Lobo-Guará: Uma Relíquia do Passado com Futuro Incerto

Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus)

Fotografia original: Ltshears / Wikimedia Commons

O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é um magnífico animal nativo da América do Sul, o maior canídeo selvagem do continente e o mais alto em todo o mundo.

Resistiu a diversas eras glaciares em plena era do gelo e quando o Pleistoceno estava a chegar ao fim, levando com ele inúmeras espécies em mais um evento de extinção em massa, foi o único dos grandes canídeos a sobreviver e chegar até nós.

Trata-se de um animal enigmático, que tem lobo no nome, mas não é um lobo, que parece uma raposa, mas não é uma raposa.

Uma relíquia e um animal fantástico, mas nem por isso livre do perigo de extinção. Conheça-o melhor ao longo deste artigo.

Características do lobo-guará

O lobo-guará é também conhecido apenas como guará, ou aguará, aguaraçu, lobo-de-crina, lobo-de-juba (tradução literal do nome comum em inglês, maned wolf) e ainda lobo-vermelho.

Ao olhar para um lobo-guará, saltam à vista as patas particularmente longas e negras, como se estivessem calçadas com meias, que lhes permite observar tudo em redor por cima da erva alta.

São também características as orelhas grandes, a pelagem vermelho dourada e uma espécie de crina negra na nuca, que lhe dá origem ao já referido nome em inglês.

Um adulto mede cerca de um metro de altura e pesa entre 20 e 25 quilos.

Estes lobos são animais solitários, ao contrário dos verdadeiros lobos que vivem em alcateias com uma estrutura social complexa. Muito tímido, o lobo-guará é largamente inofensivo para o ser humano, ao contrário do que a opinião popular por vezes transmite.

Vivem entre 12 a 16 anos, tendo em conta observações feitas em cativeiro.

Uma relíquia do passado

Ilustração de 1877 do lobo-guará

Ilustração de 1877 do lobo-guará no Proceedings of the Zoological Society of London
Via Scientific Illustration

A história evolutiva do lobo-guará faz deste um animal verdadeiramente único e especial.

O lobo-guará não é um lobo, não é raposa, um coiote, chacal ou mabeco. Trata-se de um canídeo distinto e a única espécie conhecida do seu género (Chryso­cyon).

Sobreviveu à extinção que se estendeu pela transição do Pleistoceno para o Holoceno, há quase 12 mil anos e que levou animais seus contemporâneos, que nós só conhecemos pelos seus incríveis fósseis, como mamutes, mastodontes e tigres-dentes-de-sabre.

Um estudo publicado em 2003 sobre a anatomia do cérebro de vários canídeos, relacionou o lobo-guará à também já extinta raposa-das-falkland (Dusicyon australis) e às raposas-sul-americanas (género Lycalopex).

Curiosamente, se o lobo-guará não é um lobo, as raposas-sul-americanas também não são verdadeiras raposas — mas que piada teria os nomes baterem certo?

Ilustração do lobo-guará

Ilustração do lobo-guará de 1978, por Piro Cozzaglio, no livro Rare and Beautiful Animals de Francesco Salvadori e Pier Florio
Fotografia: PINKÉ / Flickr

Mais tarde, em 2009, um novo estudo baseado na análise de ADN, demonstrou que os canídeos do género Dusicyon (a raposa-das-falkland e o seu primo continental, Dusicyon avus, extinto por volta do ano 1.000 a.C.) são os parentes mais próximos do lobo-guará.

Esse estudo mostrou também que o lobo-guará e a raposa-das-falkland terão divergido do seu ancestral comum há cerca de 6,7 milhões de anos.

Uma verdadeira relíquia do passado que temos a honra de conhecer no presente.

Onde vive e o que come

O lobo-guará habita florestas, savanas e pântanos desde o nordeste do Brasil (no Cerrado, um dos maiores hot-spots de biodiversidade do mundo) até ao Paraguai a sul e Peru a oeste. Também é encontrado em pequeno habitats na Argentina e na Bolívia.

O Uruguai fazia parte do seu habitat, mas acredita-se que tenha sido extinto naquele país durante o século XIX.

Estes lobos são omnívoros, com uma alimentação bastante variada. Caçam pequenos mamíferos, pássaros, répteis e insetos e também se alimentam de ovos, fruta e vegetação. A fruta, ou mais precisamente o fruto da lobeira (Solanum lycocarpum), representa quase 50% da sua dieta.

Caçam principalmente durante o anoitecer, noite e amanhecer e passam a maior parte do dia a descansar. No entanto, em dias frios, de céu nublado ou após uma chuva, é possível ver o lobo-guará ativo a qualquer hora, pelo que a sua atividade parece estar mais relacionada com a temperatura e humidade do que com hábitos noturnos.

O lobo-guará caça sempre sozinho.

A reprodução e os lobinhos negros

Filhote de lobo-guará nascido em cativeiro

Os filhotes de lobo-guará nascem pretinhos e até esta legenda está a negrito
Fotografia: Paul Caster / Little Rock Zoo

O lobo-guará é um animal monogâmico, ou seja, os casais formam-se geralmente para toda a vida, embora só vivam juntos durante a época de reprodução.

Como animais solitários que são, vivem sozinhos e praticamente independentes um do outro durante a maior parte do ano, mas ainda assim partilham e defendem o mesmo território, com cerca de 25 a 50 quilómetros quadrados.

A época de reprodução decorre entre Abril e Junho.

As fêmeas dão à luz entre um a quatro lobinhos por ano, nascidos entre Junho e Setembro, depois de uma gestação de cerca de 65 dias. Cada bebé pesa cerca de 500 gramas quando nasce.

Os bebés lobinhos veem ao mundo com uma pelagem quase toda negra, bem diferente da dos pais. A coloração normal vai sendo adquirida ao longo dos meses seguintes.

Filhote de lobo-guará

Filhote de lobo-guará com pouco mais de dois meses
Fotografia: Zoo Liberec

Antes pensava-se que a fêmea tomava sozinha conta dos bebés, mas observações em cativeiro mostram os machos frequentemente a cuidar dos filhotes, lamber-lhes o pêlo, defendê-los e alimentá-los.

Estes lobinhos atingem a maturidade sexual por volta do ano de idade e dispersam-se do território onde nasceram, embora não costumem acasalar antes dos dois anos.

Futuro incerto

Lobo-guará em extinção

Fotografia: TvdMost / Flickr

O lobo-guará tem poucos inimigos naturais. Praticamente só os grandes felinos lhe podem fazer frente, como jaguares ou pumas.

Mas, tal como em tantos outros animais, a expansão humana veio trazer uma ameaça que não conheceram até um passado recente: destruição de habitat, particularmente para conversão em áreas agrícolas.

São animais que necessitam de espaços amplos e ininterruptos (para não perderem contacto com o par de acasalamento) e só no Cerrado perderam cerca de 80% do habitat original.

Além da destruição de habitat, estes lobos são mortos nas estradas em atropelamentos e também por pessoas em busca de partes dos seus corpos que acreditam ser poderosos amuletos.

O lobo-guará não goza de grande reputação junto dos fazendeiros, que temem ataques aos animais domésticos. O lobo-guará é de facto um dos maiores animais da fauna sul-americana e tem por isso uma presença capaz de intimidar. No entanto, os seus dentes e mandíbulas são demasiado pequenos para caçar grandes animais (um pouco à semelhança do tigre-da-tasmânia).

Ironicamente, o lobo-guará é muito útil a libertar plantações agrícolas de pestes, como coelhos e pequenos roedores dos quais realmente se alimenta.

Dois lobos-guarás

Fotografia: Lallie / Flickr

Outro problema que se sabe afetar os lobos, embora seja incerta a sua gravidade, são as doenças de cães que contraem em contacto com estes, tais como leishmaniose, raiva, cinomose, parvovirose, entre outras.

Na Lista Vermelha da IUCN o lobo-guará está classificado como “quase ameaçado” e no IBAMA (Brasil) como “vulnerável”. O que estas classificações querem dizer é que a espécie não se encontra em risco iminente de extinção, mas esse pode ser o caso se medidas de conservação não forem aplicadas e controladas.

Legalmente, é proibido caçar o lobo-guará em todos os países onde ele habita.

Curiosidades

Curiosidades do lobo-guará

Fotografia: Cloudtail / Flickr

  • O lobo-guará é capaz de rodar as suas grandes orelhas, sensíveis como radares, para ouvir e localizar as presas;
  • Quando se sentem excitados ou ameaçados, a crina negra no pescoço fica com o pêlo todo ereto, o que lhes dá uma aparência mais intimidante;
  • O lobo-guará não utiliza as garras para escavar, mas sim os dentes;
  • A urina do lobo-guará tem um cheiro semelhante ao cannabis. Tal facto já levou as autoridades holandesas ao Zoo de Roterdão em busca de um suposto fumador de erva que não existia;
  • No Brasil, há quem acredite que a vocalização noturna deste lobo prediz mudanças no clima;
  • Também existe uma lenda sobre o lobo-guará ter poderes mágicos no seu olhar, capaz de hipnotizar presas, predadores e até caçadores humanos;
  • O lobo-guará já esteve representado na moeda de 100 cruzeiros, que circulou no Brasil entre 1993 e 1994;
  • A lobeira, fruta de eleição do lobo-guará, recebeu o seu nome precisamente por causa deste animal.

O lobo que não é lobo — conclusão

Como vimos, o lobo-guará é um animal mais especial do que à primeira vista possa aparentar. É uma preciosidade da nossa fauna, que transporta no sangue uma vasta herança genética dos tempos pré-históricos. Um animal com hábitos e características bem peculiares e diferentes de todos os outros canídeos.

Mas é também um animal com futuro incerto. Por ser grande, deixa algum desconforto e receio em quem o vê ao perto, ignorando que na verdade só se alimenta de pequenos animais, muita fruta e é praticamente inofensivo para nós.

Da próxima vez que vir um lobo-guará, não tenha receio. Não está a olhar para um perigo iminente. Está a olhar para uma relíquia do passado que merece o seu espaço preservado no mundo dos animais.

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