A Minha Cobra Não Come: E Agora?

Cobra do milho (Pantherophis guttatus)

Fotografia original: Mark Dumont

A minha cobra não come. E agora?

Esta é uma das perguntas mais frequentemente feitas pelos novos donos de uma cobra. Como tal deixo aqui algumas linhas de apoio para fazerem voltar a comer a vossa amiga rastejante.

Estes são os métodos que devem ser tentados, antes de recorrer a medidas mais drásticas.

Métodos para que a cobra volte a comer

1. Verificar a temperatura do terrário

O terrário deve ser mantido entre uma temperatura de 23 e 29 graus. Esta temperatura deve estar distribuída como um gradiente dentro do terrário, de forma que a cobra possa fazer a sua auto-termoregulação, escolhendo o lado mais quente ou mais frio do habitat.

Uma queda noturna da temperatura não faz mal.

Atenção que diferentes espécies de cobras possuem diferentes temperaturas de conforto sendo que cada espécie deve ter a temperatura adequada à sua zona de conforto.

Por exemplo as Elaphe taeniura friesi e algumas cobras rateiras asiáticas necessitam de temperaturas mais baixas, sendo que a sua zona de conforto se situa entre os 20 e 25 graus. Temperaturas mais elevadas contribuem para um maior stress para a cobra e por conseguinte uma maior agressividade por parte da mesma.

2. Verificar se a cobra se encontra hidratada

Quando se introduz uma cobra num novo terrário, muitas vezes estas não conseguem encontrar a sua fonte de água, o que leva à desidratação da mesma.

Isto pode ser resolvido mergulhando a cobra gentilmente no recipiente com água.

Caso a cobra já se encontre em elevado grau de desidratação, é conveniente dar um banho em água tépida para que a cobra se possa re-hidratar.

3. Verificar se a cobra se encontra na muda

Na maioria dos casos, cobras em muda recusam a alimentação (embora existam excepções que confirmam a regra).

Na maioria das cobras a muda é facilmente identificada, por sinais como a pele baça, olhos azuis e agressividade aumentada.

Contudo cobras amelanisticas, snows, blizzards e noutros morphs brancos, esta fase torna-se difícil de detectar. Para dificultar a detecção, as cobras em muda passam por um período denominado “the clear”, em que embora a cobra se encontre em muda, não apresenta os sinais típicos de muda.

Este período costuma vir depois da pele baça mas antes da muda ser efectuada. Normalmente o único indicador desta fase é o aumento da agressividade e pela formação de pregas em relevo mais acentuado.

Se for este o caso, esperar até que a cobra complete a muda.

4. Confirmar o método de descongelação do rato

Aqui existem vários linhas de pensamento, com diferentes proponentes e defensores.

Eu sou um adepto da descongelação num recipiente com água quente. Este método tem a vantagem de levar a uma descongelação mais rápida (cerca de 5 minutos para um rato adulto) e com menor probabilidade de formação de bactérias patogénicas. Tem ainda a vantagem de proporcionar o aquecimento uniforme do rato (interior e exterior).

Há ainda quem descongele durante a noite à temperatura ambiente, aquecendo-o posteriormente num copo de agua quente. Para mim este método tem a desvantagem de, uma vez que leva tanto tempo na descongelação, poder resultar no desenvolvimento de bactérias prejudiciais às nossas cobras.

Se uma cobra recusa a alimentação, é indicado tentar oferecer um rato bem quentinho.

5. Falhou tudo? São necessários métodos mais radicais

Cobra do milho (Pantherophis guttatus)

Fotografia: Don Richards

O meu método de eleição após todos os métodos anteriores terem falhado, consiste no seguinte:

  1. Colocar a cobra num recipiente apertado, que pode ser uma caixa de comida viva vazia, um tupperware com furos ou outros semelhantes;
  2. Colocar o rato lá dentro, com a cobra e um guardanapo de papel amarrotado;
  3. Colocar o recipiente dentro do terrário na zona de transição do ponto mais quente para o mais frio;
  4. Apagar as luzes e deixar durante a noite.

Caso a cobra ainda não tenha comido o rato na manhã seguinte, descarte-o e tente de novo na noite seguinte, durante um total de duas noites.

6. Não resultou? Algo mais nojento…

Este método consiste em furar a cabeça ao rato (descongelado). Com um alfinete e com cuidado, espremer um pouco da massa cerebral de forma a que saia pelo buraco efectuado. Depois, espalhar este conteúdo em torno da cabeça do rato.

Pode ser usado em conjunto com o método do ponto 5.

7. Scenting

Este método consiste em dar cheiro ao pinkie de forma a que se torne mais apetecível para a cobra.

Há várias formas de o conseguir, dependendo do método em questão. Para as cobras que preferem lagartos para a primeira refeição, esfregar o pinkie num lagarto e oferecer à cobra. Para as restantes, pode ser colocado o pinkie juntamente com parte do ninho onde foi criado que contém o típico cheiro forte a rato que irá estimular o apetite da cobra.

Pode também ser usado com o método explicado no ponto 5.

8. Utilizar um probiótico

Existe um produto no mercado denominado Nutribac. Este produto não é um medicamento, mas sim um probiótico, que contém culturas bacterianas vivas adequadas ao metabolismo de um réptil.

A forma de administração mais comum consiste em salpicar o rato com este produto e oferecer à cobra. Mas no caso de se tratar de uma cobra que não aceite a comida, a melhor forma de administração consiste em retirar o prato de água durante dois a três dias e voltar a colocar o prato da água com o Nutribac diluído.

Atenção que este produto estraga a água facilmente, pelo que o líquido deve ser descartado no máximo 24 horas após a diluição. O prato deve ser bem lavado e depois então voltar a colocar água fresca.

9. Se ainda não comeu…

Métodos para tentar que a cobra volte a comer

Se todos os métodos anteriores falharem, existem ainda outros métodos que podem ser tentados.

Um deles é o tease-feeding. O tease-feeding consiste em chatear tanto a cobra com o pinkie que o leve a atacá-lo. Este método funciona melhor com cobras já domesticadas, que possuem alguma relutância a atacar.

Pode-se também oferecer um segundo rato, utilizando o reflexo autónomo de ninho de rato. Este reflexo é observado na maior parte das cobras que se alimentam de roedores. Quando a cobra morder o primeiro rato, ofereça um segundo, encostando-o à segunda metade inferior do corpo, de forma que enquanto come o primeiro faça a constrição ao segundo.

Esta é uma forma de fazer com que a cobra coma dois ratos sem ter que esperar que coma o primeiro para oferecer o segundo.

10. Oferecer um pinkie vivo

Este método é um dos mais polémicos, mas que tem obtido alguns resultados.

Consiste em oferecer um pinkie vivo, na primeira refeição, na segunda oferecer o pré-morto (morto na altura) e fazer assim uma transição para alimento morto.

Este método tem como desvantagem o risco de a cobra nunca se adaptar ao alimento morto, o que pode vir a trazer problemas de futuro com a disponibilidade de alimento vivo. Também é um risco pois quando se oferecem ratos vivos, estes poderem causar danos à nossa cobra.

De todos os métodos foi o único que ainda não tentei. Por achar que existem métodos mais adequados. Contudo este método é muitas vezes preferível a deixar a nossa cobra morrer à fome. Há no entanto métodos que considero mais adequados.

11. Todos os métodos falharam?

É necessário ter em conta uma origem orgânica para a falta de apetite da sua cobra. Quer seja doença bacteriana ou parasítica. Muitas vezes a desparasitação surte efeito no aumento de apetite do animal.

Contudo, devido aos medicamentos utilizados e ás dosagens respectivas, é muitas vezes recomendado que seja um veterinário especializado em animais exóticos a fazer a desparasitação da cobra.

Ponto único: Force Feeding

Existem várias formas de efectuar o force-feeding. A mais inócua para a cobra consiste em segurar bem a cobra e tocar com o pinkie repetidamente no nariz dela, de forma a esta abrir a boca e morder o rato. Este método é seguro e facilmente usado.

Um método que só deve ser utilizado por criadores experientes consiste na verdadeira acepção da palavra force feeding: administrar o pinkie esmagado recorrendo a uma seringa especializada chamada Pinkie-Press, em que o pinkie é esmagado e administrado directamente na garganta da cobra. Este método só deve ser tentado por criadores experientes, já que pode causar sérios problemas às cobras.

Nota final

Todas as cobras têm o seu ritmo. A periodicidade de alimentação varia de animal para animal e de espécie para espécies.

Tenho uma cobra do milho que todos os anos, por altura de Agosto, recusa a alimentação e está mais de um mês sem comer. Uma outra que tenho e em que queria adoptar um ritmo de alimentação de cinco em cinco dias por ser novinha, mas ela não queria nada disso, só comia de sete em sete!

Fique atento ao ritmo dos seus animais. Uma cobra 15 dias sem comer não é preocupante!

Este artigo foi originalmente publicado no antigo Fórum Mundo dos Animais, em Setembro de 2008, com o título “A minha cobra não come, e agora?”.

Tópicos: Cobras, Répteis, Saúde Animal, Animais Exóticos, Animais de Estimação, Artigos em Destaque