Lucky, o Cãozinho que tinha Perdido a Esperança

Esta história foi escrita por Eleonora Ferreira e fez parte do concurso “O que já fizeste por um animal?” que terminou no dia 18/11/2011. Clique aqui para ver todas as histórias.

Esta é a história verídica do Lucky, um cãozinho que já conheceu o sofrimento causado pelo abandono após um atropelamento.

Lucky

Numa terrível noite de chuva, vento e frio, em Março de 2010, por entre conversas cruzadas ouço alguém dizer que se encontrava um cão atropelado numa valeta e ao que parecia já lá estaria há três dias!

Três dias??

Pensei imediatamente: “como é possível tamanha crueldade?” O cão já estaria neste sofrimento há três dias, debaixo de chuva, vento, frio, a sofrer, sozinho, abandonado à sua pouca sorte, abandonado para morrer numa valeta. Fiquei perplexa com tanta indiferença perante um animal!

Sem mais demoras, dirijo-me ao local onde supostamente estaria o animal. Como era uma via rápida, risco contínuo, chuva que insistia em não parar, várias foram as voltas até o encontrar e, sem desistir, por fim vejo-o! Estava deitado na valeta, apenas levantou a cabeça, olhou para mim e tornou a baixa-la num gesto de resignação. O gesto disse tudo, algumas foram as pessoas que por ali já tinham passado, olhado e nada tinham feito para o tirar daquele pesadelo. Ao lado dele estava uma lata de comida…vazia, talvez lhe tivessem dado de comer mas…ele precisava de mais! Ele precisava de ajuda médica, de sair dali, ele nem sequer conseguia mexer as patas de trás.

Comecei a desesperar porque era um cão grande e por isso pesado, sozinha não iria conseguir. Não fui pelo caminho mais fácil e cobarde, desistir e virar costas e fazer como outros tinham feito… ignorar.

Aqui começa a maratona de chamadas a pedir ajuda: liguei para a protecção civil, disseram-me para ligar para a GNR local, que por acaso era a três quilómetros dali, não liguei, dirigi-me imediatamente para lá com o coração nas mãos, angustiada por deixa-lo ali sozinho, tal como já lhe tinham feito, num acto que para ele seria de abandono… mas tinha de ser!

Após contar o que me trazia ali a primeira reacção foi de surpresa pela minha atitude. Em seguida apresentaram-me a solução: chamar o veterinário da Câmara, mas como este não atendia o telemóvel, já passava da meia-noite, apresentaram-me a segunda solução: leva-lo para o canil onde passaria a noite e na manhã seguinte o veterinário “resolvia”!

Como??

Passar mais uma noite naquele sofrimento para de manhã ser abatido por não andar? Não, não, não! Isso não era solução, era demasiada crueldade perante um ser tão indefeso e vulnerável!

Insistiram comigo para que eu fosse embora e não me preocupasse com o cão porque eles iriam lá busca-lo para o canil e ficaria resolvido. A minha cabeça fervilhava com tamanha indiferença, cada minuto que passava para mim eram horas, só de pensar que o cão continuava lá no seu sofrimento, resignado aquele infortúnio.

Sem mais demoras pedi então que apenas me ajudassem a coloca-lo na mala no carro, ou que chamassem os Bombeiros, porque iria leva-lo ao Hospital Veterinário, a 35 quilómetros dali! Novamente sinto que olham para mim com perplexidade e até me perguntam se eu tinha a noção do dinheiro que iria gastar com tal atitude. Respondi que sim e que perante a solução apresentada não havia outra opção, esta seria a única!

Como repararam na minha determinação, assim foi, pegaram num cobertor, para ele ir mais quentinho e confortável até ao Hospital. Lá fomos para o local. Ali continuava ele, repetiu o gesto, levantou a cabeça e tornou a baixar… A chuva continuava a cair… ajudaram-me a coloca-lo na mala do carro e ele nem sequer se mexeu, já não tinha forças sequer para se queixar…

A viagem parecia não ter fim. Finalmente no Hospital Veterinário!

Recebeu os primeiros cuidados, sem nunca se queixar, enquanto eu ia contando toda a história, a história de um cão que tinha perdido a esperança… mas que teve muita sorte, daí o nome Lucky! Ali ficou internado três dias, uma pata partida e na outra fracturas múltiplas, a bacia partida e um olhar dominado por um misto de medo e incredibilidade, alguém o tinha finalmente salvo!

Tinha nessa altura sete gatos e não hesitei em leva-lo para casa, já não conseguia separar-me dele.

Os primeiros tempos foram muito difíceis, a adaptação dele ao novo lar, se calhar o primeiro lar que alguma vez tinha tido… o Lucky fugia constantemente, mesmo assim debilitado, o que piorava a recuperação das patas e da bacia. Mas mais uma vez não desisti! Com muito carinho, muito amor, muita dedicação o Lucky foi, aos poucos, afeiçoando-se a todos em casa. Hoje é um cão muito meigo, gosta dos gatos e adora passear.

No fim desta história tive finalmente a minha recompensa: ganhei um amigo fiel para toda a minha vida! Que mais se pode pedir?

Nunca virem costas a um animal em sofrimento, não tenham receio de parecer ridículos! Ridículo é apenas esse receio! Que a atitude seja sempre a de salvar uma vida!

Se o Lucky falasse diria: “aprendi que afinal a esperança tem de ser a última a morrer ”.


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