O Gato Preto: História, Lendas e Superstições do Mais Belo dos Felinos

História, lendas e superstições dos gatos pretos

Fotografia original: Robert Couse-Baker

Um gato preto a atravessar o meu caminho significa que o animal está a ir para algum lado.
— Groucho Marx

70% dos gatos abandonados são pretos. Os números foram partilhados pela RSPCA, baseados em 1.000 gatos abandonados ao seu cuidado em 2014.

A principal causa apontada é a dificuldade dos donos em tirar fotografias com eles*. Numa sociedade dominada pela exposição nas redes sociais e pelas selfies, ter um gato que parece sempre a silhueta de um gato, não parece cativar.

O problema estende-se aos nossos amigos caninos e nas associações e abrigos já têm um nome, “síndrome do cão negro“. É bastante mais difícil** conseguir uma adoção para um animal desta cor.

Algumas associações lançaram campanhas específicas para ajudar os gatos pretos.

Criaram programas especiais de acolhimento para estes gatos (de forma a reduzir as eutanásias, que se estima cinco vezes superior a outras cores), promoveram a adoção destes gatos nas Black Fridays (Sextas-feiras Negras), propagaram a ideia de que o preto também está na moda, retiraram as taxas de adoção e contrataram fotógrafos para mostrar a verdadeira beleza destes animais.

Também foram criados dias especiais para celebrar estes felinos, como o dia da apreciação do gato preto (17 de Agosto) e o dia do gato preto (27 de Outubro).

Mas o fenómeno com os gatos pretos vai muito mais além de uma simples questão fotográfica.

Apesar dos gatos pretos serem diferentes apenas na cor do pêlo, por algum motivo originaram fortes e sérias emoções nas pessoas, tendo sido determinantes na história dos gatos domésticos.

As superstições ainda estão muito vivas na nossa sociedade e os gatos pretos acabam por representar um enigma para muitas pessoas, que chegam a temê-los de forma irracional.

Podemos não saber o que deu origem a uma superstição, mas a partir do momento em que ganha raízes culturais, a tendência é para a respeitar.

Ignorá-la pode parecer um desafio ao destino.

Conteúdos:

A história do gato preto

Gato do antigo Egito no Museu Nacional de Singapura

Gato do antigo Egito no Museu Nacional de Singapura
Fotografia: _paVan_

Para percebermos quando começaram as boas e más sortes associadas ao gato preto, temos de embarcar numa viagem com séculos (aliás milénios) de história, pelas raízes de várias culturas e religiões.

No antigo Egito, cerca de 3.000 a.C., os gatos eram vistos como seres divinos e venerados. Matar um gato era considerado um crime capital. Bastet era uma importante deusa da mitologia egípcia e assumia a forma de um gato. Os egípcios acreditavam que Bastet os favorecia se mantivessem um gato preto em casa.

Na Pérsia, os gatos também eram venerados. Existia a crença de que matar um gato preto era matar um espírito amigo, cujo propósito era fazer companhia ao Homem durante a sua passagem pela Terra.

Na mitologia Celta, uma fada tomou a forma de um gato preto. Acreditava-se que esta fada, chamada Cat Sith, tinha a habilidade de roubar a alma das pessoas mortas antes que os deuses as pudessem reclamar.

Esta crença fez com que os corpos dos falecidos fossem vigiados dia e noite para os proteger até ao funeral. Os escoceses até empregavam técnicas, como utilizar catnip (sim!) e saltar de um lado para o outro, para supostamente assustar a fada felina.

Diz-se ainda que Freya, a deusa do amor da mitologia nórdica, tinha como animais favoritos os gatos. Segundo a mitologia, a carroça da deusa era puxada por gatos, cujo pêlo era mais negro do que o céu noturno.

Os gatos pretos gozavam, geralmente, de muito boa reputação junto das religiões pagãs. Tal terá contribuído para a sua queda perante a ascensão da Igreja Católica na Idade Média, quando começaram a surgir as superstições e os mitos que ligavam estes gatos a bruxaria e demónios.

Estas superstições viriam a dar origem a sacrifícios de gatos pretos em larga escala, queimados vivos em fogueiras, afogados ou atirados do topo das muralhas.

A origem das superstições

Não se sabe ao certo qual a origem dessas superstições e o porquê de associarem os gatos pretos a tudo o que fosse maligno.

Mas existem algumas pistas.

Antes demais, o estilo de vida dos gatos não lhes foi abonatório na chamada Idade das Trevas, o termo que melhor define a Idade Média.

Os hábitos noturnos, o comportamento algo enigmático, olhos brilhantes na escuridão e o caminhar silencioso faziam dos gatos criaturas suspeitas numa sociedade já de si suspeita de tudo o que mexia.

As crenças religiosas suplantaram em larga escala o conhecimento científico e até supostos trabalhos sérios sobre história natural afirmavam que os gatos (referidos como bestas) eram perigosos para o corpo e a alma. Foi Edward Topsel quem o escreveu, para referência.

Os gatos pretos, em particular, tinham a capacidade de passar praticamente despercebidos durante a noite. Ora, não era esse um dom perfeito para espiar os devotos e executar os planos do demónio?

Perseguição medieval

Gatos pretos associados à prática de bruxaria

Ilustração do séc. XVII associando os gatos às bruxas

A perseguição medieval ao gato preto terá começado no século XIII.

O Papa Gregório IX, em 1233, emitiu uma bula papal chamada Vox in Rama, que os historiadores acreditam ter sido o primeiro documento oficial da Igreja a condenar o gato preto. Nela, estes gatos são vistos como a incarnação de Satanás e o Papa dá a sua bênção à tortura e morte destes felinos.

Os Papas Inocêncio VII (1339-1406) e VIII (1432-1492) deram seguimento e continuaram a instruir inquisidores a queimarem os gatos vivos juntamente com as alegadas bruxas, nas fogueiras do Santo Ofício.

Aparentemente, a única possível escapatória de um gato preto era possuir uma mancha branca no pêlo, em qualquer lugar do corpo — um sinal dos anjos a indicar que aquele gato em particular não devia ser sacrificado.

Para o agravamento da situação contribuiu e muito o aparecimento da peste negra, que começou a dizimar a Europa no século XIV.

As pessoas, aterrorizadas e impotentes contra a epidemia, atribuíram a doença à ira de Deus. Para se redimirem e voltarem às Suas boas graças, sacrificavam mulheres acusadas de bruxaria e os respetivos gatos, especialmente os de pêlo negro.

Aliás, ter um gato preto em casa ou alimentar um na rua era prova suficiente em como aquela mulher era uma feiticeira. A ajuda animal era uma atividade bem perigosa naquela altura.

O extermínio dos gatos acabou por agravar ainda mais uma situação já de si caótica. Sem predadores naturais, a população de ratazanas proliferou e contribuiu para que a peste negra afetasse ainda mais pessoas. A doença era transmitida ao ser-humano pelas pulgas que as ratazanas transportavam.

A epidemia acabaria por matar 75 milhões de pessoas, cerca de metade da população europeia e um terço da população mundial naquela época.

Lenda do gato preto de Kidwelly no País de Gales

Fotografia: Black Cat Rescue

Uma lenda reza que na cidade de Kidwelly, no País de Gales, após ter sido devastada pela peste negra, o primeiro ser vivo encontrado era um gato preto. Hoje em dia, o gato preto é a mascote tradicional da cidade.

Bruxas que se transformavam em gatos pretos

A crença de que as bruxas tinham a capacidade de se transformar em gatos, passando assim despercebidas, pode ter tido origem numa lenda de Lincolnshire, Inglaterra.

Segundo reza a lenda, na década de 1560, pai e filho estavam a caminhar numa noite sem luar, quando se cruzaram com um gato preto.

Não tendo nada mais inteligente para fazer, decidiram arremessar pedras contra o animal (certas coisas parece que nunca mudam) e atingiram-no na pata esquerda. O gato, ferido, procurou refúgio no interior de uma casa que na altura se suspeitava pertencer a uma bruxa.

No dia seguinte, os dois cruzaram-se no mercado com a mulher que morava naquela casa. A mulher estava a mancar da perna esquerda e apresentava outros ferimentos… que os dois acharam ser mais que uma coincidência.

A partir desse dia, passou-se a acreditar que as bruxas se conseguiam transformar em gatos pretos durante a noite. Como calcula, não ajudou nem as pobres mulheres, nem os pobres gatos.

Da Europa para a América

Gatos pretos associados à bruxaria

Ilustração de uma bruxa e o seu gato, na revista Weird Tales (Setembro de 1941)

Os primeiros colonos ingleses que se estabeleceram no território que viria a ser os Estados Unidos, eram grandes devotos da religião cristã (essencialmente calvinistas e puritanos).

Estes colonos levaram com eles as suspeitas de tudo o que pudesse estar associado ás forças do mal, que já tinha marcado violentamente a Europa ocidental.

Consideravam igualmente os gatos pretos criaturas demoníacas e companheiros das bruxas. Qualquer pessoa que fosse apanhada com um, era severamente punida. Ou mesmo morta, caso fosse mulher.

A crença de que as bruxas se podiam converter em gatos pretos era central entre os puritanos, durante a famosa caça ás bruxas de Salem, Massachusetts, no século XVII.

Sortes diferentes

Os mesmos (supostos) poderes sobrenaturais dos gatos pretos não eram sempre mal vistos. Bem pelo contrário.

O monarca Carlos I de Inglaterra, no século XVII, achava que o seu gato preto era um talismã da sorte e até colocou guardas em permanência a proteger o Real felino.

Segundo reza a lenda, no dia em que o pequeno felino morreu, o monarca lamentou que a sua sorte na vida tivesse acabado ali. Curiosamente, foi preso e acusado de traição logo no dia seguinte, o que levou à sua execução pública e uma abolição temporária da monarquia.

O gato mais rico do mundo

Fotografia: Julie Daniels

Existem gatos pretos bastante sortudos na verdade. Tommaso, um gato preto italiano, é nada mais nada menos que o gato mais rico do mundo. Herdou da sua dona, Maria Assunta, uma fortuna estimada em 13 milhões de dólares (cerca de 11,8 milhões de euros ou 41 milhões e meio de reais ao câmbio atual).

Os piratas do século XVIII acreditavam que as panterinhas poderiam trazer diferentes tipos de sorte.

Se o gato viesse na direção de uma pessoa, essa pessoa ia ter má sorte; se o gato se afastasse na direção contrária, então levaria a má sorte com ele.

Quanto aos barcos, caso um gato preto entrasse num barco mas voltasse para trás, esse barco estaria condenado a afundar-se na viagem seguinte.

Durante vários séculos, os marinheiros pareceram ter uma preferência por gatos pretos como “gato de navio”, pois trariam melhor sorte. As mulheres dos pescadores também gostavam de ter um gato preto em casa, na esperança que a presença deles ajudasse a proteger os maridos em alto mar.

Blackie, um gato de navio a ser cumprimentado por Winston Churchill

Fotografia: Horton (Capt), War Office official photographer / Wikimedia Commons

É longa a história dos gatos de navio. Já os antigos egípcios levavam gatos nas suas travessias pelo rio Nilo e foi através de barcos fenícios que os gatos foram introduzidos na Europa, por volta de 900 a.C. Segundo uma descoberta realizada este ano, também os Vikings se faziam acompanhar por gatos nas suas expedições marítimas entre os séculos VIII e XI.

Mas avançando alguns séculos no tempo, alguns gatos, notoriamente pretos, marcaram o seu lugar na história marítima.

Blackie, na fotografia acima a ser cumprimentado pelo primeiro ministro britânico Winston Churchill, em 1941, era o gato de navio do couraçado HMS Prince of Wales.

Ficou famoso por essa fotografia, inclusive renomeado Churchill, e sobreviveria ainda nesse ano quando o navio afundou perante um ataque aéreo japonês. Na altura, foi levado junto com os sobreviventes para Singapura, mas no ano seguinte, quando os sobreviventes foram evacuados, não conseguiram encontrá-lo e não mais se soube dele.

Peebles, o gato de navio do HMS Western Isles

Fotografia: Ministry of Information Photo Division Photographer / Wikimedia Commons

Peebles, na fotografia a brincar com o capitão de fragata R. H. Palmer, era também um gato preto da época da Segunda Guerra Mundial. Gato de navio do HMS Western Isles, era muito querido por toda a tripulação e tinha por hábito cumprimentar as pessoas com um “aperto” de mão.

Tiddles, gato de navio de vários porta-aviões da Marinha Real Britânica

Fotografia: Parnall, C H (Lt), Royal Navy official photographer / Wikimedia Commons

Tiddles, na fotografia a bordo do HMS Victorious, foi gato de navio em vários porta-aviões da Marinha Real Britânica, tendo nascido inclusive a bordo de um. Durante o seu tempo de serviço, viajou mais de 30 mil milhas (48 mil quilómetros).

Superstições que resistem ao tempo

Superstições com gatos pretos

Fotografia: Hernán Piñera

Como já vimos, o folclore que rodeia os gatos pretos é muito variado de cultura para cultura.

Nuns casos, são vistos de forma positiva e trazedores de boa sorte. Noutros, má sorte e uma série de problemas. Em comum, quase todas associam-nos a todo o tipo de fenómenos sobrenaturais, atribuindo-lhes uma aura de magia e misticismo difícil de combater.

Felizmente, a perseguição promovida pela Igreja Católica faz parte do passado. Mas outras crenças e superstições mantém-se vivas nos dias de hoje, ainda que cada vez mais reduzidas.

Atualmente no Reino Unido, algumas pessoas ainda acreditam que terão sorte na vida se o gato vier na sua direção, e má sorte se for na direção oposta.

Já os escoceses acreditam que o aparecimento de um gato preto em casa é sinal de prosperidade.

No Japão, os gatos pretos são geralmente considerados como um sinal de boa sorte. Por exemplo, uma senhora solteira que possua um gato preto em casa, está destinada a ter muitos pretendentes.

Na maioria dos países da Europa ocidental, acredita-se que um gato preto dá azar e pode até ser um prenúncio de morte, especialmente quando se cruza no caminho de uma pessoa.

Na Irlanda, alguns acreditam que um gato preto a cruzar o seu caminho numa noite de luar, é prenúncio de uma epidemia.

Em Itália, um gato preto deitado na cama de uma pessoa doente pode significar a morte dessa pessoa. Já ouvir um gato preto a espirrar é um bom presságio (pelo menos dá para rir, salvo seja).

Na Alemanha, até é especificado o que acontece quando um gato preto se cruza no caminho de alguém: se o felino vem da direita para a esquerda, é um mau presságio; mas se vier da esquerda para a direita, melhores tempos virão.

Superstições com gatos pretos

Fotografia: CatDancing

Na Índia e na Roménia, ainda é muito vivo o medo de que um gato preto se cruze no caminho. Estes dois casos são interessantes porque, ao contrário da Europa ocidental, a perseguição da Idade Média aos gatos pretos não teve lugar em nenhum destes países. A origem da superstição aqui é desconhecida.

Na Sumatra, quando a seca é longa e é precisa chuva, existe um ritual pouco abonatório para os gatos pretos. Depois de apanharem um, o gato é atirado para o rio e forçado a nadar até à exaustão. Quando exausto, a população deixa-o sair da água mas o ritual não acaba aqui. O gato é então perseguido em terra, enquanto mulheres lhe atiram (mais) água para cima e também sobre elas próprias. Isto é suposto trazer chuva.

Um gambler que esteja a viajar na direção de um casino, deve voltar para trás caso se cruze com um gato preto.

Diz-se ainda que sonhar com um gato preto é um sinal de receio em confiar na própria intuição. Para quem acreditar que os gatos pretos dão usar, o sonho poderia indicar a presença de algo indesejado na vida.

Algumas associações de proteção animal limitam as adoções de gatos pretos durante o Halloween. O principal fator de risco é o “uso descartável” dos animais como parte da decoração, sendo abandonados novamente assim que o período festivo termina.

Existe também o receio de que os gatos sejam torturados e/ou sacrificados em certos rituais. Algumas associações já presenciaram histórias estranhas, como encontrar um gato preto morto numa espécie de altar, num parque de estacionamento, ou ter uma senhora a pedir desesperadamente um gato preto, pois precisava de pelos dele para que lhe deixassem de extorquir dinheiro (a associação até deu os pelos, mas não o gato, e a senhora recompensou-os com um donativo de 50 euros).

Recomenda-se que todos os animais fiquem dentro de casa na noite de Halloween, devido ao barulho e agitação.

Existem muitas outras superstições relacionadas com os felinos de cor negra, tais como:

  • Dar três vezes nome a um gato preto confunde o diabo;
  • Nas Midlands, em Inglaterra, dar um gato preto como presente de casamento trará boa sorte à noiva;
  • Em Yorkshire, também em Inglaterra, é considerado boa sorte ter um gato preto, mas má sorte ter um a cruzar-se no caminho (pergunto-me como conseguem conciliar as duas coisas);
  • Um gato preto pode proteger uma casa dos maus espíritos e energias negativas;
  • Um cortejo fúnebre que se encontre com um gato preto prevê a morte de um dos familiares do defunto;
  • Encontrar um pêlo branco num gato preto dá boa sorte — se não o tirar.

Raças de gatos pretos

Gatos de Bombaím

Fotografia: Wikimedia Commons

Os gatos pretos podem ter ou não uma raça específica. A maioria pertence ao segundo grupo, mas existem 22 raças de gatos que podem ter uma pelagem toda negra.

Apenas uma das raças, bombaim (na foto), é exclusivamente preta.

O gato de bombaím é uma raça de pêlo curto, que teve origem em cruzamentos de gato birmanês com gato de pelo curto americano.

A criadora Nikki Horner, do estado norte-americano do Kentucky, procurou criar uma raça de gato que se parecesse com uma pantera negra, o que lhe deu origem. A primeira tentativa, em 1958, falhou, mas foi bem sucedida em 1965 na segunda tentativa.

A raça bombaím foi oficialmente reconhecida em 1970 pela Cat Fanciers’ Association e em 1979 pela The International Cat Association.

As outras 21 raças que podem incluir gatos totalmente pretos são:

  • American Wirehair;
  • Bobtail Americano;
  • Bobtail Japonês;
  • Bosques da Noruega (ou Norueguês da Floresta);
  • Cornish Rex;
  • Curl Americano;
  • Devon Rex;
  • Exótico;
  • Gato Angorá;
  • Gato de pelo curto americano;
  • Gato de pelo curto inglês;
  • LaPerm;
  • Maine Coon;
  • Manx;
  • Oriental;
  • Persa;
  • Ragamuffin;
  • Scottish Fold;
  • Selkirk Rex;
  • Siberiano;
  • Sphynx.
Café japonês exclusivamente com gatos pretos

Fotografia: Robb Satterwhite / AnimalCafes.com

Sabia que existe um café exclusivamente de gatos pretos? Chama-se Nekobiyaka e situa-se no Japão, perto da estação de comboios de Himeji, na província de Hyōgo.

Os últimos a rir

História, lendas e superstições dos gatos pretos

Admito que no título deste artigo possa ter sido algo controverso. O Mais Belo. Todos os gatos são belos, fantásticos em todas as suas personalidades e emoções, ainda que as panterinhas (gatos pretos) e as panteronas (leopardos e jaguares pretos) me cativem de forma particular.

Será que têm mesmo uma aura enigmática?

Mas deixando os gostos pessoais de lado e passando para o lado da ciência, é verdade que os gatos pretos parecem ter mesmo uma vantagem genética sobre os outros gatos.

Gatos pretos, bem como as panteras negras, são animais melanísticos. Melanismo é essencialmente o oposto de albinismo. Enquanto um animal albino não tem o pigmento que dá cor à pele (melanina) e fica branco, um animal melanístico tem esse pigmento em excesso e naturalmente fica preto.

O excesso de melanina nestes gatos também lhes confere, na maioria das vezes, olhos amarelos / dourados, ocasionalmente verdes e muito raramente azuis.

Ora a mutação que leva ao excesso de pigmento destes felinos, pertence à mesma família genética que os genes conhecidos por aumentar a resistência do ser-humano a doenças como o HIV / AIDS.

Pesquisas realizadas nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, apontam para que os gatos pretos sejam assim mais resistentes a doenças como o vírus da imunodeficiência felina, ou FIV, em comparação com os outros gatos.

Além de lhes conferir uma imunidade superior, podem até no futuro ajudarem a melhorar o nosso próprio sistema imunitário.

História, lendas e superstições — conclusão

História, lendas e superstições dos gatos pretos

Fotografia: Mark Richards

Deixamos-lhe aqui um sumário com 11 pontos essenciais sobre os gatos pretos:

  1. Os gatos pretos são os gatos mais abandonados, mais eutanasiados e geralmente mais difíceis de dar para adoção;
  2. Na história, estes gatos tanto foram adorados como odiados por diferentes culturas;
  3. No antigo Egito e na Pérsia os gatos eram venerados e em geral mantinham muito boa reputação entre as religiões pagãs;
  4. A má reputação dos gatos pretos terá tido origem nos hábitos noturnos, olhos brilhantes e capacidade de passar despercebidos durante a noite;
  5. No século XIII o Papa Gregório IX oficializou a perseguição religiosa aos gatos pretos, associando-os com o diabo e incentivando à sua tortura e morte;
  6. Com o aparecimento da peste negra na Europa, a perseguição aos gatos pretos aumentou consideravelmente e muitos foram queimados vivos em fogueiras, juntamente com as suas donas, acusadas de praticar bruxaria;
  7. Os colonos ingleses que se estabeleceram no território que daria origem aos Estados Unidos, levaram com eles estas superstições e repetiram a queima das alegadas bruxas e os seus gatos, como no famoso caso de Salem;
  8. Os piratas, marinheiros e pescadores consideravam que o gato preto dava sorte. Durante séculos era frequente os navios terem um “gato de navio” e o preto era a escolha favorita;
  9. Ainda existem várias superstições relacionadas com o gato preto, geralmente por se cruzar no caminho de alguém, o que numas culturas é considerado azar e noutras, sorte;
  10. Existem 22 raças de gatos que podem ser totalmente pretos. Uma delas, a raça bombaím, é exclusivamente preta;
  11. A cor do pêlo pode não ser a única coisa que os diferencia de outros gatos. Geneticamente, parecem ter uma maior imunidade contra doenças como a FIV.

Agora, é tempo de ir mimar a sua panterinha e ouvir a belíssima melodia do ronron!

*Fotografar um gato preto pode ser um pouco mais difícil, mas perfeitamente possível. Procure escolher um fundo minimalista, para o gato sobressair, e posicione-o para uma fonte de luz natural (que não o Sol direto). O ajuste de brilho e contraste da câmara podem ser muito úteis. Leia mais aqui.

**A adoção mais difícil de cães e gatos pretos não é consensual. Num estudo publicado pela ASPCA, parecem contrariar esta ideia, com taxas elevadas de adoção destes animais, avançando no entanto que as também altas taxas de admissão (existem mais animais pretos nos abrigos do que qualquer outra cor) podem explicar os números. Uma outra análise sobre este estudo pode ser lida aqui.

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