Peixe Disco (Acará-Disco): O Rei do Aquário

peixe disco (género Symphysodon)

Fotografia original: Kevin McGee

O peixe disco (género Symphysodon) é considerado pelos aquariofilistas como sendo o “Rei do Aquário”, uma expressão utilizada pela primeira vez pelo aquarista alemão Hermann Meinken (1896 – 1976).

Para mim, a manutenção destes peixes é uma paixão à qual me tenho dedicado, quase exclusivamente, nos últimos quatro anos.

1. O disco na vida selvagem

Este ciclídeo sul-americano tem como seu habitat natural vários rios afluentes da bacia do Amazonas.

Os discos selvagens da Amazónia vivem basicamente em cardumes, com temperaturas na faixa de 28º C e um pH muito baixo, que pode variar entre 5,0 a 6,5. Dependendo, claro está, do rio e altura do ano em que se encontrem.

A dureza dos carbonatos (kH) é também muito baixa, na faixa de 1 a 2 graus. Mas o principal, é a natural ausência de amónia, nitritos e nitratos nesses meios.

O local onde os discos vivem possui uma qualidade de água muito boa, se fosse ao contrário este peixe jamais sobreviveria.

Captura vs cativeiro

Uma das formas de captura de discos selvagens consiste em instalar quatro varas e uma rede, e arranjar alguns esconderijos dentro desse círculo, onde os peixes se sentirão em lugar seguro.

Algumas semanas depois, os pescadores regressam e fecham essa rede, arrastando-a de seguida para o seu barco. Por fim os peixes são embalados e preparados para consumo interno e obviamente enviados para o mercado da exportação.

É extremamente importante que nós, os consumidores, optemos por comprar apenas discos criados em cativeiro. São mais caros, mas ao fazê-lo estamos seguros que não contribuímos para a sua captura na vida selvagem, o seu declínio e posterior extinção.

Além disso, os discos selvagens são extremamente difíceis de manter em aquários. Estão habituados, como já referi, a parâmetros de água muito específicos, parâmetros esses difíceis de proporcionar nas nossas casas sem gastar dezenas ou centenas de euros.

Os discos nascidos e criados em aquários, para além de aceitarem um valor de pH mais elevado (6,8 ou mesmo 7), toleram muito melhor as variações dos parâmetros da água. Estão também já habituados à alimentação que se encontra disponível no mercado.

2. Dúvidas e primeiras impressões

Peixe Disco (género Symphysodon)

Fotografia: Untitled No. 4

Quando finalmente tive algum dinheiro para comprar um par de discos, decidi navegar pela nossa querida Internet, para poder realizar uma montagem apropriada aos meus futuros peixes.

Foi então que comecei a verificar, que existiam dezenas de opiniões diferentes de como seria o habitat ideal para uma boa manutenção de discos.

Posso garantir-vos que andei baralhado durante várias semanas.

Não desisti e comprei livros dos maiores criadores mundiais de discos. Ainda assim o consenso não era, nem de perto nem de longe, satisfatório.

Alguns afirmavam que o pH deveria ser da ordem dos 5, outros contrapunham que, para discus já nascidos em aquários, o pH poderia ir até aos 7,5.

As mesmas inconsistências eram registadas em relação à dureza da água, plantas, luminosidade, temperatura, aos outros peixes que se poderiam ter com discus, à alimentação e outros factores.

Eu cada vez estava mais baralhado e com os olhinhos cansados de tanta leitura.

Assim decidi usar aquilo que me pareceu o mais consensual. Quanto ao resto, fiz uso da matemática e achei que o melhor seria optar por realizar a média dos N valores que haviam sugerido.

E assim fiz.

Convém não se esquecerem que as indicações que darei em seguida são meras sugestões pessoais, baseadas na minha experiência, e não consensuais, como referido em cima.

3. Condições físico-quimicas

Ora então cá vamos nós.

Antes demais é necessário adquirir um aquário com as dimensões que considero as minimamente adequadas para a manutenção do “Rei”: 100 x 40 x 50 centímetros. Perfaz um total de 200 litros brutos.

Depois, um termóstato capaz de garantir uma temperatura estável para esse volume de água (ver as informações no acto da compra). A temperatura não deverá sofrer alterações, devendo manter-se estável entre os 27º C e os 30º C. Um termóstato de 300 W de potência será o ideal para este aquário de 200 litros.

De seguida, um sistema de filtragem, um pulmão, à altura das nossas preciosidades. Como são muito exigentes em relação à qualidade da água (tem de estar limpa), mas ao mesmo tempo não gostam de correntezas exageradas, devemos adquirir um filtro de qualidade que contenha compartimentos para vários materiais de filtragem.

Importante será que esse filtro consiga debitar a quantidade de litros hora na ordem de pelo menos duas vezes o volume do aquário. Para o nosso exemplo de 200 litros, terá de ser um filtro que debite 400 litros por hora.

O substrato também é importante. Se optarem por ter plantas naturais, ele tem de ser rico, mas cuidado com a areia que colocarem. Por favor tenham muita atenção aos substratos alcalinos, pois estes vão fazer subir o pH da vossa água.

Também não é conveniente que seja um substrato demasiado claro, visto que os discos não o apreciam muito.

A iluminação é outro factor importante. Como estamos a falar de discos não selvagens, é natural que estes tolerem bem espectros e intensidades de luz mais elevados. Mas não exagerem muito. Não coloquem holofotes no aquário ou luzes azuis marinhas. Procurem algum equilíbrio.

Se o aquário poder ter duas luzes melhor — uma mais para as plantas e outra com capacidade para imitar a luz do dia. Nas lojas da especialidade existem várias. Só tem de pedir ajuda ou optar por ler os rótulos com os espectros e as suas finalidades.

Parâmetros da água. É talvez, a par da alimentação, o principal na manutenção dos discos. Agora deixo-vos os valores que procuro manter no meu aquário, mas sem entrar em pormenores químicos exagerados:

  • pH – 6,7 a 7
  • kH (dureza de carbonatos) – 20 a 80 mg/L
  • gH (dureza global) – 0 a 60 mg/L
  • Nitritos, nitratos e amónia – 0

A água tem de ser mantida limpa, limpa e mais limpa. Ou seja, realizar trocas parciais da água (TPA) de 20% semanais.

Chamo a atenção que aqui nas TPA também não existe consenso entre os criadores de discos. Há quem as faça diariamente e, no extremo oposto, quinzenalmente. Eu opto pelas 20% semanais ou quinzenais. Mas tudo depende da sujidade, número de peixes existentes e claro está, da qualidade do filtro e materiais filtrantes.

Ainda aí estão? Se sim então leiam até ao fim porque já falta pouco!

4. Plantas e companhia

Peixe Disco (género Symphysodon)

Fotografia: Jennifer

Companheiros para os discos. Os discos não gostam de peixes muito activos e muito menos agressivos.

Eles são os “Reis” e como os leões, gostam de marcar o ritmo consoante lhes apetece. Não querem grandes correrias. Gostam de se alimentar com calma e de passear no seu quintal como manda a realeza.

De vez em quando lá se perseguem uns aos outros, mas é só para queimar as calorias!

Para aios e criados de suas majestades, costumo utilizar tetras neons, coridoras, peckoltias, limpa vidros e chega para não abusar.

As plantas naturais são, na minha modesta opinião (também não há consenso), óptimas para os discos. Fornecem-lhes esconderijos e territórios para demarcar. Para além disso têm um papel importante na purificação da água e escusado será dizer no aspecto visual que transmitem ao mero espectador, o ser humano.

Troncos devidamente certificados também são uma mais valia importante.

5. A alimentação

Os alimentos secos e granulados devem compor a dieta básica dos discos.

Existem várias marcas muito conceituadas destes alimentos, com uma qualidade soberba. Contém todos os elementos básicos e equilibrados para a sua alimentação. No entanto não se esqueçam que têm de ser específicos para discos.

Devem ser dados duas vezes por dia (mínimo).

Depois e como complemento bi-semanal, podem ir alternando com infusórios, tubifex, dafnias, náuplios e bloodworms.

Não caia na tentação de os administrar todos os dias, porque assim será prejudicial. Reforço que duas vezes por semana será óptimo.

6. Notas finais

Peixe Disco (género Symphysodon)

Fotografia: Rego Korosi

  1. A iniciação aos discos não deve ser feita por iniciados em aquariofilia. No mínimo, dois anos de aquariofilia de água quente são recomendáveis, para além de muita dedicação e algum dinheiro disponível para suportar a compra e manutenção destes peixes.
  2. No acto da compra, ter muita calma. Observar os animais. Não devem estar demasiado parados, nem demasiado irrequietos, nem com respiração ofegante. Não devem apresentar barbatanas nubladas nem uma coloração escura. De preferência comprar animais de porte médio (8 centímetros) ou grandes (12 a 14 centímetros). Devem pedir ao lojista que os alimente na vossa frente e depois optar por aqueles que melhor comem.
  3. Um disco num aquário com as condições ideais pode viver por vários anos. Por isso não exagerem e lembrem-se da regra (não consensual mais uma vez) de um peixe disco médio para cada 30 a 35 litros de água.
  4. Os discos requerem alguma atenção por isso, se não têm tempo para eles, comprem outros peixes que sejam mais resistentes.
  5. Tudo o que neste artigo escrevi é apenas o básico. Continuo a considerar-me um aquariofilista inexperiente e todos os dias aprendo mais qualquer coisa. Por isso se quiserem arriscar, leiam muito sobre o assunto para evitar grandes decepções monetárias e sentimentais.

Este artigo foi originalmente publicado no antigo Fórum Mundo dos Animais, em Setembro de 2007, com o título “Disco – o Rei do Aquário”.

Tópicos: Aquariofilia e Peixes Ornamentais, Peixes, Animais Exóticos, Animais de Estimação, Artigos em Destaque