Nina

Esta história foi escrita por Carlos Manuel e fez parte do concurso “O que já fizeste por um animal?” que terminou no dia 18/11/2011. Clique aqui para ver todas as histórias.

Chegaste cá a casa num misero estado, literalmente. Tinhas sido atirada para a estrada, numa motorizada a grande velocidade, conduzida por um “animal” a quem chamavam homem. Ironias do destino…

Estavas tão porca, ferida e com tanto pêlo, que se não fosse a tua cauda, seria muito difícil descobrir os teus olhos. E que olhos que tinhas. Tristes e assustados. Mas tinhas uma casa, que seria por bons anos para todos, a nossa casa.

Tesoura na mão, e todos ao trabalho. Não ficou perfeito, mas pelo menos já estavas mais aliviada e já podias ver os teus futuros donos e nós, quem eras tu. Eras feia, pouco atraente e continuavas porca. Carraças e pulgas, eram incontáveis.

Mãos ao trabalho. Quatro pares de mão, uma pinça, luvas, champô, água morninha e muita paciência, puseram-te muito mais composta. Uma lata de comida foi posta à tua disposição, que nos mostrou que ultimamente, comida não seria algo habitual na tua vida. Tivemos que ta tirar durante cerca de uma hora, porque poderias morrer.

Curiosamente não pareceste ficar aborrecida. Também não tinhas tempo, porque festas não te faltavam. Depois, comeste tudo.

Mas os teus olhos continuavam tristes!

Lembras-te onde dormiste, naquela primeira noite? Foi sim senhor. Enrolada num cobertor quentinho, no meu quarto e da minha mulher. E como dormiste bem.

Acordamos de manhã, com um focinho feioso em cima da nossa cama. Mas os olhos já não eram os mesmos. Tinhas encontrado um lar e uma família que iriam gostar de ti até ao teu último suspiro…

Como sabes, não sabíamos o teu nome e foi a Tita quem to pôs, chamando-te para brincar. E correste logo atrás dela. Como te deste sempre por esse nome, ou foi uma coincidência incrível já te chamarem assim, ou quiseste começar uma nova vida. Não sei…

Todos fomos muito felizes contigo e tu connosco.

Lembras-te do que fazias às mantas no chão? Está calada, não eram nada quadros do Picasso. Da forma como as mantas ficavam, Picasso era um aprendiz à tua beira. E aquele olhar triste e resignado, quando saíamos de casa? Mas como te recompensávamos quando de novo chegávamos. Que delírio. Ainda subíamos as escadas, e já tu ladravas de alegria. Como sabias que éramos nós se a mais ninguém fazias isso?? Fazer fazias, só que muito diferente. Desconfiado e forte que metia medo a quem ia lá a casa. Seria para meteres medo, pensando que nos iam fazer mal?

Cinco anos se passaram e começavas a ficar velhinha. Tinhas chegado tarde demais a nossa casa…

E a tua última noite chegou.

Todos a esperávamos, mas ninguém a desejava.

Passava pouco mais das quatro horas da madrugada, quando a Elsa te ouviu um respirar ofegante anormal, mas normal na última semana. Fui ter contigo à sala, peguei em ti e na manta que te enrolava e levei-te para o nosso quarto, para o meu lado…

Adormecias mas tinhas convulsões. Começaste numa espécie de gemido e pus-te a minha mão por baixo do teu focinho. A única coisa que fazíamos, era a troca de olhares entre mim e a Elsa. Sabíamos que a tua “missão” na terra tinha chegado ao fim.

E chegou!

Deste um suspiro forte, todo o teu corpo estremeceu e partiste Nina.

Desculpa não pôr uma das tuas muitas fotografias que temos contigo. Mas tu Nina, foste sempre só nossa…


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