder conviver com o seu afilhado, por exemplo leva-lo a passear num dia de fim-de-semana.

Como o local onde os animais se encontram é emprestado e as pessoas não se querem expor, é uma boa forma das pessoas terem contacto com os nossos meninos. Para este efeito, podem contactar-nos; existem sempre necessidades.

As medidas para evitar o abandono são pura e simplesmente o não adoptar.
– Maria Luísa Lencastre

Projecto Ajuda Animal

Loja solidária no Brasília, no Porto

Quais são os vossos principais objectivos para 2012?

Maria Luísa Lencastre: São vários. Inicialmente desejamos conseguir manter o espaço que temos arrendado como Loja [no Shopping Center Brasília, Loja 227 – Fase nova, Piso 1, Porto], para funcionar como gabinete de atendimento e de apoio à nossa causa. As verbas da loja são muito importantes para o Projecto Ajuda Animal.

Outros objectivos prendem-se em dar “forma” a diversas parcerias. Temos sido contactadas por diversas entidades / instituições que se mostram disponíveis para nos ajudarem das mais diversas formas. Teremos de colocar por escrito e em forma de compromisso – termos de responsabilidade – estas preciosas ajudas que vão desde o apoio logístico a consultas, alimentos, voluntariado, etc. Também temos necessidade de construir um sítio na Internet. Como sabemos, nos dias de hoje, esta ferramenta é quase que vital para que este tipo de iniciativas obtenham o sucesso.

Um terreno é também vital para nós! Como será evidente, trata-se de um objectivo mais exigente devido ao facto de não termos verbas que nos proporcionem “conforto” para esta responsabilidade. Acredito que somos todas pró-activas e, embora com algumas limitações de “tempo”, estaremos a desenvolver estratégias para que, em breve, este “espaço” nos surja.

Com a crise, está ainda mais complicado o combate ao abandono, visto que muitas pessoas deixam de ter condições para ter os seus animais. Que medidas sugere que sejam tomadas para evitar ou minorar os efeitos do abandono nesta altura?

Maria Luísa Lencastre: Bom, para mim, um animal quando chega a nossa casa, passa a fazer parte da família. Desta forma, como se compreenderá, não é “descartável”, nunca!

O meu apelo junto de pessoas que, na verdade, estão com enormes dificuldades para conseguirem manter o seu animal de estimação (se é mesmo, mesmo impossível) o que devem fazer é recorrer a pessoas amigas a fim de perguntarem se conseguem ajudar com a doação de ração, de trinca, de vitaminas, para que os donos consigam ter o seu animal junto deles. Se os donos em questão, forem pessoas com saúde e com idade passível de trabalhar, também poderão fazer duas a 3 horas por semana de ajuda junto dessa pessoa que vai arcar com a responsabilidade do bem-estar do animal e, desta forma, fica realizada (paga) a troca de auxílio.

Assim, para situações de donos responsáveis e que amam e respeitam os seus animais, já lancei uma hipótese de solução mas, existem mais; nomeadamente: pedir a um familiar ou amigo para tratar do animal ao longo da semana e, nos fins-de-semana, regressa a sua casa; outra é a de esse amigo ou amiga, ficar com esse animal; outra é recorrer às associações; outra é recorrer aos veterinários e pedir ajuda até para a divulgação de adopção.

Agora o que não pode acontecer nunca é abandonar! Não pode ser. Só pessoas muitíssimo irresponsáveis e muitíssimo cruéis e sem coração nem dignidade podem abandonar um animal.

Sobre medidas para evitar o abandono… As medidas são, pura e simplesmente o não adoptar. A adopção não pode ser um sinal de moda, implica saber pensar, saber quais as implicações que estão subjacentes a esse acto.

Projecto Ajuda Animal

Maria (à esquerda) e Max (à direita), à espera de dono

Quais os apelos mais urgentes que têm actualmente em mãos?

Maria Luísa Lencastre: São vários os casos. Talvez mais prementes são as necessidades de visitas ao veterinário, quer para tratamentos e vacinações, quer para esterilizações. Também temos pedidos de comida para cães e para gatos. Estes actos / ajudas exigem dinheiro, exigem disponibilidade para se ir buscar os animais, levar ao veterinário, pagar ao veterinário, meter gasolina, limpar o carro…

E, sempre a mesma situação que se mantém… adopção! Esta é a situação que muito nos preocupa. Os espaços / terrenos deveriam ser apenas passageiros e não locais para o animal ficar até ao final da sua vida. O melhor momento é quando se consegue uma boa família que garante o sustento e bem-estar de um animal que temos para adoptar. É extremamente gratificante.

O que distingue o vosso trabalho do trabalho realizado por uma associação?

Maria Luísa Lencastre: Alguns aspectos, nomeadamente o facto de sermos um grupo bastante independente e liberal, em que os elementos se articulam muito bem e que não aguardam pela votação dos associados ou do pagamento das suas quotas. Estes aspectos dão-nos logo uma margem de acção bastante interessante e célere nas nossas acções.

Conseguimos fazer o que uma Associação faz, mas vamos mais além.

Uma palavra/expressão para quem abandona. Um conselho para quem não tem mais condições para manter o seu animal de estimação, mas que não o quer deixar. Uma palavra para quem trabalha em prole dos animais.

Maria Luísa Lencastre:

  1. Quem abandona: pessoa ignorante, cruel e irresponsável. Se deseja uma só palavra, escolho crueldade.
  2. Pedir ajuda!
  3. Dignidade! Pura vocação para dar voz e dar rosto a quem não tem voz nem tem rosto. Outra palavra: amor.

Esta entrevista foi publicada na Edição nº22 da Revista Mundo dos Animais, em Dezembro de 2011.

 

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