O Cavalo Marinho

Cavalo Marinho

Fotografia original: AP

Embora seja um animal caricato, o cavalo-marinho é um peixe.

A principal peculiaridade é o formato do seu corpo, que parece ser o resultado de uma fusão de vários animais diferentes: uma cabeça semelhante à de de um cavalo, olhos que se movimentam como os dos camaleões, uma cauda parecida com a de um macaco e uma bolsa parecida com as bolsas marsupiais como a dos cangurus. Não menos estranho entre os peixes é a forma como se desloca, na vertical, e a reprodução onde é o macho quem “engravida” e fica responsável pela incubação dos ovos.

O cavalo marinho encontra-se espalhado em praticamente todos os oceanos e está particularmente difundido nas águas tropicais pouco profundas (entre 8 a 45 metros de profundidade). Podem ser vistos com frequência em recifes de coral e em superfícies oceânicas povoadas por algas.

Existem 54 espécies reconhecidas de cavalos marinhos (género Hippocampus), nos quais destacamos o Hippocampus hippocampus, uma espécie oficialmente protegida nos Açores, em Portugal e os Hippocampus reidi, Hippocampus erectus e Hippocampus zeostrae existentes no Brasil, sendo o último mais pequeno e também mais raro.

Características principais

Cavalo marinho (Hippocampus hystrix)

Cavalo marinho (Hippocampus hystrix) | Fotografia: Wikimedia Commons

O cavalo marinho é um peixe relativamente pequeno, embora com tamanhos muito variados de espécie para espécie. O menor não chega sequer aos dois centímetros de comprimento, enquanto que o maior tem cerca de 36 centímetros.

Tem o corpo coberto de placas ósseas, com anéis que embora sejam rijos, são também flexíveis. Uma curiosidade peculiar, são os olhos. Tal como acontece nos camaleões, os olhos dos cavalos marinhos movem-se de forma independente um do outro, dando-lhe assim a possibilidade de um se concentrar na presa, e o outro no predador.

A boca encontra-se na extremidade de um focinho tubular. A sua alimentação baseia-se no plâncton, crustáceos e pequenos animais, que suga através do seu focinho tubular.

O cavalo marinho é um animal de hábitos solitários. Quando se sente ameaçado, permanece imóvel, agarrado às algas ou corais, através da cauda preênsil e faz uso da sua grande capacidade de mimetismo – altera a sua cor de acordo com o ambiente que o rodeia para se confundir com outros seres vivos.

Contrariamente à maioria dos outros peixes, locomove-se na vertical servindo-se da sua barbatana dorsal, que vibra rapidamente (até 35 vezes por segundo), embora este tipo de locomoção vertical o torne num nadador lento – pode demorar vários minutos a conseguir nadar um metro de distância.

A sua capacidade de emergir ou mergulhar rapidamente, deve-se a facto de possuir grandes bexigas de ar, dentro do corpo.

A reprodução do cavalo marinho e o “macho grávido”

Acasalamento de cavalos marinhos

Acasalamento de cavalos marinhos | Fotografia: National Aquarium

O cavalo marinho, como já referido, tem essa grande peculiaridade de ter no macho a responsabilidade de transportar e encubar os ovos, até que os filhotes estejam prontos a nascer.

Para acasalar, os cavalos marinhos machos deslocam-se para águas costeiras e pouco profundas onde estabelecem o seu território, com cerca de um metro quadrado cada. As fêmeas por sua vez vão-se deslocando de território em território enquanto escolhem o “companheiro ideal” para acasalar.

O cavalo marinho era considerado um animal monogâmico, ou seja, formando casais para o resto da vida, no entanto estes casais não duram mais do que uma época de acasalamento, alterando-se os pares na época seguinte.

O cuidado das crias, é responsabilidade do macho, que as transporta dentro do seu próprio corpo. O cavalo marinho macho possui uma bolsa de incubação formada por duas pregas de pele, que se estendem ao longo da cauda e que se fecham quando recebem os ovos transferidos pelas fêmeas. Então o macho fecunda os ovos, que começam a desenvolver-se. Ao mesmo tempo o revestimento da bolsa engrossa e enche-se de vasos sanguíneos.

Cavalos marinhos machos "grávidos"

Cavalos marinhos machos “grávidos”

À volta dos ovos, vão-se formando pregas e protuberâncias, percorridas por uma rede de capilares, que transportam o oxigénio e os nutrientes necessários para que os embriões se possam desenvolver.

Ao cabo de aproximadamente três ou quatro semanas, quando as crias já estão suficientemente desenvolvidas, a bolsa abre-se e o macho dá à luz a sua prole. Depois expulsa o revestimento da bolsa, semelhante a uma placenta.

A prole, que pode ter entre apenas 5 (espécies mais pequenas) até 2.500 filhotes por cada gestação, é uma réplica perfeita dos pais, mas em miniatura, com menos de um centímetro de comprimento e um corpo semi-transparente.

Estes bebés já nascem independentes e não recebem qualquer cuidado parental. Estima-se que apenas 0,5% dos cavalos marinhos bebés sobrevivam aos predadores até chegar à idade adulta, o que justifica a necessidade de nascerem milhares de filhotes de cada vez.

Estado de conservação

Segundo a IUCN Red List, das 38 espécies de cavalos marinhos que foram avaliadas, uma está em perigo de extinção, 10 são vulneráveis, outra é pouco preocupante e sobre as restantes 26, não foi possível recolher dados suficientes para saber o seu estado de conservação.

A falta de dados na maioria das espécies torna urgente um estudo mais aprofundado, até porque o cavalo marinho tem um habitat e um comportamento que o torna vítima fácil das atividades humanas (são apanhados em redes pesqueiras, por exemplo) e alterações ecológicas (como a diminuição dos recifes de coral).

Uma das maiores ameaças aos cavalos marinhos é a medicina tradicional chinesa, para a qual são mortos cerca de 20 milhões de cavalos marinhos anualmente. Também são apanhados para enfeitar acessórios e objetos decorativos, tais como jóias, porta-chaves, pisa papéis e outros…

Curiosidades do cavalo marinho

Cavalo marinho pigmeu mimetizado para se esconder

Cavalo marinho pigmeu mimetizado para se esconder | Fotografia: Klaus Stiefel

  • Antigamente, acreditava-se que o cavalo marinho era meio peixe, meio cavalo. Aristóteles (384 – 322) a.C., foi o primeiro investigador de historia natural a fazer uma pesquisa sobre o cavalo marinho, afirmando que este se “desunia durante a época de desova” para parir os juvenis;
  • O nome do género Hippocampus tem origem no grego antigo hippos (cavalo) e kampos (monstro marinho);
  • Apesar das semelhanças, os cavalos marinhos e os dragões marinhos pertencem a géneros diferentes, embora façam parte da mesma família (Syngnathidae), juntamente com os peixes-agulha;
  • Apesar de ter um corpo peculiar, possui guelras, bexiga natatória e barbatanas, tal como os outros peixes;
  • Os cavalos marinhos mais pequenos do mundo são apelidados de cavalos marinhos pigmeus e a espécie mais conhecida de cavalo marinho pigmeu é a Hippocampus bargibanti, com apenas 13 milímetros de comprimento (1,3 centímetros);
  • Em 2009, o cavalo marinho pigmeu da espécie Hippocampus zosterae, que pode ser encontrado em águas brasileiras e norte-americanas, recebeu o recorde do Guinness World Records para o peixe mais lento do mundo, ao nadar apenas metro e meio por hora;
  • O cavalo marinho tem poucos predadores naturais, pois é duro e indigesto;
  • A única arma de defesa do cavalo marinho é a capacidade de se esconder através do mimetismo;
  • O cavalo marinho só se alimenta de alimentos que se estejam a mexer;
  • Consegue sugar comida até 3 centímetros de distância, puxando a água;
  • O cavalo marinho não tem dentes nem estômago, a comida passa rapidamente por todo o sistema digestivo e por esse motivo precisam de se alimentar constantemente;
  • O cavalo marinho emite um som parecido com um click, tanto quando está a sugar alimento como quando está a interagir com outros da sua espécie;
  • O cortejo do macho para atrair as fêmeas pode durar até 8 horas, que inclui girar em torno de si próprios, nadar lado a lado com as caudas unidas e mudar as suas cores;
  • Quando vai descansar, o cavalo marinho utiliza a cauda para se agarrar aos corais, algas ou outras formações marinhas, evitando assim ser arrastado pelas correntes.

Este artigo foi publicado na Revista nº5 do Mundo dos Animais, em Fevereiro de 2008, com o título “Cavalos Marinhos”.

Tópicos: Peixes, Animais Selvagens, Artigos em Destaque