O que NÃO se deve fazer na Ajuda Aos Animais

Erros na ajuda aos animais

Extremistas, intolerantes e violentos, três adjetivos frequentemente associados aos amigos dos animais. A generalização peca por si só, porque as pessoas – mesmo numa causa comum – são diferentes entre si. Essa imagem não reflete sequer a maioria dos amigos dos animais.

É, no entanto, uma imagem verdadeira de alguns de “nós”.

Quando fundei o Mundo dos Animais, há 6 anos atrás, juntamente com o meu colega e amigo Carlos Matos, partilhei com ele a ideia da necessidade de mudar mentalidades.

Em primeiro lugar o mais óbvio: as pessoas que abandonavam, maltratavam e eram negligentes para com os animais.

Em segundo lugar o menos óbvio mas de igual forma urgente: as pessoas e os grupos de ajuda aos animais que falhavam (e continuam a falhar) a trabalhar em conjunto e de forma mais profissional pelo objetivo comum a todos nós, que é fazer deste mundo um lugar melhor para os nossos amigos, tenham eles pêlo, escamas, bico, guelras ou várias patas.

Esta não é a primeira vez que escrevo reflexões sobre o assunto. Na devida altura e também devidamente fundamentado, tive oportunidade de expressar a minha opinião sobre os atos desordeiros nas manifestações anti-touradas, sobre a violência psicológica exercida entre vegetarianos e omnívoros, sobre a intolerância perante as opiniões de quem pensa de forma diferente.

A semana passada, pude presenciar mais um episódio de agressividade por parte de um grupo de ajuda animal, que não trouxe benefícios a ninguém – nem pessoas, nem animais – e que mais uma vez demonstrou algumas das razões que levam os “outros” a considerar-nos pessoas radicalistas e com falta de civismo.

A opinião pública é uma das coisas mais importantes que podemos conquistar, para conseguirmos que os animais sejam finalmente tratados com outra dignidade e responsabilidade. A opinião pública é a chave, mas estamos a afastá-la.

Assim, tendo em conta a minha opinião e experiência pessoal ao longo dos últimos anos, bem como alguns maus exemplos que por vezes surgem no nosso meio, reuni alguns pontos que considero importantes sobre o que NÃO se deve fazer na ajuda aos animais:

1. Perder o Civismo

Ser civilizado, moderado e agir de “cabeça fria”, é um dos pilares que pode fazer toda a diferença.

São os atos impulsivos e intolerantes que levam à desordem, à violência física e verbal e ao preconceito negativo que os “outros” têm sobre “nós”.

Se não concorda com a opinião de outra pessoa, pode defender a sua sem que isso implique faltar ao respeito. Nem toda a gente vai concordar consigo, nem toda a gente vai sequer gostar de si. É um facto que temos de aceitar para toda a vida.

2. Dividir para Reinar

Na ajuda aos animais, não existe reino algum. O que existe, é uma quantidade mais pequena do que seria desejável, de pessoas que efetivamente ajudam, quando comparado com o número altíssimo e preocupante de animais que precisam de ajuda.

Usar a bandeira da solidariedade como promoção pessoal, seja perante um possível empregador ou simplesmente perante os amigos, é eticamente reprovável.

Criar divisões entre os poucos que existem, é fragmentar toda a ação e perder potencial.

Não crie mensagens que incentivem à divisão entre grupos e pessoas, como se cada um a agir para seu lado pudesse fazer a diferença – não pode e não faz. Com interesses, divisões e intrigas, quem paga a fatura são mesmo os animais, que estão no meio de um conjunto de forças aos quais são alheios e onde mereciam um pouco mais de nós.

3. Obrigar a Ajudar

Se quer gerar confiança e credibilidade, aborde as pessoas de forma correta e educada.

Sobretudo, não se esqueça que as pessoas são livres de ajudar, ou não. Não pergunte onde e quando uma pessoa vai ajudar, sem antes perguntar à pessoa se quer ajudar.

Além disso, se a pessoa decidir não ajudar, mantenha a postura e por mais que isso lhe custe compreender, lembre-se: ninguém é obrigado a isso.

Vai haver quem ajude o seu grupo, quem não ajude o seu grupo mas ajude os animais noutros lados, e quem não ajude animais de forma nenhuma. Cada um é responsável pelas suas ações e estas ficam com quem as pratica.

4. “Diabolizar” o Ser Humano

Mensagens de ódio à espécie humana – misantropia – não são o melhor cartaz para sermos ouvidos.

Bem sei que muitas mensagens deste género são meros desabafos e que não devem ser levados à letra. Mas o que acontece aqui, é que ao dizermos que temos vergonha da espécie humana ou que os animais são mais importantes do que as pessoas, estamos a cometer o mesmo erro que cometem connosco, e que criticamos quando isso acontece – generalização.

Além de estarmos a dizer mal de nós próprios, o ser humano não é uma “espécie horrível” só porque alguns indivíduos cometerem crimes e atrocidades. A luta pelos animais não é uma luta contra o Homem!

5. Ser Extremista e Radical

Se, numa manifestação ordeira de duas mil pessoas por alguma causa (por exemplo, contra as touradas), meia dúzia de vândalos decidir fazer estragos, os media vão-se focar todos nesse pequeno grupo e passar mais uma vez a ideia de que os amigos dos animais só se sabem manifestar com violência e desordem.

Isto não é nenhuma previsão iluminada da minha parte. É o relato do que já aconteceu várias vezes. E os justos, pagam pelos pecadores. Como bem sabemos. É essa a imagem que queremos associar aos direitos dos animais? Seguramente que não.

Extremismo da Peta

Falando de opções alimentares, fazer campanhas com flyers a apelar agressivamente ao vegetarianismo, transmitindo ideias gráficas sobre quão cruel é comer um prato de carne (como na imagem em cima dirigida pela PETA a crianças nas escolas), é mais um argumento para nos considerarem “malucos”.

Cada um é livre de seguir a dieta que melhor entender e comer carne não significa, de forma alguma, compactuar com irregularidades e métodos desnecessariamente cruéis que se cometem em matadouros ou em embarcações pesqueiras.

A maioria dos amigos dos animais que conheço, come carne naturalmente. Assim como eu me considero, e a como.

6. Não Ter Preparação

Este é um ponto sensível e como tal vou também ter algum cuidado com as palavras. Um dos problemas que identifico nos grupos e associações de ajuda aos animais, é a falta de preparação que existe quando é necessário comunicar para o exterior. Aquilo a que numa empresa se chama de Relações Públicas.

Claro que uma instituição de solidariedade que sobrevive à custa de parcos donativos, não pode pensar em contratar um profissional para uma função que não alimenta bocas nem trata os doentes.

Mas pode, sim, apostar um pouco melhor na preparação daqueles que já fazem parte da associação e que dão a cara, para que todas as oportunidades de transmitir ideias à opinião pública sejam bem aproveitadas.

É frequente vermos num debate televisivo, numa entrevista, etc, que normalmente são sempre as mesmas pessoas das mesmas associações a serem chamadas: o Miguel Moutinho da Animal e os responsáveis da União Zoófila.

Nem uma nem outra são exclusivas no nosso país e também não são mais vezes convidados por capricho. É preciso ver o real motivo: sabem comunicar e conquistaram o seu espaço nos media por mérito próprio.

O Miguel Moutinho, com quem partilho algumas ideias e outras nem por isso, tem uma capacidade de comunicar e transmitir ideias muito acima da média. É provavelmente a pessoa melhor preparada em Portugal, neste momento, para defender argumentos em prol dos animais junto dos órgãos de comunicação social.

As associações e os grupos de ajuda animal ficavam a ganhar se apostassem mais na comunicação. E há situações que, assim, podiam ser evitadas:

  • Pessoas que se deslocam às Associações para ajudar ou adotar e ficam com má impressão das pessoas por quem foram atendidas;
  • Pessoas que fazem donativos e não recebem a devida atenção ou informação, muito menos um incentivo, para continuarem a ajudar;
  • Jornalistas que hesitam em contactar associações e grupos de ajuda por temerem posições radicalizadas em prol dos animais;
  • Associações que não respondem a emails, não providenciam ou não atendem telefones e ficam assim isoladas;
  • Falta de comunicação e diplomacia entre associações, Câmaras Municipais e outras instituições de interesse;
  • Falta de comunicação na Internet onde por vezes (e sem intenção), certos comentários e atitudes deixam a imagem da associação que representam mal vista perante um público numeroso.

Reafirmo que não é preciso contratar pessoas especializadas. As associações são fantásticas em aproveitar e potenciar os poucos recursos de que dispõem. Por isso, também podem potenciar as pessoas que fazem parte.

Um simples plano de comunicação interno entre os elementos de cada associação, com as ideias que devem transmitir, o que se deve fazer ou o que não se deve dizer, era um passo de gigante nesta matéria. Como diz a célebre frase, “à mulher de César não basta ser séria, tem de o parecer”.

Para Concluir

Amigos dos animais

A organização e a união de esforços são passos importantes. Não temos todos de ter as mesmas posições e as mesmas opiniões, mas se todos gostamos dos animais, temos consciência dos problemas atuais e temos vontade em ajudar, não há justificação para se cometerem alguns erros primários que de há muito se cometem.

Os animais agradeceriam uma ação mais coletiva e mais aberta dos seus amigos, sem intrigas, sem maledicência, sem agressividade, sem radicalismo.

Que tal começar já hoje?

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