Não é um Cão, é um Burro!

Esta história foi escrita por Susana Cunha e fez parte do concurso “O que já fizeste por um animal?” que terminou no dia 18/11/2011. Clique aqui para ver todas as histórias.

Era um dia de Verão, muito mas muito quente mesmo, em que eu regressava ao trabalho, após a pausa de almoço.

Deitado à sombra, junto ao portão, estava um cão grandão, a arfar. Parecia não ter energia para se levantar e sair dali. Demos-lhe água fresca e pareceu grato. Mas continuou por ali, embora algumas pessoas não estivessem muito satisfeitas com a situação. Quando tentaram que seguisse o seu caminho, percebemos que não sabia andar na rua.

Fred

Felizmente no meu trabalho há mais amigos dos animais e, achando que devia estar perdido e era vulnerável, recolhêmo-lo no pátio e demos mais água e comida. Tirámos fotos, fizemos cartazes, falámos com as pessoas das lojas – ninguém conhecia o cão!

Devia ser uma quarta ou quinta-feira. Entretanto, outro problema se levantava: continuava sem aparecer dono e aproximava-se o fim-de-semana! Ele não podia ficar lá fechado, nós não tínhamos como entrar para tratar dele e também não podíamos pô-lo na rua. O que fazer??

Na sexta-feira à tarde, sem solução à vista, só vi uma hipótese – ligar aos meus pais (com quem ainda morava na altura). Sabia que o meu pai não queria animais (eu andava a tentar há 15 anos convencê-lo a ter um cão!), mas não havia alternativas… Liguei.
– “Mãe… Preciso de ajuda.”
– “Então, o que se passa?”
– “Apareceu um cão aqui no trabalho, temos tratado dele, deve ter dono… Mas agora vem o fim-de-semana e não pode ficar aqui. Deve ser novito e não sabe andar na rua – também não podemos pô-lo lá fora…”
– “Hmmm… O que quer isso dizer? Sabes que o pai não quer cá cães.”
– “Não é para ficar, é só o fim-de-semana! Estamos à procura do dono, já pusemos cartazes e tudo…”
– “Está bem, vá… Mas é só o fim-de-samana! E prepara-te para ouvir o pai!!”

Bem, lá fui à aventura seguinte! Fui buscar o meu Clio, tirei a tampa da mala e fiz entrar o cachorrão. Assim que me sentei tentou galgar tudo até mim!… Tentei convencê-lo a ficar mais atrás, o que não foi fácil, enquanto conduzia fazia cerca de 20kms, por uma estrada cheia de curvas.

Cão ansioso, à solta no carro, estrada com curvas… Resultado: cão enjoado e carro vomitado!!

Quando estava a chegar a minha mãe ouviu o carro e veio ao nosso encontro para “amortecer o embate” com o meu pai. Mas… Assim que sai a porta exclama: “Ai filha!… Não é um cão, é um burro!!”.

De dentro do meu pequeno carro, olhava para ela um grande cão com as suas enormes orelhas espetadas e um imenso fio de baba a escorrer do seu focinho pontiagudo…

Este primeiro encontro não foi brilhante! Sobretudo quando abri a porta do meu carro que estava fedorento e num estado deplorável, devido ao enjoo do cachorrão…

Mas lá fomos, para o quintal. O meu pai… Acho que não disse grande coisa (ou então eliminei da minha memória)… Talvez duas exclamações, uma relativa ao tamanho do bicho e outra confirmando que era só para o fim-de-semana!!

Mas na segunda-feira não dava jeito levá-lo porque tinha que passar noutro sítio antes e na terça-feira atrasei-me e não deu para tratar do assunto e na quarta-feira…

Três semanas depois de estar lá em casa e da minha mãe já ter ficado “apanhadinha” pelo seu olhar meigo e dele ter comido algumas roseiras ao meu pai (que não estava muito satisfeito) apareceu um suposto dono. Era ali do bairro e contou que no dia em que o cão nos apareceu ele tinha-o ido buscar a casa da filha que se ia mudar e não podia levar o cão. Ia levá-lo para um terreno, para lhe tomar conta das hortas. Mas o malandro tinha fugido! Ele tinha-o deixado amarrado com um cordel ao pé da camioneta enquanto almoçava.

Com o calor que estava!… Mas, tomar conta de hortas? Estranhei pois o cão era um “paxá” e disse-lhe:
– “Não me parece que seja bom para isso, ele dá confiança a toda a gente, só quer festas!”
– “Ah isso não se preocupe: ele faz-se mau!”

Gelei!! O meu coração disparou! Não quero conflitos, ainda mais com pessoas do bairro onde trabalho, mas tenho que fazer qualquer coisa!
– “O senhor veja lá, alem do cão não ser bom guarda, está cá há 3 semanas e tive que ir com ele ao veterinário. Já levou vacinas. Já gastei muito dinheiro.”

A minha mãe apanhou a onda e acrescenta:
– “E o que ele come, um cão deste tamanho? Já foi uma despesa grande!”

Silêncio…
– “Pois… Estou a ver. A menina gosta do cão não é? Quer ficar com ele…”
– “Não sei… o meu pai…”
– “Pois, então veja lá. Eu tenho que ir e se calhar o cão fica, não é?”

E foi!

Em suma: o fim-de-semana que o Fred foi passar lá a casa foi em Julho de 2003 e dura até agora. A minha mãe adora-o e o meu pai também foi conquistado. Passados todos estes anos continua a ser um tontalhão meigo, o meu menino!

No Verão passado foi-lhe diagnosticada Leishmaniose – doença acerca da qual eu tinha pouca informação. Foi um choque!! Em especial quando percebi tudo o que pode acontecer. Fez um tratamento inicial agressivo, com grande investimento financeiro, mas valeu a pena pois tem estado muito bem! (Obrigada Dr. Tomé!) Toma medicação duas vezes por dia – obrigada mãe – mas tirando isso está bem e é um cão feliz!

O meu grandão ternurento compensa tudo o que fizemos por ele, pois a sua generosidade e meiguice é directamente proporcional ao seu tamanho!

É o meu FRED!!


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