Gatos, Newton e a Lei da Gravitação Universal

Os gatos gravitam em torno à cozinha como rochas gravitam à gravidade.
— Terry Pratchett

Tinha estado um dia muito agradável. O entardecer era quente quanto baste para tornar confortável o serão após o jantar. Um jovem obstinado, nas terras de Sua Majestade, contemplava pela milésima noite consecutiva os mistérios do Universo, quando um corpo celeste desceu algures pelo firmamento e o atingiu mesmo no meio da testa. Um grunhido de dor seguido de algumas obscenidades com sotaque excessivamente britânico soltaram-se de imediato.

Newton e a maçã mais famosa da história

Gato cientista

Isaac Purrr Mewton
Via: Know Your Meme

Poderá não ter sido exatamente assim que o então jovem Isaac Newton descobriu a gravidade, mas o famoso cientista seria capaz de jurar que aquele amaldiçoado calhau não seria simplesmente uma maçã, caída da árvore que se erguia ali ao lado.

Aquela maçã, que Newton não comeu por respeito à lagartinha que fazia dela casa, viria a revolucionar a história da física.

Newton compreendeu, enquanto saboreava o seu chá, que a força que puxava a maçã para o solo era a mesma força que mantinha a Lua em órbita da Terra e esta em órbita do Sol. Gravidade.

O resto, como se costuma dizer, é história.

Mas não é essa história que nos traz aqui. Isto é uma página sobre animais. Newton poderia ter simplesmente prestado atenção a uns peludinhos ronronadores que já conheciam os mistérios da gravidade há muito tempo.

Gatos e a Lei da Gravitação Universal

Gato desafia a gravidade

Explica isto, Newton.
Via Daisy the Curly Cat

Desde o início da história felina que os gatos vem a realizar experiências com as leis da física, em particular com a gravidade.

E como eles adoram isso.

Funciona mais ou menos da seguinte forma: tudo o que está em cima, deve vir parar cá abaixo. E eles dedicam uma boa parte do seu tempo à indispensável tarefa de criar desordem no Universo. Ou na sua casa.

Assim:

Ou assim:

Se tem um gato, muito provavelmente ele já fez isso. Descobriu um qualquer objeto em cima de uma qualquer superfície e o colocou em queda livre em direção ao centro da Terra, uma viagem apenas interrompida pelo chão de sua casa.

Como verdadeiros cientistas que são, repetem a experiência várias vezes, utilizando diferentes objetos, superfícies e horas do dia ou especialmente da noite quando você estiver a dormir.

Gatos conduzem experiências gravitacionais

Tudo o que está em cima, pode cair. Vai cair.

Sir Isaac Newton ou Albert Einstein ficariam orgulhosos.

A inevitabilidade da asneira

Quando um gato está deprimido:

Bartender: O que vai querer?
Gato: Um shot de rum
*Bartender serve o shot*
*Gato derruba lentamente o copo para o cão*
Gato: Outro.
— @PhilJamesson

Na verdade, o seu gato tem os seus motivos para não ficar com as patinhas quietas. Não pense que ele está apenas a tentar irritá-lo, embora esse também fosse um motivo válido.

Em primeiro lugar, é uma forma de os gatos aprenderem como funciona o mundo em seu redor. O que acontece se eu tocar nisto? O que acontece se eu carregar naquele botão que diz ‘destruir o planeta’? Vamos experimentar!

A compreensão de como os objetos se movem, o que acontece quando tocados, que barulho fazem, com que velocidade caem, entre outros fatores, são úteis para qualquer animal se orientar no mundo e sobreviver nele.

Em segundo, temos o instinto de caça que tão bem acompanha todos os felinos. Tudo o que se mexe pode ser caçado. E tudo o que não se mexe… bom, deve ser colocado a mexer para eventualmente também ser caçado, sobretudo se tiver a brilhante ideia de começar a correr.

Um copo de vidro certamente não começa a correr quando leva a palmadinha do destino, embora o gato seja capaz de jurar que ele se multiplica quando chega lá abaixo.

É certo que após algumas experiências o gato aprende que aqueles objetos não são presas que mereçam ser caçadas, muito menos comidas. Mas é então que entra um terceiro motivo, que pode ser o mais prevalente de todos eles. Ele chama a sua atenção.

Todas as vezes que o gato fez com que um objeto voasse, ele chamou a sua atenção. Mesmo que seja por maus motivos, é atenção, e ele pode estar a necessitar disso. Portanto, a receita para chamar a sua atenção de novo parece bastante simples.

Uma forma de evitar que todos os seus objetos tenham eventualmente de conhecer a textura do seu soalho, é brincar com o seu gato.

Dedicar-lhe a atenção necessária e deixar brinquedos à disposição, para que ele se possa divertir naqueles momentos de maior aborrecimento segundo a escala felina. Afinal, o seu gato não se consegue divertir a ver Netflix como você, então ele precisa de outros hobbies.

Pense numa criança que recebeu um lápis de cor, mas não recebeu papel. Diga olá à parede do quarto!
— Jackson Galaxy, especialista em comportamento felino.

Se o seu gato não tem brinquedos, está na altura de comprar alguns. E se ele tem, mas continua a preferir mandar coisas pelo ar, talvez os brinquedos antigos precisem de ser substituídos por novos desafios.

Se mesmo assim a curiosidade do gato for mais forte, não culpe o felino: a inevitabilidade da asneira é tão certa quanto a gravidade.

As experiências felinas com as leis da física

P: O que têm os gatos e os cometas em comum?
R: Ambos têm caudas, e só fazem o que lhes apetece.
— David Levy, astrónomo que descobriu o cometa Shoemaker-Levy 9.

Derrubar lentamente, um por um, os seus pertences favoritos, está longe de ser a única experiência dos gatos nas leis da física.

Na verdade, os gatos são cientistas. Não acredita?

Gatos e a inércia

Gatos: A respeitar as leis da física desde há milhares de anos.

Na década de 1970, um gato chamado Chester realizou aquilo que poucos seres humanos alguma vez o farão durante a sua mísera e efémera existência: ser autor de um artigo cientifico numa prestigiada publicação. Você já o fez? Não. Nem eu.

Veja como ele ficou orgulhoso:

Gato académico FDC Willard

Aquele momento em que o seu artigo é publicado numa revista prestigiada

Estávamos em Novembro de 1975 quando J. H. Hetherington, um professor de física na Universidade Estadual de Michigan, escreveu um artigo sobre o comportamento dos átomos em diversas temperaturas.

Antes de o submeter à Physical Review Letters, o professor reparou que ao longo do artigo tinha escrito repetidamente o pronome “nós” em vez de “eu”, ainda que ele fosse o único autor.

Eh…

Em vez de editar o texto, Hetherington adicionou o seu companheiro felino, o gato Chester, como co-autor. Até lhe deu um pseudónimo todo pomposo para assinar o artigo: F.D.C. Willard. As duas primeiras iniciais dizem respeito ao nome científico do gato, Felis domesticus (naquela época, uma vez que o nome correto atualmente é Felis catus); C é o seu nome Chester e Willard era o seu excelentíssimo senhor seu pai (do gato).

E se acha que a assinatura era uma forma de expressão, não. O gato assinou mesmo o artigo:

Gato académico FDC Willard

Crédito: Google Books (Screenshot)

Ok: dificilmente o gato Chester compreenderia o comportamento dos átomos.

Mas é factual que os gatos têm noções básicas de física.

Uma equipa de investigação da Universidade de Quioto, no Japão, liderada por Saho Takagi (que tem um gato), tem desvendado esses profundos conhecimentos meow-científicos.

Depois de estabelecerem que os gatos são capazes de prever a presença de objetos invisíveis, baseados apenas na audição, um novo estudo de 2016 acrescentou novos dados.

Gato fascinado

Fascinante.

Foram apresentados tubos a trinta gatos. Alguns tubos continham uma bolinha dentro deles, que os gatos não conseguiam ver, enquanto os restantes tubos estavam vazios. Ao abanar os tubos com a bolinha, esta fazia barulho. Após serem abanados, os tubos eram virados ao contrário para a bola (nos que a tinham) cair.

Os gatos prestaram mais atenção aos tubos que faziam barulho quando abanados, e previram que seriam esses os tubos que deixariam cair um objeto (a bolinha) quando revirados. Esse comportamento sugere que os gatos utilizaram as leis da física para perceberem a presença (ou ausência) de um objeto baseado apenas no que ouviram, prevendo quando eles iam aparecer (quando o tubo era virado).

Os gatos também perceberam que algo estava errado quando os investigadores adicionaram um truque, ao criarem uma situação incongruente: tubos que não faziam barulho, mas deixavam cair uma bolinha, e vice-versa. Nesses casos, os gatos ficaram a olhar fixamente para os tubos, como se percebessem que aquela situação ia contra a sua lógica de como o mundo funciona.

Este estudo pode ser visto como evidência de como os gatos têm um conhecimento rudimentar da gravidade.
— Saho Takagi

Os Gatos e a Terra Plana

Caros defensores da Terra Plana, vocês estão errados.

Da próxima vez que tiver de dar nome a um gato, Isaac Mewton pode ser bem adequado. O felino sabe mais do que você julga.

Bónus: As Leis da Física Felinas
(autor desconhecido)

Primeira Lei de Newton da Inércia do Gato
Um gato em repouso tende a permanecer em repouso, exceto por motivos de força maior — a abertura de uma lata de comida ou um rato a correr.

Primeira Lei de Newton do Movimento do Gato
Um gato mover-se-á em linha reta, a menos que exista uma razão realmente boa para mudar de direção.

Lei de Newton da Aceleração Felina
Um gato continua a acelerar a uma velocidade constante até que precise de parar.

Primeira Lei de Newton da Rejeição do Comprimido
Qualquer comprimido dado a um gato tem um potencial energético para atingir a velocidade de escape.

Lei da Concentração de Massa de Newton
A massa de um gato aumenta em proporção direta ao conforto do colo que ela ocupa.

Lei de Newton da Manipulação da Gravidade Felina
Os gatos têm a habilidade de manipular a gravidade, formando áreas localizadas de forte atração gravitacional. Isso provoca a sensação de um gato se tornar mais pesado à medida que ocupa um colo ou a cama. Esse é um efeito linear em que a gravidade aumenta a uma taxa constante ao longo do tempo.

Primeira Lei de Conservação de Energia (Lei 1 da Termodinâmica Felina)
Os gatos sabem que a energia não pode ser criada nem destruída, logo farão uso do mínimo de energia possível.

Segunda Lei de Conservação de Energia (Lei 2 da Termodinâmica Felina)
Os gatos sabem que a energia só pode ser armazenada através de umas boas horas de sono.

Terceira Lei de Conservação de Energia (Lei 3 da Termodinâmica Felina)
Se a taxa de absorção de energia exceder a taxa máxima de armazenamento da mesma, a diferença será emitida sobre a forma de ronron.

Lei de Boyle da Termodinâmica do Gato
O calor flui de um corpo mais quente para um corpo mais frio, exceto no caso do gato, em que todo o calor flui para o corpo do gato.

Lei de Kirk do Magnetismo do Gato
A roupa de cor escura atrai pelos de gato de cor clara em proporção direta à escuridão do tecido. O inverso também é verdadeiro.

Primeira Lei de Fanner do Alongamento do Gato (Alongamento Associado à Soneca)
Um gato se estenderá até a um tamanho proporcional ao tamanho da soneca que acabou de ser tomada.

Segunda Lei de Fanner do Alongamento do Gato (Alongamento Não-Associado à Soneca)
O comprimento de um gato estendido é proporcional à temperatura. O nariz junto à cauda (enrolado) significa “frio”, enquanto que totalmente esticado significa “calor”. Existem graduações infinitas nesta escala de alongamento / temperatura.

Lei de Young da Soneca do Gato
Todos os gatos devem dormir com pessoas sempre que possível.

Corolário de Kent à Lei de Young da Soneca do Gato
O gato deve selecionar uma posição que cause o máximo desconforto às pessoas envolvidas.

Lei de Holmes da Elongação Vertical do Gato
Um gato pode esticar o seu corpo o suficiente para alcançar o topo de qualquer superfície que tenha algo remotamente interessante nela.

Corolário de Burt à Lei de Holmes da Elongação Vertical do Gato
O gato pode exceder o seu comprimento normal se o item de interesse for comestível.

Lei de Burt da Assistência à Mesa de Jantar
Os gatos assistirão a todas as refeições da família em que algo saboroso for servido.

Lei de Burt da Audição Seletiva
Um gato pode ouvir uma lata de atum sendo aberta a quilómetro e meio de distância, mas não consegue ouvir um simples comando a um metro dele.

Lei de Euler da Configuração do Tapete
Quando um gato está presente, nenhum tapete pode permanecer no seu estado naturalmente plano durante muito tempo.

Lei de Ohm da Resistência à Obediência
A resistência de um gato em fazer qualquer coisa varia em proporção inversa ao desejo de um humano em que ele faça qualquer coisa.

Lei de Henry da Observação do Frigorífico
Se um gato observar um frigorífico por tempo suficiente, alguém virá e tirará algo de bom para comer.

Revisão da Lei de Henry da Observação do Frigorífico
Se um gato observar um frigorífico, um fogão, um armário de cozinha ou um microondas por tempo suficiente, alguém virá e tirará algo de bom para comer.

Adição de Partington à Revisão da Lei de Henry da Observação do Frigorífico
Se um gato ficar diretamente atrás de um ser humano na cozinha, sua cauda será pisada. O humano, então, oferecerá ao gato algo de bom para comer como forma de se desculpar.

Lei de Einstein da Atração ao Cobertor Elétrico
Ligue um cobertor elétrico e um gato vai saltar para cima da cama à velocidade da luz.

Lei de Einstein do Contínuo Espaço-Tempo como Aplicável a Felinos
Dado tempo suficiente, um gato vai pousar em praticamente qualquer espaço.

Lei de Cheung da Procura de Conforto Aleatório
Um gato sempre procurará, e geralmente assumirá como seu, o local mais confortável em qualquer lugar.

Lei de Collings do Desinteresse do Gato
O nível de desinteresse do gato irá variar em proporção inversa à quantidade de esforço despendida por um ser humano na tentativa de lhe despertar interesse.

Lei de Collings do Constrangimento do Gato
A irritação de um gato aumenta em proporção direta com o seu constrangimento multiplicado pela quantidade de riso humano (Quantidade de riso = Volume x Duração2).

Lei de Collings do Vómito Felino
A frequência com que um gato vomita numa dada superfície é diretamente proporcional à dificuldade da limpeza dessa mesma superfície e também diretamente proporcional à probabilidade de a superfície adquirir manchas e odores permanentes.

Modificação de Cheung à Lei de Collings do Vómito Felino
A frequência com que um gato vomita, urina ou faz diarreia em uma determinada superfície é diretamente proporcional à dificuldade da limpeza dessa mesma superfície e também diretamente proporcional à probabilidade de a superfície adquirir manchas e odores permanentes.

Lei de Cheung da Reposição de Mobília
O desejo de um gato de arranhar a mobília é diretamente proporcional ao custo dessa mobília.

Lei de Cheung ao Pouso do Gato
Um gato irá sempre pousar no lugar mais suave possível.

Segunda Lei de Cheung ao Pouso do Gato
Um gato irá sempre aterrar nos pés dele, exceto se você estiver a desembalar as compras, caso em que ele pousará nos seus pés.

Lei de Schrodinger da Invisibilidade do Gato
Os gatos pensam que não o podem ver, então você não pode vê-los.

Lei Acidentalmente Descoberta de Schrodinger da Ocupação de Objetos
Todos os sacos e caixas numa determinado lugar devem conter um gato no seu interior dentro do primeiro nanosegundo possível.

Lei de Heisenberg da Probabilidade do Gato (O Princípio da Incerteza de Heisenberg Como Aplicado aos Gatos)
Não é possível prever onde um gato realmente está, apenas a probabilidade de onde “pode” estar. Assim que você souber onde ele está, ele mover-se-á.

Teorema de Pitágoras da Separação Equidistante do Felino
Todos os gatos num determinado lugar estarão localizados em pontos equidistantes um do outro e equidistantes do centro da divisão. O tempo necessário para alcançar o espaço equidistante é proporcional ao número de gatos presentes.

Regra de Pratchett do Xadrez do Gato
Como regra geral, os gatos não são obedientes.

Lei de Aristóteles do Deslocamento de Fluídos
Um gato imerso em leite deslocará o seu próprio volume, subtraindo a quantidade de leite consumida.

Lei do Consumo de Leite (Capacitação Felina)
Um gato vai beber o seu peso em leite, ao quadrado, apenas para lhe mostrar que pode. Após um tempo adequado, ele exercerá a Modificação de Cheung à Lei de Collings do Vómito Felino.

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