A História da Descoberta dos Discos (Acará-Disco)

Peixe disco (acará-disco)

Fotografia original: Drriss & Marrionn

O peixe disco pertence à família dos ciclídeos e foi descrito pela primeira vez por Johann Jakob Heckel, que denominou a espécie Symphysodon discus (conhecido como Disco-Heckel) em 1840.

No entanto, a história da descoberta dos discos começa alguns anos antes com outro protagonista: Johann Natterer.

A recolha dos primeiros exemplares

Johann Natterer (1787 – 1843) era um naturalista austríaco filho de Josef Natterer, um conhecido amante da natureza que passou aos filhos a sua maior paixão.

A principal habilidade de Johann Natterer era manipular o corpo dos peixes para preservar e estabilizar os seus órgãos para sua principal coleção. Esta habilidade era muito utilizada também para a coleção pessoal do Imperador Francisco I da Áustria.

Viajava o mundo todo, à procura de novas espécies para sua coleção pessoal, para Museus e interessados.

Johann Natterer

Johann Natterer
Domínio Público

Em 1817, o Imperador levou Natterer na qualidade de zoólogo ao Brasil, ocasião em que o Imperador casou a sua filha Leopoldina com o Príncipe do Brasil, Dom Pedro. Quando finalmente Natterer retornou a Viena, levou consigo uma coleção inestimável de joias brasileiras, coletadas ao longo de 18 anos no Brasil, com muitos animais (peixes) desconhecidos no mundo inteiro e utensílios confeccionados por índios, diretamente para o inventário do Museu de Viena.

O material era tão vasto, que o Imperador conseguiu abrir um Museu Brasileiro em Johannesgasse, Viena.

Durante esses 18 anos, Natterer viveu no Brasil com extrema dificuldade, já que com a precariedade da época, ficou doente e acamado durante quase um terço desse tempo. Levou cerca de dois anos para atingir o seu maior sonho, chegar ao Mato Grosso, local entre savanas e selvas (descrição do próprio), pois foi a pé, entre uma doença ou outra.

Casou-se com uma brasileira, Maria do Rogo, no ano de 1831 em Barcelos – Rio Negro, e a primeira filha do casal nasceu no Brasil, Donna Gertrudes, nome dado em honra da Curandeira local “Dona Gertrudes” que salvou a sua vida, num dos seus episódios menos felizes em termos de saúde.

Quando explodiu a Guerra Civil nas capitais nordestinas, conseguiu a partir do Pará enviar 37 recipientes com animais da fauna brasileira. Todos “empalhados”, da sua coleção pessoal, e foi obrigado a matar tantos outros que tinha recolhido (futuramente enviaria estas espécies vivas ao Zoológico de Schönbrunn) e que abrigava na sua fazenda no Pará, que lhe seria tomada durante a Guerra.

Natterer ficou abrigado durante alguns anos, com a proteção do Governo Britânico, até que finalmente em 13 de agosto de 1836 conseguiu ser deportado para Viena juntamente com sua família (a esposa mais duas filhas).

Apesar de ter passado 18 anos a enviar materiais ao Museu de História Natural de Viena, a sua chegada não teve qualquer honra, agradecimento ou reconhecimento.

Antes de partir era o Conselheiro Curador maior do Museu (cargo na época de importância maior) e quando retornou, recebeu o cargo de Curador Assistente. O Museu passava por sérias crises financeiras e o Museu Brasileiro em Viena veio mesmo a fechar as portas, alguns meses após a sua chegada.

Juntamente com o seu irmão Joseph, Natterer conseguiu levar toda a coleção do Museu Brasileiro para a Imperial House em Ungargasse. Alguns meses depois, perdeu a esposa e as duas filhas nascidas no Brasil, pois não resistiram à mudança de clima, sucumbindo a gripes e pneumonias graves.

Solteiro e desgostoso com os acontecimentos, largou os peixes e a cultura brasileira, passando a dedicar-se ao estudo de pássaros para os Museus do Nordeste da Europa e Rússia. Lá, então, teria reconhecimento e honra, sendo nomeado Membro Honorário de História Natural da Sociedade de Cientistas Russos. E também na Universidade de Heidelberg foi condecorado com Doutoramento em Filosofia.

Depois de vários anos dedicados aos pássaros, Natterer foi chamado para colaborar com os estudos de répteis e peixes pelo Professor Schneider em Munique, com a colaboração dos seus amigos Fitzinger e Heckel. Mas a meio dos estudos, sofreu de uma grave hemorragia, vindo a falecer em 1873 com 56 anos, 35 deles dedicados à história natural.

Em 1848 o Museu que abrigava toda a coleção pessoal e os valiosos diários de Natterer, foi atingido por uma tempestade terrível, que destruiu tudo o que havia.

Mas, no Museu de Viena, ficaram cerca de 13.300 pássaros, 1.150 mamíferos, 1.700 répteis e anfíbios e cerca de 1.700 peixes, todos catalogados morfologicamente, anatomicamente e biologicamente com data. Todos desenhados por Heckel.

E nos registos do acará-disco, anos depois da morte de Natterer e Heckel, constava apenas o nome de Heckel em todos os ensaios e estudos; ficando assim, subentendido, que o descobridor do acará-disco tenha sido Heckel. Uma das espécies, o Symphysodon discus, ficaria mesmo conhecido como Disco-Heckel.

A primeira descrição científica

Johann Jakob Heckel

Johann Jakob Heckel
Domínio Público

Johann Jakob Heckel (1790 – 1857), taxidermista e zoólogo austríaco, era um estudioso de agricultura e botânica. Nunca frequentou faculdade ou fez especialização, mas tinha verdadeira adoração por animais, em especial por aves.

Em 1824 começou a interessar-se pelos lagos austríacos e estudar os peixes da região, quando o biólogo e geólogo Louis Agassiz (1807 – 1873) foi à Viena em 1830 e escolheu Heckel para supervisionar as suas experiências e estudos sobre peixes de todos os locais do mundo.

Ele próprio inventou instrumentos até hoje utilizados em todo mundo, para estudar e classificar as espécies de peixes que estudava. Também desenhava todos os peixes estudados, com habilidade milimetrica, para reproduzir com fidelidade o que via no papel.

Quando Natterer retornou do Brasil, deixou os peixes que trouxe sob os cuidados de Heckel, para um estudo mais aprofundado, o que viria a dar origem em 1840 à publicação “Johann Natterer’s new Riverfishes of Brazil”. Este estudo foi catalogado no Museu de Viena de História Natural.

De 1855 a 1857, entre seus estudos, Heckel descobriu os banhos curativos de peixes ornamentais, com medicamentos utilizados em humanos. Mas por incrível que pareça, nunca saiu da Europa, não conhecia o Brasil. Dele surgiram as nomenclaturas Chromis, Cichla, Symphysodon, Geiphagus, Acara, Heros.

Symphysodon discus foi a primeira descrição cientifica dos discos, por Heckel.

E Jacques Pellegrin (1873 – 1944), um zoólogo francês, escreveu seu primeiro livro sobre ciclideos em sua tese de doutoramento, descrevendo os discos como Symphysodon aequifasciatus.

Jacques Pellegrin, em 1903, publicou o seu livro de expedições realizadas por Dr. Jobert, onde foram coletadas várias espécies. Este livro continha três partes: 1ª Manaus (Rio Negro), 2º Rio Tefé e 3º Lago Tefé. E logo depois, um sobre Santarém (peixes de estuário do Rio Tapajós e Amazonas).

Alguns anos mais tarde, o seu colega e cientista americano Carl H. Eigenmann (1863 – 1927), elevou de variante ao status de subespécies designando o disco como: Symphysodon discus aequifasciatus.

Exportação e reprodução

Até 1921 o transporte de peixes vivos da América para a Europa era impossível. Os navios demoravam meses para levar as espécies e várias tentativas de o fazer, tinham falhado.

A primeira tentativa de transportar peixes vivos por avião foi para a Alemanha, em 1921, com sacos plásticos, pouca água e muito oxigénio. Mas os discos não chegavam vivos nem à escala nos países da Europa.

Com o estudo mais aprofundado da água que partia e da água em que os peixes chegavam mortos, foram delineadas as medidas a serem tomadas para aprimorar o processo.

Quando em 1932, finalmente conseguiam fazer com que cerca de 10% dos discos enviados chegassem vivos, então, começou a Segunda Guerra Mundial e o número de exemplares vivos na Alemanha, não chegavam a uma centena.

Hermann Meinken (1896 – 1976), aquarista e ictiologista alemão, escreveu vários artigos sobre “O Rei dos Aquários” (a primeira vez que os discos seriam chamados desta forma), falou da incrível dificuldade de reprodução em cativeiro dos discos.

Quando terminou a II Guerra, os aquariofilistas alemães tinham como meta começarem a criar peixes raros, pois, havia crescente interesse dos norte-americanos em adquiri-los. Quanto mais raro, mais caro.

Quando os aquariofilistas e estudiosos dos EUA começaram a interessar-se seriamente na Amazónia, na sua fauna e flora, começaram a ter um forte contacto com ribeirinhos e índios, que vendiam ou permitiam a exploração ao “preço da banana”.

No que diz respeito à exportação, os EUA levavam grande vantagem sobre os europeus, pois as horas de viagem eram menores e mais espécies chegavam vivas e saudáveis.

Os novos discos

Dr. Herbert R. Axelrod

Dr. Herbert R. Axelrod
via historyforsale.com

No Rio Purus, em 1950, uma nova variante de discos foi descoberta. O seu descobridor, Dr. Herbert R. Axelrod, dono da revista “Tropical Fish Hobbyist Magazine”, apelidou-os de “Blue Discus”.

Dr. Eduard Schmidt-Focke, do Aquarium Hamburg e conhecido como o “Pai do Hobby dos Discos”, reproduziu-os.

Alguns anos mais tarde, Axelrod, juntamente com o hobbista austríaco Hans Willi Schwartz (que possui uma corydora brasileira com seu nome) também descobriram os “Green” e os “Red”.

Foi na Alemanha, por Dr. Schmidt-Focke, que foram descobertas novas variantes por mutação genética e Jack Wattley, nos EUA, quem conseguiu eliminar as pedras do caminho para procriação de discos em larga escala.

Atualmente existem diversos criadores profissionais espalhados pelo mundo todo, sendo o foco principal vindo da Ásia, Europa e EUA.

Espécies, subespécies e variações

Peixes disco (acará-disco)

Domínio público

Existem atualmente três espécies reconhecidas no género Symphysodon:

  • Symphysodon aequifasciatus (Pellegrin, 1904)
  • Symphysodon discus (Heckel, 1840)
  • Symphysodon tarzoo (E. Lyons, 1959)

Devido à possível existência de inúmeras subespécies — e da pouca clareza em classificá-las — é um assunto que suscita belas discussões entre estudiosos, criadores e hobbistas.

Para o S. aequifasciatus, podemos considerar as seguintes subespécies:

  • Symphysodon aequifasciatus aequifasciatus (Pellegrin 1904), o “disco verde”;
  • Symphysodon aequifasciatus axelrodi (Schultz 1960), o “disco marrom”;
  • Symphysodon aequifasciatus haraldi (Haroldi 1960), o “disco azul”;

E para a espécie S. discus, as seguintes:

  • Symphysodon discus discus (Heckel, 1840)
  • Symphysodon discus willischwartzi (Burgess, 1981), o “disco Heckel blue face”

Ao nível das próprias espécies existem dúvidas. Por exemplo, o S. tarzoo é considerado como não tendo sido descrito de acordo com as regras Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN) e que por isso deveria ser substituído pelo S. haraldi — considerado atualmente um sinónimo do S. aequifasciatus pelo FishBase.

Existem 4 variedades de discos selvagens: Heckel, marrom, azul e verde.

Heckel blue face

Disco Heckel Blue Face

Fotografia: via albertaaquatica.com

Habitam as regiões do Rio Negro, Rio Madeira, Rio Tombetas e pequenos afluentes. Muito provavelmente foram estes exemplares que começaram a “febre dos discos”.

É uma espécie muito sensível e de difícil reprodução em cativeiro. Como todo o disco selvagem necessita de água muito pura e macia, alem de temperaturas altas. Tem como característica principal a primeira, a quinta e nona linha serem mais destacadas que as demais.

As espécies azuis são as mais conhecidas como Willischwartzi ou Heckel blue face, existindo ainda outras variedades com colorações diferentes, mas sempre destacando a primeira, quinta e nona linha destacadas.

Marrom

Disco Marrom

Fotografia: via nevertebrate.ro

Os discos marrons podem ser facilmente encontrados nas regiões do Pará, nos Rios Tocantins, Icana, Branco, Tapajós, Alenquer e Rio Madeira.

Este disco foi descoberto por L.P. Schultz em 1960 e foi chamado assim (S. a. axelrodi) em homenagem ao Dr. Axelrod. Tem como características principais a cor marrom avermelhada e olhos vermelhos, as barbatanas dorsais e anais são coloridas por tons que variam por vermelho, laranja, preto e azul. Existem muitas variedades atribuídas por criadores estrangeiros ou mesmo pelo povo local.

Certamente estes são os mais comuns achados em lojas e talvez os mais fáceis de se manter em tanques e reprodução em cativeiro. É usado largamente na Ásia para cruzamentos para se obter novas cores.

Azul ou Haraldi

Disco Haraldi Azul

Fotografia: Lubomír Klátil / via biolib.cz

O disco azul encontra-se nos Rio Trombeta, Rio Purus, Tapaua, e lago de Manacaparu e Leticia.

É uma espécie que adapta bem em cativeiro e muito utilizada para cruzamentos por parte de criadores. São semelhantes aos discos marrons, porem são bem mais coloridos, com maior intensidade na cor azul na parte dorsal e cabeça. Foram usados como base para os já famosos discos turquesa.

Verde ou Aequifasciatus

Symphysodon aequifasciatus aequifasciatus

Fotografia: Petr Pivoňka / via biolib.cz

Encontra-se principalmente no Rio Tefé e lago Tefé, Santarêm, Nanay e região Peruana / Colombiana.

Esta espécie foi descrita por Pellegrin em 1903, tendo como principais características a cor amarela acastanhada até um marrom claro, tendo marcas notáveis a volta da cabeça e guelras destacando uma coloração mais metálica que as demais espécies selvagens.

Alguns exemplares são denominados “Azul Royal”. Adapta-se facilmente a cativeiro e muito usado em cruzamentos por criadores.

Discos híbridos

Disco hibrido chinês

Fotografia: Love Krittaya / via Wikimedia Commons

Disco hibrido chinês

Fotografia: Love Krittaya / via Wikimedia Commons

Discos híbridos são nada mais que discos trabalhados pelos homens, através de cruzamentos entre discos selvagens, entre selvagens e híbridos e entre híbridos, dos quais derivam em novas cores, até certo tempo atrás, inimagináveis.

Muitos criadores especializam-se em determinada cor através dos cruzamentos citados acima e desenvolvem cada vez peixes mais exóticos, em termos de cores.

São bem mais fáceis de se manter em tanques do que os selvagens, apesar de poderem apresentar problemas de reprodução.

Existem muitas designações apresentadas nos chamados híbridos, devido ao criador dar a sua própria designação, pelo que muitas vezes é comum encontrar diversos nomes para a mesma variedade.

Entre algumas variedades, destacam-se:

  • Alenquer: Seleção de S. aequifasciatus. Marrons com raias azul e com cor base um vermelho intenso.
  • Azul Real: Seleção de S. haraldi. Cores azul intensa e estendidas por todo seu corpo.
  • Cobaltos: Cor azul sólida.
  • Red Turquesa: Seleção de S. haraldi. Cor de fundo vermelho com visíveis listras turquesas por todo seu corpo.
  • Pigeon Blood: A procedência é um tanto confusa, a coloração oscila entre o amarelo marrom e vermelho marrom, com raios horizontais irregulares de cor turquesa prateada brilhante e uma pigmentação negra distribuída por todo seu corpo. Não apresentam barras verticais negras. Existem muitas variedades.
  • Dragon: Pigeon sem coloração negra.
  • Red Dragon: Cor de fundo vermelho intenso.
  • Panda: Raios vermelhos sobre um fundo amarelo / laranja, com alguma pigmentação negra.
  • Red Marlboro: Cor base um vermelho suave com manchas vermelhas nos ventre e flancos.
  • Ghost: Possui a cabeça amarela e sempre presente a primeira e nona listra.
  • Snake Skin: Turquesa sobre o fundo vermelho com listras verticais inexistentes.
  • Azul Turquesa: Cor azul predominantes, idem ao Red Turquesa.

Existem outras variedades e é bem provável que venham a surgir mais no futuro.

Referências: Roberto Eduardo Sentanin, Alessandra Lozovoi Sentanin, Edson Rechi

Este artigo foi originalmente publicado no antigo Fórum Mundo dos Animais, em Novembro de 2009, com o título “Quem Descobriu os Discus”.

Tópicos: Aquariofilia e Peixes Ornamentais, Peixes, Animais Exóticos, Animais de Estimação, Artigos em Destaque