SIM, o Massacre dos Golfinhos no Japão é Diferente

Massacre dos golfinhos em Taiji, Japão

Fotografia original: Sea Shepherd / EPA

Todos os anos somos confrontados com o espetáculo sangrento de Taiji, no Japão, ao observar a matança de milhares de golfinhos. Um assunto sensível e controverso sobre o qual não existem consensos e sobretudo não existem soluções.

Um dos argumentos que leio com maior frequência quando este assunto está em debate, é o de que não existe diferença entre esta matança de golfinhos e o abate de porcos, vacas ou galinhas, uma vez que são todos animais. Defendem que os golfinhos se destinam à alimentação e subsistência da população de Taiji e portanto, se uns são legítimos os outros também têm de o ser.

Neste artigo, demonstro porque motivo – e mesmo partindo do princípio que todos os animais são iguais em direitos – esta caça aos golfinhos é diferente sim. Muito diferente.

Nota: Ao longo do artigo coloco diversas fotografias dos golfinhos em Taiji. Essas fotografias são essenciais para um melhor entendimento da dimensão do que aqui estamos a falar, no entanto, contém animais em sofrimento, feridos e em alguns casos mortos. Se não se sentir preparado, não continue.

Antes de mais, que matança é esta?

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD/EPA

Explicando de uma forma “leve”, esta prática consiste em encurralar os animais em alto mar, desorientá-los, empurrá-los para águas rasas e depois arrastá-los para uma baía longe de olhares alheios. Aqui, grande parte dos animais são mortos e outros são seleccionados para serem vendidos a parques de entretenimento.

Em nome de um negócio brutal, estas pessoas trabalham agressivamente para evitar que alguém consiga filmar ou fotografar o que ali se passa. Cobrem a baía com grandes toldos e encobrem as carcaças para que não seja possível fotografar ou fazer contagens precisas do número de animais mortos. Desenvolvem técnicas para que do exterior da baía seja observada a menor quantidade de “marés vermelhas” possíveis.

Contudo, um crime destas dimensões é impossível de esconder e tem provocado, especialmente nos últimos anos, fortes reações na comunidade internacional. A embaixadora dos Estados Unidos no Japão, Caroline Kennedy condenou a caça aos golfinhos e a artista japonesa Yoko Ono já apelou em carta aberta ao fim desta prática. Dois exemplos recentes entre muitos que se têm feito ouvir.

Não é “só” abate, é mesmo massacre

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

O sofrimento físico e psicológico infligido aos golfinhos é o principal motivo de condenação desta prática. Não estamos a falar simplesmente de pessoas que matam golfinhos. Estamos a falar de algo muito mais grave.

A forma como os golfinhos são – e não há outra forma de o descrever – massacrados e martirizados, foi exposta globalmente através do documentário vencedor de um Óscar «The Cove – A Baía da Vergonha», mas não inibiu os “pescadores” de continuarem a descarregar os instintos mais negros do ser humano nestes pobres animais.

Melissa Sehgal, ativista da Sea Shepherd, descreveu desta forma o massacre à Reuters:

Estes golfinhos são agredidos e empurrados para a baía da matança, onde já chegam com múltiplos ferimentos. Os assassinos passam deliberadamente por cima dos animais com os botes, agridem-nos, prendem-nos em redes para que não possam fugir e só depois os matam.
– Melissa Sehgal

A forma como vão buscar os grupos de golfinhos e os aprisionam antes de os trazer à baía também é macabra. Chocam objetos metálicos, geralmente postes, uns contra os outros debaixo de água, originando barreiras sonoras que confundem e assustam os golfinhos.

Uma vez desorientados, são trazidos para águas mais rasas onde são cercados por redes e deixados durante vários dias à fome, stressados e privados de descanso, até serem finalmente arrastados para a fatídica baía.

Não existe qualquer seleção aqui, as fêmeas grávidas, os juvenis, os bebés, todos recebem o mesmo tratamento bárbaro. Alguns morrem nesta fase. Tendo em conta o que acontece a seguir, arrisco dizer que é preferível.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD/EPA

Quando chega a “hora”, os golfinhos são arrastados para a baía. São espancados, atropelados pelas lanchas e de seguida sujeitos a um cruel processo de seleção, onde três destinos são possíveis:

1. Libertação

Os golfinhos mais pequenos, se tiverem sobrevivido à captura e à fome, são geralmente devolvidos ao mar.

Não, não se trata de algum tipo de piedade por parte dos “pescadores” – um golfinho bebé conta como um indivíduo na quota, mas tem menos carne que um adulto, pelo que dará prejuízo se ficarem com ele.

Infelizmente, a libertação dos golfinhos mais jovens também constitui uma pena de morte para a maioria deles, uma vez que ficam sem progenitores. É muito difícil para um golfinho bebé, órfão, sobreviver sozinho no oceano.

A forma como as embarcações afastam os golfinhos “libertados” chega a ser tão traumática como a captura: são escorraçados enquanto procuram ansiosamente encontrar os seus parentes. Não os voltarão a ver.

2. Cativeiro

Os golfinhos mais “bonitos”, mais raros ou com outros atributos que os treinadores considerem atrativos, são selecionados para vender e passarem o resto das suas vidas em cativeiro, na indústria do entretenimento.

Diversos aquários, em particular no oriente (Japão, China, Dubai, entre outros) são clientes atentos e dispostos a pagar largas quantias por cada um destes animais capturados.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Em cima: Apesar dos esforços das autoridades locais em esconder a baía com toldos, é possível filmar e fotografar estas marés vermelhas, resultantes da morte dos golfinhos.

3. Morte

Aos golfinhos a quem é passada a sentença de morte (os mais “feios” ou com cicatrizes profundas dos espancamentos e das redes que os prendem), são empalados com uma haste de metal espetada até à medula espinal.

A morte é lenta, precedida de paralisia, na qual os animais estão conscientes do que lhes está a acontecer, do que está a acontecer aos seus pares e sem qualquer hipótese de se defenderem.

Carl Safina, autor e professor adjunto da Universidade Stony Brook, descreveu à CNN este método de matança dos golfinhos adotado pelos japoneses a partir de 2010:

O “novo” método para matar golfinhos (supostamente melhorado em relação ao método antigo) provoca tamanho terror e sofrimento que seria considerado ilegal matar vacas desta maneira sob a própria lei japonesa.
– Carl Safina

Melissa Sehgal, ativista da Sea Shepherd, descreve assim:

Demora entre 20 a 30 minutos até que estes golfinhos morram, seja por hemorragia, asfixia ou afogamento, enquanto são arrastados até ao carniceiro.
– Melissa Sehgal

Tratando-se de animais de elevada inteligência e socialmente conscientes, como é comum a todos os cetáceos, o crime torna-se ainda mais bárbaro.

Podia ficar por aqui. Se desse ouvidos às náuseas que só estas descrições me provocaram, ficava.

Mas na tentativa de perceber porque motivo fazem isto aos animais, vamos por um momento colocar de lado a forma como massacram e torturam os golfinhos e vamo-nos tentar focar no suposto objetivo final: a população de Taiji necessita da carne dos golfinhos para se alimentar. Necessita?

É o que vamos analisar de seguida, ponto por ponto.

A carne é tóxica e imprópria para consumo

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

O argumento de que a matança dos golfinhos se justifica pela necessidade de obtenção da carne deles, para consumo da população de Taiji e de outras regiões, cai por terra de uma forma simples: a carne destes golfinho é tóxica.

Os níveis de mercúrio desta carne chegam a ser cinco mil vezes superiores ao permitido pela Organização Mundial de Saúde.

E escusado será dizer que a população de Taiji tem acesso a outros tipos de carne para se alimentar.

Juntando a tudo isso, a maioria dos japoneses nem sequer é apreciadora da carne de golfinho e portanto não a procura.

Não se trata de pobreza nem subsistência

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD/EPA

Em cima: este raro golfinho albino, carinhosamente apelidado pelos ativistas da Sea Shepherd de Angel (anjo) é um juvenil que foi capturado e separado brutalmente da sua mãe, que ficou à sua procura até desaparecer também. Por ser tão raro, foi dos primeiros a ser selecionado para captura em cativeiro.

Os “pescadores” costumam afirmar que são pobres e que necessitam da carne para alimentar as suas famílias.

Não é verdade. Cada golfinho vendido chega a render mais de 200 mil dólares, pelo que estas pessoas podem ser muita coisa… mas não pobres.

A matança não é uma tradição…

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD/EPA

As autoridades japonesas defendem a matança como uma tradição, o que também não é verdade.

De acordo com os registos históricos da própria cidade, editados e publicados em 1979, a história da matança dos golfinhos em Taiji é recente. A primeira caçada registada é de 1933, tendo-se repetido em 1936 e 1944. A atual série de matanças anuais só começou em 1969.

É uma prática com 45 anos e não quase 400 anos, como afirmam. Envolve uma geração e não várias, como insistentemente querem fazer passar para o exterior.

O facto de vários golfinhos serem capturados para serem posteriormente vendidos vivos à indústria do entretenimento, demonstra também que não estamos perante qualquer tradição, mas sim de um negócio.

…e mesmo que fosse!

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

O conceito de tradição não pode ser uma máscara e uma desculpa para justificar tudo.

Diversas tradições foram extintas precisamente por envolverem atos cruéis e eticamente condenáveis, que a sociedade foi afastando à medida que evoluía. Fazer-se algo há muito tempo não o torna imutável. Primeiro somos humanos, depois é que vem as culturas específicas de cada povo ou região.

É precisamente abandonando tradições que já não fazem sentido ou que se podem considerar imorais, que progredimos enquanto seres-humanos racionais e inteligentes.

É importante referir também que apesar deste massacre ocorrer no Japão, não significa de forma alguma que todos os japoneses sejam culpados ou sequer aprovem esta prática. Da mesma forma que grande parte dos portugueses é contra as touradas e não tem culpa que um pequeno grupo de pessoas as continue a realizar.

Erros não justificam outros erros

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Em cima: Um golfinho encontra-se sozinho do lado de fora da rede de captura, junto à sua família que se encontra encurralada. Um dos membros tentou sair, mas ficou entalado na rede e acabou por morrer afogado.

Qualquer ato de violência e crueldade contra animais é condenável. Ninguém aqui é parvo para acreditar que os animais criados para consumo são todos bem tratados, abatidos de forma indolor, que não sentem medo, stress ou angústia. Que não sofrem.

Claro que sofrem.

Mas apesar de ainda se cometerem muitos erros na forma como tratamos os animais globalmente – e isso vai desde a criação em massa de animais para consumo até à destruição de habitats e extinção de espécies, passando por todos os maus-tratos e abandonos que ainda são infligidos a animais de estimação – não se podem usar erros para justificar outros erros.

Não se pode ignorar uma prática cruel, só porque existem outras práticas cruéis no resto do mundo.

Fazê-lo, é diluir o assunto e o foco. Faz-me lembrar a falsa questão de ser mais importante ajudar crianças ou ajudar animais, como abordou bem a Vânia Jesus neste artigo.

Se não podemos defender os golfinhos porque existem porcos enclausurados e sem condições, também nada podemos fazer pelos porcos porque algures existem indivíduos a exterminar tartarugas. Chegaríamos facilmente à conclusão de que, para evitar desigualdades de tratamento e direitos, a única coisa que podíamos fazer… era não fazer nada.

Mas não fazer nada, nada resolve

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: RIC O’BARRY’S DOLPHIN PROJECT

Sim, este massacre tem de ser discutido e debatido. Sim, é diferente de outros casos pelos motivos acima expostos.

E mesmo que não fosse diferente, continuaria a merecer toda a nossa atenção enquanto sociedade.

Não creio que a forma como estes golfinhos são massacrados possa passar de forma indiferente, seja a quem for – exceto, ao que parece, àqueles que o praticam e que o permitem.

Aquelas pessoas estão ali a torturar os animais, a verem o sofrimento deles, olhos nos olhos, envoltos em sangue, e não sentem o mais pequeno pingo de compaixão ou empatia por seres que nos são tão semelhantes.

Isto tem de ser motivo de reflexão profunda acerca do rumo que, enquanto humanidade, estamos a seguir.

E sim, é diferente. É diferente de tudo.

Outras Fotos (conteúdo sensível)

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Dois “pescadores” dentro de água a separar e agredir os golfinhos, antes de serem mortos.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Um dos golfinhos “libertados”, terá de fazer os possíveis para recuperar e sobreviver sem a sua família.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Uma família de golfinhos separada durante a noite. Os membros que ficaram do lado de fora da rede de captura permanecem o mais junto possível dos familiares encurralados, com os quais continuam a comunicar até serem assassinados.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

À medida que o tempo vai passando, os golfinhos que estão encurralados e sem acesso a alimento, começam a ficar agitados e entrar em pânico.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Escondidos por trás de grandes toldos, este é o momento em que o destino nos golfinhos é decidido. Nesta imagem, um treinador está a “avaliar” um golfinho para decidir se vai ser vendido ou esquartejado.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Outro golfinho é empurrado para debaixo dos toldos, onde o seu destino será traçado.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Os golfinhos que tentam escapar acabam frequentemente entalados nas redes, onde morrem afogados.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Este golfinho teve a “ousadia” de fugir. É agredido e trazido de volta para a baía.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Nenhum dos golfinhos presentes nesta imagem foi poupado.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

A captura do bebé albino, que acabou no Museu de Taiji sobre o pretexto de ter sido abandonado pela mãe.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Depois de ter ficado sem o filhote, a mãe do bebé albino chamou por ele até à exaustão. Cerca de 30 minutos depois, mergulhou e não mais voltou a emergir, não se sabendo (embora se possa imaginar) o que terá acontecido.

Massacre de Golfinhos em Taiji, Japão

Foto: SEA SHEPHERD

Golfinho com ferimentos na cabeça após ter sido agredido e, provavelmente, atropelado por alguma lancha.

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