Os Leões Não São Vegetarianos

Leões não são vegetarianos

Fotografia original: Wikimedia Commons

Este artigo talvez não seja aquilo que estaria à espera de encontrar num site dedicado a animais.

Procuro com ele acrescentar algum sentido de realismo, que muitas vezes e admitindo a minha quota parte de culpa, ocultamos para incutir o interesse pelos animais e pela natureza nas pessoas.

Embora seja um artigo de opinião, aquilo a que vou chamar simplesmente o ciclo da vida é algo que, do meu ponto de vista, precisa de ser abordado de uma forma clara. Por momentos parecemos não saber do que se trata – ou fingir que não sabemos do que se trata.

Por uma questão de transparência e antes de desenvolver o assunto do artigo, quero deixar claro para o leitor o seguinte:

  • Não sou vegetariano, nunca fui, não sei se alguma vez o serei. O meu ponto de vista sobre esse e outros assuntos relacionados pode ser lido detalhadamente num artigo anterior.
  • Sou a favor dos programas educativos e de conservação levados a cabo pelos zoológicos. Não deixo de lhes reconhecer falhas, por vezes graves, mas no geral apoio essa missão.

Também não gosto de ver animais a morrer, muito menos a sofrer, seja lá porque motivo for. Seria estranho gostar, tendo dedicado um terço da minha vida a um projeto que os defende.

Por exemplo, na rubrica “Imagem do dia”, que conta com centenas de imagens, contam-se pelos dedos de uma mão as fotografias que mostram alguma situação entre predador e presa. As que mostram, têm o menor grau de violência possível. Tendo em conta o assunto que estou hoje a abordar, essa opção editorial talvez esteja a ser um erro da minha parte.

Faz parte do dia a dia dos animais e não tem porque não ser representado.

O ciclo da vida, os animais e a natureza que defendemos, é constituído por animais (predadores) que matam outros animais (presas). Surpreendido?

Leões a alimentarem-se

Claro que não.

Os leões não são vegetarianos

E quem fala em leões, fala em qualquer outro animal carnívoro, no qual se incluem todos os felinos, dentro desses e só por exemplo, os nossos gatos em casa.

Os animais carnívoros, como a designação indica, comem carne.

Essa carne, ao contrário do que que queremos pensar, não vem do supermercado. Um pouco à semelhança da água, que também não vem da torneira.

Em ambiente selvagem, as presas nunca têm a sorte (entenda-se) de morrerem de forma quase instantânea com um tiro (por exemplo). No caso dos grandes felinos, geralmente apertam o pescoço das presas com as suas mandíbulas e deixam-nas morrer por estrangulamento.

Outros animais desenvolveram outras técnicas para matar as suas presas.

As pitons, bem como todas as espécies de cobras constritoras, envolvem a presa e contraem-se até a esmagarem.

Animais venenosos, como escorpiões e tantos outros, injetam o veneno nas suas presas que as imobiliza e começa a pré-digerir os seus órgãos internos. Dá para ter uma ideia do sofrimento.

O medo, a fome e a morte estão presentes todos os dias na vida de um animal selvagem.

As girafas não têm nome

Um aspeto comum aos animais que são predados, é o de não terem nome. Ninguém lhes deu um nome. Poderíamos chamá-los de Marius (por exemplo), mas não chamamos.

Não têm nome. E isso parece fazer toda a diferença na forma como avaliamos as suas vidas. Só damos nome aos animais de quem mais gostamos, como aos nossos em casa.

Ser uma girafa (por exemplo) também marca a diferença. Nós adoramos girafas, são animais simpáticos, com uma fisionomia algo improvável mas que lhes conferem uma elegância rara.

São lindas.

E nós temos uma tendência para ignorar animais “feios”. Choca-nos pensar que os pandas podem deixar de existir, mas passamos ao lado de um sapo venenoso cuja existência nos parece ser indiferente. As baleias não podem desaparecer, mas e uma cobra rateira, porque não?

Teria a morte de uma tarântula direito às mesmas reações e petições que a morte de uma girafa?

Qual a diferença entre uma girafa chamada Marius e todos os outros animais, sem nome, que morrem para que aqueles leões se alimentem?

Estes são os animais e esta é a natureza que defendemos. Se a queremos respeitar, é no seu todo, não só a parte que nos parece mais simpática. Quando defendemos os lobos, estamos a proteger animais que também matam outros. Quando defendemos os grandes felinos, idem.

Animais alimentam-se de animais, simplesmente temos de o aceitar.

É o ciclo da vida

Apesar das evidentes referências, este não é um artigo dedicado a um caso em particular, nem um animal em particular, ou um zoo em particular.

Não é um artigo sobre a forma como um péssimo departamento de comunicação / relações públicas, permitiu que um caso destes prosseguisse e tomasse tais proporções.

Não é um artigo sobre terem “organizado” o abate de um animal da forma mais insensata que poderia ter passado pela cabeça de alguém, incluindo uma autópsia à frente a uma assistência composta por crianças.

Não é, acima de tudo, um artigo que desrespeite um animal que tinha todo o direito à vida, como todos os outros têm.

É um artigo sobre o nosso “constrangimento seletivo”. Sobre a nossa posição pouco clara, em que todos os animais são iguais, mas depois uns são mais iguais do que outros. Sobre pensarmos que a carne vem mesmo do supermercado ou que todos os animais vivem em harmonia e a comer vegetais.


Atualização: Infelizmente, o mesmo Zoo decidiu em Março abater quatro leões e perdeu todo o crédito que ainda tinha, numa altura em que as feridas do abate da girafa Marius ainda estavam abertas.

O Zoo de Copenhaga está a desperdiçar a oportunidade de ser útil para a conservação e a espalhar uma péssima imagem sobre os Zoos em geral, afectando todos aqueles que fazem um trabalho bastante positivo pelos animais.

A má conduta deste Zoo em particular não muda a forma como vejo os Jardins Zoológicos, mas, admito que um caso que me parecia apenas resultado de uma reação mediática desproporcional, no caso do abate de uma girafa que serviu para alimentar os leões, parece ser afinal o sintoma de algo mais grave e sem justificação: o Zoo de Copenhaga aparentemente perdeu a noção de qual deve ser o papel de um Zoo.

E o exemplo que estão a dar ás pessoas, não podia ser pior.

Tópicos: Animais em Zoos, Opinião, Conservação