O Mateus

Esta história foi escrita por Olga Ferreira e fez parte do concurso “O que já fizeste por um animal?” que terminou no dia 18/11/2011. Clique aqui para ver todas as histórias.

Esta é a história do Mateus (ex Roque).

Mateus

O Mateus é um cão com cerca de 10 anos, sete dos quais passados na rua, ao sol, frio, chuva, a levar pontapés, facadas no pescoço, a ser isco dos cães de luta e ser alvo de caçadeiras, na Tapada das Mercês, Sintra.

Tenho gatos, todos recolhidos de rua e achava que não tinha condições para ter um cão, porque moro num apartamento T2, sem varandas, e saio cedo e chego tarde a casa. Mas quando me comecei a cruzar com o Mateus nas ruas da Tapada e quando o Inverno chegou e vinha à janela e o via a dormir lá em baixo, na terra toda molhada e a chuva a ser o seu tecto, mudei de ideias…

O Mateus nasceu na rua, durante anos andou acompanhado pela sua mãe, dai o nome que lhe deram, Roque (o Roque e a amiga). A mãe morreu de doença, apesar do esforço de alguns vizinhos para a salvarem e o Roque passou a andar sozinho. Quando o conheci já andava sozinho, passava por mim sempre com ar muito triste e amedrontado, a pouco e pouco fui conquistando a sua confiança, dava-lhe comida e no Inverno, arranjei um abrigo debaixo de uma varanda, com cartão e roupas que apanhava no lixo. Tinha que refazer o abrigo quase todos os dias, não só por causa da chuva, como por causa das pessoas que iam lá destruir, com terra e até fazendo xixi e outras coisas, mas nunca desisti…

O Roque passou a acompanhar-me todos os dias de manhã até à estação dos comboios, ia comigo até à plataforma, quando o comboio chegava ele ia embora, à noite estava à minha espera à porta do meu prédio, eu chamava-o para dentro do prédio, coisa que ele fez depois de muita insistência, e sentava-me no chão e ele ficava alguns minutos deitado no tapete a descansar, depois subia e ele ficava na rua…

Um dia arrisquei a chama-lo para o elevador, mas ele não quis ir, pelas escadas também não subia, com medo. Então num fim de semana que ia ficar em casa decidi pegar nele ao colo e mete-lo no elevador e levei-o para casa, dei-lhe banho, estava preto da sujidade, ele é branco, e ficou lá a dormir. Durante algum tempo ficava em casa durante a noite e passava o dia na rua.

Quando ia para o trabalho ele ia comigo até ao comboio e à noite lá estava à porta à minha espera, quando não estava, os vizinhos diziam-me: “o seu amigo já ai esteve”… eu subia e passado um tempo lá estava ele a ladrar, como que a dizer já cá estou…

Quando o Inverno começou a ser mais rigoroso, não resisti e ele começou a ficar em casa durante o dia…. e é assim até aos dias de hoje… pelo meio tem uma história de internamento no Hospital Veterinário do Restelo, por causa da febre da carraça em ultimo grau. Foi quando se descobriu que está cheio de chumbos de caçadeira…

Hoje quando vou à rua com ele e os vizinhos que o conhecem desde sempre nos encontram ficam emocionados e dizem que nem parece o Roque que conheciam… e dizem “bem haja”…

Pudesse eu e haveriam muitos mais Mateus.


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