Entrevista a Ricardo Silva, Aquariofilista

Entrevista a Ricardo Silva, Aquáriofilista

Ricardo Silva, Aquáriofilista

A arte de “fazer a cama” aos peixes

Aos 10 anos apaixonou-se pelo mundo dos peixes e dos aquários. Tudo começou com um peixe dourado até que actualmente tem em casa cerca de 70 destes animais – e já teve 700. Esta é a história de uma das muitas pessoas, denominadas aquariofilistas, que “fazem a cama” aos peixes.

O Mundo dos Animais falou com Ricardo Silva, que nos explica um pouco sobre esta actividade e sobre os cuidados a ter com estes animais.

Mundo dos Animais: Quando nasceu a sua paixão por Aquariofilia?

Ricardo Silva: Em miúdo, lembro-me que tinha 10 anos, quando numa feira situada onde vivia os meus pais ofereceram-me um tradicional “globo de vidro”, com um peixinho dourado. Farto de ver o meu peixe correr maratonas aquáticas em círculos, resolvi comprar, no Natal, um aquário maior que ainda hoje o tenho.

A partir daí, nunca mais “parei” de ter peixes, até que aos doze anos montei o meu primeiro aquário de água quente e, consciente, digo que foi o início de uma caminhada longa e desgastante, mas deveras gratificante pelas várias visualizações que nos proporcionam.

Quantos peixes tem em sua casa?

Bem, hoje tenho poucos, devido a uma reestruturação no meu fishroom, mas deve rondar entre várias espécies, cerca de 70 animais, mas já mantive de uma só vez mais de 650 / 700. Resolvi, há cerca de 3 meses, começar a fazer a reestruturação, não só para proporcionar melhores condições, mas também para poupar tempo em manutenção.

Como descreve a Aquariofilia?

Para mim é difícil descrever ou adjectivar, tento inserir-me nela mantendo espécies menus comuns e é sempre uma luta que, felizmente, tenho sempre conseguido vencer, quer em termos de qualidade de vida dos peixes, como na sua manutenção e reprodução. Invisto em novas espécies, no entanto se fosse para resumir em duas palavras… simplesmente fantástico.

Quais são as regras básicas para se ter um aquário em casa?

Tenho um amigo que há uns anitos me disse uma frase que me marcou muito: “Nós só lhes fazemos a cama”.

Desde aí, cada aquário que monto é com base nessa simples frase.

Acho que regras não existem, existe sim o respeito que somos obrigados a ter pelos animais. Talvez a criação de uma colónia de bactérias, ao que chamamos ciclo de azoto, seja o mais importante no início, depois, basta mantermos os parâmetros da água estáveis e tentar, ao máximo, recriar o habitat natural deles, fazendo-os sentir em casa.

Quais são, na sua opinião, os principais erros de manutenção de aquários cometidos e que levam à não sobrevivência dos peixes?

Para além de colocar peixes no mesmo dia que a água, o que é o erro mais comum, cometem-se outros erros tentando manter peixes numa água da zona que, em termos de parâmetros, como o ph ou a dureza de carbonatos, são totalmente opostos. Torna-se complicado por vezes, manter a água em níveis estáveis, por isso, mais vale mantermos peixes que se adaptem à água da nossa torneira.

Qual o melhor sítio da casa para ter um aquário?

Penso que qualquer sítio é bom desde que não esteja exposto à luz directa do sol, pois excesso de luz provoca o aparecimento de algas, por vezes difíceis de controlar.

Quais os custos médios para se ter um aquário de água quente com as condições ideais?

Vai sempre depender do clima da zona, claro que está que, em aquários de água quente que, como se sabe, é aquecida por termostatos, quanto mais frio for a zona mais tempos estarão ligados, aumentando assim o custo da electricidade na factura mensal.

Falando por mim, tenho dois aquários em casa, o seu equipamento tem um total de 500W, e aumentou cerca de 15€ a factura mensal. Porém, no fishroom, mantenho cerca de 15 aquários de momento, com cerca de 5000W em equipamento e a factura mensal ronda uma média de 50€. Isto porque o calor mantém-se na insolação, os termostatos disparam pouco, usando mais a temperatura ambiente.

Já vi peixes [de água fria] com mais de 20 anos.
– Ricardo Silva

Uma pessoa interessada em adquirir um aquário encontra facilmente locais especializados em Portugal para o fazer e se aconselhar? O que recomendaria a um iniciante?

Por norma sim, existem várias lojas, tanto físicas como virtuais, onde existem pessoas especializadas que podem ajudar iniciantes. No entanto, aconselho a lerem bastante, há também bastantes lojistas que ao invés de ajudar, se for preciso enganam, tudo a troco de dinheiro. Com bastante leitura, torna-se difícil ser enganado.

Qual a esperança (se há) média de vida de um peixe de água quente e qual a esperança média de vida de um peixe de água fria?

Água fria não é de forma alguma o meu forte, mas já vi peixes com mais de 20 anos.

Quanto à água quente, depende das condições. Tenho um amigo no Brasil, que não consegue manter Mikrogeophagus ramirezis mais de 6 meses e o meu casal já faz 2 anos, já tendo sido pais e avós.

Guppys por exemplo, morrem com a mesma velocidade com que nascem, mas apostava entre os 9 e os 12 meses. Temos também por exemplo os Discus, que podem atingir os 15 anos. Depende de muitos factores e do peixe.

Cabe-nos a nós a missão de tornar os peixes resistentes.
– Ricardo Silva

Quais são as espécies de peixes mais frágeis e quais as que duram mais tempo?

Bem, dadas as condições ideais, não creio que existam espécies frágeis. Obviamente se mantivermos níveis elevados, sendo tóxicos, qualquer peixe é frágil, por isso cabe-nos a nós a missão de os tornar resistentes. No entanto, o mercado faz com que haja reprodução em massa, mantendo peixes na “engorda”, o que faz com que cresçam mais depressa, tendo o metabolismo acelerado, por diversos factores, incluindo temperaturas na casa dos 30º C.

A temperatura ambiente de casa prejudica os peixes de água fria?

Penso que sim. Tendo em conta o clima quente, a água vai aquecer sem dúvida nenhuma, no entanto, penso que vai fazer com que acelere o metabolismo aos peixes e cresçam mais depressa.

São usadas com frequência, ventoinhas das fontes da alimentação dos computadores, como sistema de refrigeração.

Existem peixes “anti-sociais” que não se dão com outras espécies?

Peixes anti-sociais penso que não, existem sim mais agressivos, maiores e carnívoros, que têm de estar convenientemente acompanhados. Temos o exemplo do óscar, que tudo o que lhe caiba na boca desaparece.

Principalmente peixes da família dos ciclídeos, tornam-se agressivos devido a lutas por território, acasalamento ou até mesmo comida, mas não são anti-sociais.

Acha que em Portugal existe um interesse (e também um mercado) direccionado para estes animais?

Penso que cada vez mais a aquariofilia está presente tanto no mercado de venda como no de procura. Felizmente, o mercado de venda percebe que a compra está cada vez mais exigente, fazendo importações com uma significativa regularidade.

Tem referências do mundo da aquariofilia? Autores de livros, autores de um blogue sobre o assunto…

É complicado, existem tantos… Existe por exemplo Don Conkels nos Estados Unidos, Stendker na Alemanha, Wayne NG. em Hong Kong, Tony Tan em Inglaterra… existem muitos, cada um com a sua experiência, cada um com a sua espécie, mas todos muito bons criadores.

Esta entrevista foi publicada na Edição nº17 da Revista Mundo dos Animais, em Outubro de 2010.

Tópicos: Entrevistas, Aquariofilia e Peixes Ornamentais, Peixes, Animais de Estimação, Artigos em Destaque