Rodi & Inês

Esta história foi escrita por Ana Gonçalves e fez parte do concurso “O que já fizeste por um animal?” que terminou no dia 18/11/2011. Clique aqui para ver todas as histórias.

Verdade, verdade é que os animais têm feito muito mais por mim do que eu por eles!

Em retrospectiva, toda a minha vida foi pautada pela interacção com animais… O meu maior amigo de infância tinha 4 patas a minha primeira grande perda também… mais do que toda a educação e ensinamentos humanos foram os animais que me ensinaram grande parte daquilo que hoje sou.

Que me perdoe a minha família humana de quem sempre recebi todo o amor e carinho e que me ensinaram a respeitar e a amar o mundo animal e a natureza, mas a verdade é que, desde as recordações de infância até agora, os animais estiveram presentes em quase todos os grandes momentos da minha vida. Desde as ondulantes lagartas peludas que se passeavam no nosso quintal em África, aos louva-a-deus, aos gafanhotos que levava para a escola dentro de caixas de fósforos para mostrar aos amigos, as formigas… em África os bichos têm formas exuberantes e muito do meu tempo era passado a observá-los, a admirá-los (lembro que não havia televisão em Angola!)

Os meus cães faziam parte de todas as brincadeiras de infância, dentro ou fora de casa, principalmente o Kikas (o melhor rafeiro de todos!) que me seguia para todo o lado. Cúmplice das gargalhadas, das aventuras sem fim, protector, guardador de segredos, companheiro até nos castigos e o maior ladrão de gelados que já conheci!

A passagem (ruptura) de um perfeito mundo infantil para uma dura e sofrida realidade no mundo dos adultos ficou marcada pela separação/perda deste grande amigo…

Depois vieram mais cães, gatos, pombos, coelhos, rãs, tartarugas, porquinhos-da-índia, hamsters e chinchilas, periquitos e até um morcego! Alguns vinham da rua e ficavam só até se restabelecerem e voltarem às suas vidas, outros foram residentes vitalícios, mas todos deixaram recordações e lições de vida…

Por eles já fiz um pouco de tudo, desde dar de mamar e estimular (equivalente à muda de fralda humana), a tratar feridas, a resgatar de situações de maus tratos, chamar bombeiros para salvar o gatinho da vizinha preso no ralo do meu terraço, ser arranhada e bicada para salvar um passarinho do assalto do meu gato…

São muitas as histórias mas a que vos vou contar tem apenas uma meia dúzia de anos e transformou-me, aos olhos da minha filha e de um pequeno roedor, numa verdadeira heroína com poderes mágicos…

Rodi & Inês

O Rodi (hamster sírio) foi o primeiro bichinho de estimação da Inês. Depois de muitas horas de sociabilização para aprender a ser manuseado sem morder tornou-se o “pendura” cá de casa e especialmente da Inês. Passava horas a passear-se nela, a dormir sestas enfiado nas mangas das blusas, a ratar as pontas das almofadas do sofá… Um dia, a cara lavada em lágrimas os olhos cheios de dor, nas mãos o corpo sem vida do seu frágil amiguinho a minha filha gritava por mim “mamã, mamã o Rodi está morto”…

Sem saber o que dizer ou fazer, limitei-me a abraçá-la forte enquanto soluçava inconsolável e, com a mão livre massajava o corpo inanimado do pequeno Rodi e, não me perguntem porquê, levei o seu focinho à minha boca e soprei, massajei e soprei…entre o choro e os soluços da Inês pareceu-me sentir que o bichinho se tinha mexido e não é que tinha mesmo? Pelo aspecto grotesco do animal cheguei a pensar que tinha feito uma grande asneira e que o pobre bicho ia ficar com os olhos saídos das orbitas e paralítico, que devia tê-lo deixado morto… Mas a verdade é que o Rodi começou a mexer as patinhas, a contorcer-se, os olhitos a voltarem ao normal e, perante o olhar maravilhado da minha filha, regressou à vida!

O Rodi partilhou a sua vida connosco durante alguns anos mais, até quase aos seus 4 anos, idade considerável para um ratito ressuscitado, altura em que partiu calmamente das minhas mãos para o céu dos melhores amigos. As lágrimas da minha filha foram, desta vez, saudosas mas repletas de sabedoria – era chegada a hora…


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